Inclui análise, em vídeo, do Jornalista Carlos Narciso. A bajulação dos partidos portugueses (com excepção do Bloco de Esquerda) ao regime angolano do MPLA, no poder desde 1975, é antiga. Talvez do ponto de vista da psicanálise os discípulos de Sigmund Freud expliquem esse complexo português. Dos restantes pontos de vista nada o justifica. Mas que existe, isso existe.

Por Orlando Castro

Recorde-se (sabemos que já foi há muito, muito tempo) que no dia 10 de Março de 2009, PS, PSD, CDS-PP e PCP os esforços do Presidente (não eleito nominalmente e – na altura – há 32 anos no cargo) angolano, José Eduardo dos Santos, na consolidação da democracia (que se calhar até gostariam de ver transplantada para Portugal), e congratularam-se com o aprofundamento das relações entre Portugal e Angola.

As relações são mais e quase exclusivamente entre Portugal e o MPLA, entre Portugal e família dona de Angola (clã de sua majestade o rei José Eduardo dos Santos). Mas isso é, obviamente, irrelevante deste que ajude a atestar os bolsos dos políticos portugueses.

Democracia angolana deve ser aquela coisa a propósito da qual Ana Gomes, então membro da missão de observação eleitoral da União Europeia nas segundas eleições multipartidárias, disse:

“São legítimas as dúvidas que foram levantadas por partidos políticos e organizações da sociedade civil sobre a votação em Luanda”; “Posso apenas dizer que a desorganização foi bem organizada”;

“À última da hora, foram credenciados 500 observadores por organizações que se sabe serem muito próximas do MPLA”;

“Parece que alguém não quis que as eleições fossem observadas por pessoas independentes”;

“As eleições em Luanda decorreram sem a presença de cadernos eleitorais nas assembleias de voto e isso não pode ser apenas desorganização…”

Nessa altura, como hoje, o Bloco de Esquerda acabou por ficar isolado nas críticas à “falta de democracia” em Angola, com os restantes partidos a valorizarem os esforços do Presidente angolano para a paz e para a democracia, só faltando a indicação de que Eduardo dos Santos deveria ser proposto por Portugal (sê-lo-á um dia destes) para o Nobel da Paz.

É natural. Percebemos que (com excepção do BE) PSD e PS queiram ser donos da verdade e que, por isso, se identificam com todos aqueles que são donos, estejam onde estiverem. A vez de Kim Jong-un não tardará a chegar, até porque a de Teodoro Obiang já chegou.

Quanto ao PCP, continua igual a si mesmo, ou não fosse um dos pais do MPLA, ou não fosse o principal responsável pelo facto do MPLA estar no poder em Angola desde 1975.

Em relação ao CDS, já lá vai e está mais do que enterrado o partido que Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, Lucas Pires, Manuel Monteiro ou até mesmo Ribeiro e Castro ajudaram a criar para dignificar a política portuguesa.

Em declarações aos jornalistas, o deputado do BE João Semedo criticou a “perseguição política, violação dos direitos humanos e de liberdade de imprensa” em Angola, sublinhando – em 2009 – que aquele país tem “o mesmo presidente da República há 30 anos”.

Mas tudo isto, e o muito mais que se vai sabendo, é claro, nada significa se comparado com os dólares da Sonangol, de Isabel dos Santos e dos seus acólitos. Tão simples quanto isso.

Quanto ao resto, custe o que custar, continuaremos a dizer que:

– No ranking da corrupção divulgado pela Transparência Internacional, nos 168 países analisados, Angola ocupa a posição 164, sendo apenas ultrapassada pela Somália, Coreia do Norte e Afeganistão. Cabo Verde, por exemplo, está na 40ª posição.

– Em Angola, mais de 68% da população vive em pobreza extrema e a taxa estimada de analfabetismo é de 58%.

– Em Angola, a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos.

– Em Angola, o silêncio de muitos, ou omissão, deve-se à coacção e às ameaças do partido que está no poder desde 1975.

– Em Angola, a corrupção política e económica é, hoje como ontem, utilizada contra todos os que querem ser livres.

– Em Angola, o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

– Em Angola, por cada 1.000 nados vivos morrem 156,9 crianças até aos cinco anos, apresentando por isso a mais alta taxa de mortalidade mundial em 2015.

Por alguma razão, os médicos, em Angola, não precisam de dar as tradicionais palmadinhas nos recém-nascidos para eles chorarem. Explicam que para os bebés começarem logo a chorar basta dizer-lhes que nascerem em… Angola.

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