Assinala-se hoje, 28 de Abril de 2026, o Dia Mundial da Educação. Em Angola, o sector que este ano recebeu apenas 6,8% do PIB (Produto Interno Bruto) continua a ser marcado por 4,5 milhões de crianças e jovens fora do sistema nacional de ensino, infraestruturas escolares degradadas e baixos salários para os professores.
Por Geraldo José Letras
A efeméride é celebrada mundialmente em decorrência do Fórum Mundial da Educação, realizado em Dakar, Senegal, no ano de 2000, sob a égide da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), durante o qual foi firmada a Declaração de Dakar, que estabeleceu metas colectivas em prol do desenvolvimento e implementação de acções para assegurar que todas as crianças e adolescentes tenham acesso à educação, a saber:
Ter um cuidado maior e melhor com a educação das crianças pequenas, principalmente com aquelas em situação de vulnerabilidade;
Garantir que todas as crianças, com maior destaque para as meninas, tenham acesso à educação de qualidade;
Suprir as necessidades de aprendizagem dos adolescentes, proporcionando habilidades para a vida;
Atingir uma melhoria de, ao menos, até 50% nos índices de alfabetização dos adultos;
Alcançar a equidade de género na educação básica; e
Garantir a todos uma educação de qualidade.
Para o Governo Sombra da UNITA, a situação da educação em Angola, conforme se pode ler na sua declaração chegada ao Folha 8, “é crítica, porquanto é caracterizada por um investimento público abaixo quer das necessidades do país, quer do tecto recomendado pelo compromisso de Dakar e outros, na medida em que, em 2026, o sector da educação recebe investimento de apenas 6,8% do PIB”.
“Ademais, os baixos salários dos professores e outros profissionais da educação, o estado de precariedade e degradação de parte da infraestrutura escolar nacional e a existência de 4,5 milhões de crianças e jovens entre os 5 e os 18 anos estão fora do sistema de ensino recomendam que a educação seja colocada no quadro das prioridades estratégicas do Estado e que o investimento público no sector deve ser incrementado progressivamente para situar-se entre 15% e 20% do PIB”, recomenda o principal partido da oposição que o MPLA a muito custo ainda permite.
O Governo Sombra da UNITA considera que o investimento qualitativo na educação para o país passa pela adopção da educação escolar integral, “um modelo que visa o desenvolvimento pleno do estudante nas suas dimensões intelectual, física, emocional, social e cultural, indo para além da ampliação da actual jornada escolar de 4 horas, com um currículo integrado com actividades artísticas, desportivas e pedagógicas que formam cidadãos críticos”.
Em muitas províncias, alunos percorrem quilómetros a pé para frequentar escolas improvisadas, sem carteiras, sem água potável e sem condições mínimas de aprendizagem. Em Luanda, o cenário não é menos alarmante: escolas públicas com turmas que chegam a ultrapassar 70 alunos tornaram-se regra, não exceção.
Apesar de sucessivos anúncios governamentais sobre construção de novas escolas, o défice de salas de aula continua gritante. Dados de relatórios oficiais e de organizações independentes indicam que Angola necessita de dezenas de milhares de novas salas para atender à procura actual.
Muitas das escolas existentes apresentam sinais evidentes de degradação: telhados danificados, falta de sanitários funcionais, ausência de energia eléctrica e mobiliário escolar insuficiente. Em alguns casos, aulas decorrem debaixo de árvores — uma imagem que se repete há décadas e que desmente qualquer narrativa de progresso acelerado.
Outro ponto crítico reside na condição dos professores. Com salários considerados baixos face ao custo de vida, atrasos pontuais e falta de incentivos à progressão na carreira, muitos docentes acumulam funções ou abandonam a profissão.
A escassez de professores qualificados agrava o problema. Em várias regiões, o sistema recorre a docentes sem formação pedagógica adequada, comprometendo a qualidade do ensino. A formação contínua, quando existe, é irregular e insuficiente.
Especialistas alertam que o país enfrenta uma “bomba-relógio social”. Uma geração inteira cresce sem acesso à educação de qualidade, o que compromete o futuro económico, aumenta as desigualdades e perpetua ciclos de pobreza.
Neste Dia Mundial da Educação, Angola não celebra conquistas — expõe fragilidades. O país que subscreveu compromissos internacionais para garantir educação para todos continua a falhar com milhões de crianças.
Enquanto isso, o calendário avança, os discursos repetem-se e o sistema educativo permanece refém de promessas que nunca saem do papel. A pergunta que se impõe é simples e incômoda: até quando?


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