Perante o estertor do seu regime é bem possível que José Eduardo dos Santos faça uma última tentativa para o manter vivo. Essa tentativa pode passar (e está em cima da mesa do núcleo duro do Presidente do MPLA e da República) por declarar o corte de relações com Portugal.

Por Norberto Hossi e Óscar Cabinda

A acusação de corrupção feita pelo Ministério Público de Portugal ao vice-Presidente da República, Manuel Vicente, pode ser uma excelente botija de oxigénio. Esta “medicação” foi testada numa dose experimental com o impedimento da visita da ministra portuguesa da Justiça, Francisca Van Dúnem, e terá dado – segundo os kimbandas do reino – excelentes resultados.

Através desta metodologia terapêutica, José Eduardo dos Santos poderá justificar tudo o que lhe apetecer, numa espécie de reedição (revista e adaptada) do que fizera com Jonas Savimbi. Ou seja, pode justificar uma crise grave que permita – entre outras coisas – adiar as eleições previstas para Agosto e, também, dizer aos acólitos do partido que, para pôr um fim definitivo aos resquícios do colonialismo português, terá de ser mesmo ele a ser o cabeça-de-lista do MPLA.

De facto, quem melhor do que José Eduardo dos Santos para acabar com a “cumplicidade criminosa” de alguns “sectores de Portugal” na guerra civil e com a “incompreensão absurda” portuguesa e europeia quanto ao seu regime?

“Com a crise do petróleo o país foi devastado. Lamentavelmente, com a cumplicidade criminosa de sectores em Portugal e na Europa que preferem continuar a ter uma Angola fraca a uma Angola igual entre as nações do Mundo, somos obrigados a cortar relações”, dirá um dia destes o Pravda do regime, citando o Presidente da República.

José Eduardo dos Santos recordará que, em 2002, o país precisava do apoio dos doadores europeus, mas que mais uma vez Portugal se pôr de fora, razão pela qual o regime teve de apostar numa parceria com a China, para a reconstrução nacional.

“As autoridades angolanas precisavam do cumprimento das promessas feitas pelos doadores internacionais em Bruxelas, mas essas foram-lhes recusadas pelos mesmos que criticam hoje o facto de Angola querer fazer o seu caminho sozinha. Quando as portas são fechadas — como hoje volta a acontecer — como não seguir pela alternativa que sobra, a de caminhar caminhando”, questiona sua majestade o rei.

Indirectamente, através do sipaios de serviço, José Eduardo dos Santos tecerá crítica às posições assumidas pelo Governo e Assembleia da República de Portugal e pela União Europeia no caso das condenações — e proporção das penas aplicadas -, pelo tribunal de Luanda, aos 17 activistas.

“Hoje as atenções estão viradas para o processo de reforço das instituições do Estado democrático de direito e de diversificação económica. Os angolanos estão outra vez a arregaçar as mangas, mas novamente contam com a incompreensão absurda de Portugal e da União Europeia”, dirá – provavelmente na primeira pessoa – o presidente nunca nominalmente eleito e há 38 anos no poder.

Perante todo este cenário, logo surgirá uma enorme onda de fundo a pedir a continuidade de José Eduardo dos Santos, reconhecida que será a certeza de que não há alternativa de poder no país.

“Os dirigentes europeus não se coíbem de mentir aos seus próprios povos sobre a realidade angolana e afirmam abertamente que pugnam pelo isolamento internacional do Governo angolano, como se houvesse uma alternativa ao actual poder em Angola que não fosse mais um aventureirismo político”, explicará José Eduardo dos Santos.

E tem razão, reconheça-se. Quando se tem um “querido líder” que foi “escolhido de Deus”, que tem poderes divinos, que é o mais alto representante de Deus em (pelo menos) Angola, que está muito, mas muito mesmo, acima dos seus pares (caso de Nelson Mandela), que só tem rivais – embora a grande distância – como Teodoro Obiang ou Kim Jong-un, não há mesmo alternativa.

Na verdade o regime de José Eduardo dos Santos já está em campo. O seu Pravda privativo, conhecido como “Jornal de Angola”, publica o comunicado do MPLA em que se critica Portugal, afirmando que “custa ver tanta falta de vergonha”. Embora se estivesse a ver ao espelho, o autor do texto diz que essa falta de vergonha tem a ver com a acusação da Justiça portuguesa contra o impoluto, virgem e honorável vice-presidente angolano, Manuel Vicente.

No artigo em questão, o Pravda realça o que o patrão e patrono manda, ou seja a “justeza da nota de protesto” que o Ministério das Relações Exteriores angolano emitiu sobre o “modo como as autoridades portuguesas divulgaram um suposto caso de Justiça” envolvendo o vice-Presidente da República, Manuel Vicente.

“A maneira leviana como as autoridades portuguesas ‘permitiram’ a fuga de informação que levou para a imprensa lusa esta ‘notícia’, é a confirmação daquilo que aqui já havia sido dito sobre a existência de uma campanha internacional especialmente orquestrada para denegrir a imagem de Angola e dos seus principais dirigentes neste ano de eleições”, lê-se no artigo.

A posição do Pravda já era esperada. Levou algum tempo a ser publicada porque teve de esperar pelas “ordens superiores”. Além disso, a mercenária direcção do boletim oficial do MPLA tem dificuldade em contar até 12 sem se descalçar. E quando o faz sente-se o odor típico do seu meio ambiente: as latrinas do poder.

“Apesar de estarmos preparados para isso, a verdade é que nos custa ver tanta falta de vergonha, sobretudo vinda da parte daqueles que se dizem nossos amigos”, diz o comunicado do MPLA, versão artigo de jornal. Esclareça que quando escrevem “nossos amigos” se referem aos amigos do regime, do MPLA, e não dos angolanos.

Este diferendo entre Angola e Portugal, entre uma ditadura e uma democracia, entre um regime unipessoal e esclavagista e um Estado de Direito, pode indiciar também que algo de mais dramático pode estar a ser preparado pelo MPLA.

Para além das alternativas já aduzidas, o “crise” com Portugal pode ser o motivo ideal para, internamente, o regime arrasar com os opositores, culpando-os de serem “apoiantes dos interesses estrangeiros”, “beneficiários de uma nova colonização” e – no caso – “coniventes com as afrontas de Portugal à soberania angolana”.

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