Crise rebenta (também) com a vida dos portugueses

Para milhares de portugueses, a desvalorização em curso no kwanza significa, por estes dias, a machadada final no que alguns chegaram a apelidar de “El Dorado” angolano. Para muitos, o regresso a casa nunca esteve tão próximo.

Só em 15 dias de Janeiro, a desvalorização superior a 25% do kwanza, face ao euro, representa menos 700 euros por mês num salário médio, em Luanda, de 650.000 kwanzas (3.000 euros), recebido em moeda angolana por um trabalhador expatriado.

Sónia Silva, gerente de uma agência de viagens angolana com sede em Luanda, admite que qualquer expatriado recebe hoje menos de metade do que recebia há uns anos, antes da crise.

“Está muito complicado”, desabafa, em conversa com a Lusa, ao mesmo tempo que insiste que a “paixão” por Angola “está intacta”.

Só os portugueses já foram mais de 150.000, no tempo do crescimento económico a dois dígitos e das obras que não paravam um pouco por todo o país. A quebra prolongada na cotação do crude mudou tudo e obrigou nacionais e estrangeiros a mudar também.

Sónia deixou Lisboa quando tinha 34 anos, partindo para Luanda no que deviam ser umas férias. Passaram-se 10 anos, acabou por casar e ser mãe em Angola. Viu o “desenvolvimento brutal” da última década de uma Luanda metropolitana, de sete milhões de habitantes, mas hoje preocupa-se com o “descontentamento das pessoas” e a “instabilidade social” provocada pela crise.

“O factor segurança é algo que me preocupa mais, temos agora mais um bocadinho de cuidado, de evitar andar sozinha no carro, de sair à noite. E fazemos mais contas, toda a gente em Angola hoje faz mais contas, os expatriados também”, explica.

Com o poder de compra em forte quebra, face à desvalorização do kwanza e à inflação que só em 2016 ultrapassou os 40%, os expatriados em Angola enfrentam ainda meses sem fazerem uma transferência do salário recebido em kwanzas para Portugal, em euros.

Atrasa-se pagamento de contas e outros compromissos em Portugal, tudo porque a crise fez rarear os euros e os dólares em Angola.

“Já não me lembro quando é que fiz a última transferência para Portugal. Acredito que há mais de um ano, seguramente. É muito complicado”, admite Sónia, embora reconheça que ter estabelecido a família em Angola, com menos compromissos no exterior, aliviou a pressão das contas.

“Os dias de hoje são muito diferentes de 2008, quando eu cheguei. Levantávamos dólares, levávamos dólares para Portugal. É verdade”, recorda, a propósito do famigerado “El Dorado” angolano. Injusto, afirma, sobre os comentários às condições disponibilizadas aos expatriados: “Emigrar para Angola, para África, não é a mesma coisa que ir trabalhar para o Reino Unido ou para a Alemanha”.

Como muitos portugueses, confessa que a desvalorização do kwanza, iniciada este mês, “fez com que as pessoas” começassem a pensar em “antecipar o regresso”.

Uma espécie de machadada final das dificuldades dos expatriados portugueses.

Embora admitindo que a crise actual é “só uma fase má” e também uma “oportunidade única para investir em Angola”, com um filho pequeno, que cria em Angola, e as preocupações constantes em arranjar cuidados de saúde em Luanda, este passou a ser um ano de decisões sobre o regresso a Portugal.

“Pensar se é este o futuro que quero dar ao Diogo. Estamos na fase de pensar o que é que vamos querer dar ao nosso filho”, diz.

A alguns quilómetros de distância, no Morro Bento, arredores de Luanda, Filipe Cunha, de 39 anos, é hoje director de um hotel. Deixou Trás-os-Montes para abraçar um projecto turístico que já o levou a vários pontos de Angola nos últimos cinco anos, e, apesar das dificuldades, não prevê para já sair.

Chegou a Angola sozinho, na sua estreia em África, mas entretanto casou e já teve dois filhos em Luanda, hoje com três anos e 16 meses. Apesar de “não ver” transferências para Portugal desde 2015, relativiza a situação por ter a família estabelecida em Angola.

O que recebe em Angola, em kwanzas, fica em Angola e serve para, por agora, ter uma vida melhor e com qualidade. Desde logo passeando pelo país.

“A minha vida passa mais por cá, pela minha família, estando cá. Não se coloca tanto esse problema como algumas pessoas, que têm contas para pagar e que não conseguem transferir”, explica.

Deixar Angola, apesar dos “cuidados” atuais, redobrados, não está por isso, para já, em cima da mesa para a família que constituiu em Luanda.

“Mas não posso dizer que vou ficar aqui eternamente”, diz.

Lusa

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