Há fenómenos que dizem mais sobre um país do que qualquer sondagem eleitoral. E talvez nenhum estudo sociológico consiga medir tão bem o estado mental da sociedade angolana pré-campanha 2027 quanto a recente onda de pânico colectivo sobre o alegado “roubo” de órgãos genitais.
Por Mwata Santos
Sim. Chegámos a esse ponto. Num país onde falta quase tudo – hospitais funcionais, escolas decentes, emprego, transporte digno, água potável e esperança – o debate nacional foi sequestrado por homens em pânico, verificando discretamente se o respectivo património íntimo continua no devido lugar após um toque suspeito.
E o mais assustador nem é o boato. É a facilidade com que ele foi aceite.
A Polícia Nacional, a DIIP e especialistas vieram a público desmentir os casos, afirmando não existir qualquer evidência médica ou criminal de desaparecimento real de órgãos genitais. Especialistas chegaram mesmo a associar o fenómeno à chamada “Síndrome de Koro”, um transtorno psicológico colectivo já registado em várias partes de África e da Ásia.
Mas o estrago já estava feito. Pânico. Caça ao “feiticeiro”. Agressões. Perseguições. Mortes.
E é aqui que a história deixa de ser apenas caricata para se tornar profundamente política.
Porque um povo que acredita facilmente em “roubo espiritual de pénis” é também um povo vulnerável a narrativas emocionais, manipulações colectivas e campanhas de medo.
E o gu-ver-nu do MPLA sabe disso.
Aliás, sempre soube.
Governar Angola nunca foi apenas administrar recursos. Foi compreender profundamente o nível de consciência colectiva do povo e adaptar a estratégia ao respectivo grau de ingenuidade, medo e desespero.
É por isso que, em períodos politicamente sensíveis, surgem sempre fenómenos estranhos: rumores, pânicos morais, medos colectivos, teorias místicas, ameaças invisíveis, inimigos difusos.
Enquanto o povo corre atrás de feiticeiros imaginários, quase ninguém pergunta pelo verdadeiro desaparecimento: o do poder de compra, o da dignidade, o da justiça, o da esperança, e dos milhares de milhões que evaporaram do país sem recurso a feitiçaria nenhuma.
O mais fascinante – e perigoso – é que isto não é novo.
Não é a primeira vez que Angola entra em transe colectivo às portas de ciclos eleitorais decisivos.
Em 2012, governava-se pelo medo da instabilidade.
Em 2017, pela esperança messiânica da mudança controlada.
Em 2022, pela guerra digital da emoção e da desinformação pós-pandemia.
Agora, às portas de 2027, parece medir-se outra coisa: o nível de irracionalidade social ainda disponível para manipulação.
O fenómeno dos supostos “roubos de órgãos genitais” talvez diga menos sobre feitiçaria… e muito mais sobre engenharia psicológica colectiva.
Porque regimes longos aprendem cedo uma lição essencial: não se vence apenas nas urnas – vence-se primeiro na mente das pessoas.
A fórmula é quase científica: mantém-se o cidadão ocupado com sobrevivência, superstição e medo; reduz-se a capacidade crítica, estimula-se o pensamento obscuro, e depois tauas…
É engenharia social tropical em estado puro.
E talvez seja precisamente isso que esses episódios estejam a medir neste momento: não o tamanho dos órgãos genitais, mas o tamanho da consciência nacional antes de 2027.
Até onde vai a credulidade colectiva? Quanto medo ainda funciona? Quão facilmente o povo pode ser distraído? Quanto irracionalismo ainda sobrevive na mente dessa gente?
As respostas a essas perguntas valem mais do que qualquer sondagem eleitoral.
Porque um povo emocionalmente cansado pensa menos. E um povo que pensa menos… vota ainda pior… ou… não vê a manipulação dos resultados à sua vista.
Enquanto parte da população continua convencida de que alguém pode “roubar” órgãos genitais com um simples toque, continua também incapaz de perceber quem realmente lhe roubou o futuro há décadas.
Talvez a maior conspiração de todas nunca tenha sido espiritual. Talvez tenha sido política. E talvez o verdadeiro desaparecimento não esteja entre as pernas do povo… mas na sua capacidade de indignação racional.
Precisamos repensar Angola. É urgente!

