Isaías Samakuva, líder da UNITA, disse no dia 3 de Dezembro de 2015 que o MPLA necessita de rever os seus ideais e princípios porque eles não se ajustam às aspirações dos angolanos. A esmagadora maioria dos angolanos concordará. O problema está que, afinal, esta afirmação de Samakuva não foi feita nesse dia mas – note-se – no dia 26 de Maio de… 2010.

Por Orlando Castro

“O Governo não tem vontade, nem capacidade de resolver os problemas de água, luz, lixo, saúde e da educação. A juventude não tem casa, não tem educação, emprego e não tem futuro. Os trabalhadores têm salários em atraso e não conseguem obter crédito bancário, devido às altas taxas de juro praticadas pelos bancos”, afirmou Isaías Samakuva.

Quando? Nesse mesmo dia de há cinco anos. Não será caso para perguntar se não será altura da UNITA assumir que, desde 2002, tem andado a vender gato por lebre, mostrando sempre o mesmo diagnóstico mas, como se vê, nada fazendo quanto a medidas concretas?

Mas desde quando é que os ideais dos ditadores levam em conta as aspirações do povo? Estar 38 anos no poder, com o poder absoluto que teve nas mãos (é além de presidente da República e também líder MPLA e Titular de Poder Executivo), fez de José Eduardo dos Santos um dos ditadores que mais tempo esteve no activo.

Se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. É o caso em Angola. Mas ninguém se preocupa com isso. A UNITA diz que se preocupa, mas não sai dessa barricada. Fala, fala e… fala. Acções? Não. Reagir? Sim, de vez em quando. Agir? Não, isso nunca.

Só em ditadura, mesmo que legitimada pelos votos comprados a um povo que quase sempre pensa com a barriga (vazia) e não com a cabeça, foi possível estar tantos anos no poder e depois, dinasticamente, escolher o seu sucessor ao trono. Em qualquer estado de direito democrático tal não seria possível.

A não ser que a UNITA se tenha resignado ao seu papel de mero figurante nesta pseudo-democracia, o que a ser verdade fará Jonas Savimbi dar voltas e voltas no caixão, dela se esperaria muito mais em matéria de intervenção política, cívica e social. Dela se esperaria que procurasse o que procuram os nossos jovens activistas. Ou seja, que Angola seja de facto uma democracia e um Estado de Direito.

Aliás, e Angola não foge infelizmente à regra, África é um alfobre constante e habitual de conflitos armados porque a falta de democraticidade obriga a que a alternância política seja conquistada pela linguagem das armas. Há obviamente outras razões, mas quando se julga que eleições são só por si sinónimo de democracia está-se a caminhar para a ditadura.

A UNITA será sempre acusada pelo regime por tudo o que de mau se possa passar em termos de estabilidade, segundo o conceito do regime totalitário. Ao menos, já que vai ser presa por ter cão e por não ter, poderia fazer algo de útil, de concreto, de visível, de palpável em prol dos angolanos.

Com Eduardo dos Santos passou-se exactamente isso. A guerra legitimou tudo o que se consegue imaginar de mau. Permitiu ao ex-presidente perpetuar-se no poder, tal como como permitiu que a UNITA dissesse que essa era (e pelo que se vai vendo até parece que teve razão) a única via para mudar de dono do país.

É claro que, é sempre assim nas ditaduras, o povo foi sempre e continua a ser (as eleições não alteraram a génese da ditadura, apenas a maquilharam) carne para canhão.

Por outro lado, a típica hipocrisia das grandes potências ocidentais, nomeadamente EUA e União Europeia, ajudou a dotar José Eduardo dos Santos ou João Lourenço com o rótulo de grande estadista. Rótulo que não corresponde ao produto. Essa opção estratégica de norte-americanos e europeus tem, reconheça-se, razão de ser sobretudo no âmbito económico.

E o que tem feito a UNITA para contrariar isso? Pouco, muito pouco, quase nada. Fizeram mais, incomensuravelmente mais, jovens como Luaty Beirão, Domingos da Cruz, Nito Alves, Sedrick de Carvalho, Ganga e tantos outros. Mais com menos meios, mas com muito mais vontade, com mais noção de que os que são gerados com fome, nascem com fome e morrem com fome também são angolanos.

É muito mais fácil negociar com um regime ditatorial do que com um que seja democrático. É muito mais fácil negociar com alguém que, à partida, se sabe que irá estar na cadeira do poder durante toda a vida, do que com alguém que pode ao fim de um par de anos ser substituído pela livre escolha popular.

E o que tem feito a UNITA para contrariar isso?

É, como aconteceu com José Eduardo dos Santos, muito mais fácil negociar com o líder de um clã que representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto, do que com alguém que não seja dono do país mas apenas, como acontece nas democracias, representante temporário do povo soberano.

Bem visível, no caso angolano, é o facto de, como em qualquer outra ditadura, quanto mais se tem mais se quer ter, seja no país ou noutro qualquer sítio. Por muito pequeno que seja o ditador, o que não é o caso de José Eduardo dos Santos, a História mostra-nos que tem sempre apreciável fortuna espalhada pelo mundo, seja em bens imobiliários (como era tradição) ou mais modernamente nos paraísos fiscais.

Reconheça-se, entretanto, a estatura política de José Eduardo dos Santos, visível sobretudo a partir do momento em que deixou de poder contar com Jonas Savimbi como o bode expiatório para tudo o que de mal se passava em Angola e, sejamos sinceros, viu em Isaías Samakuva o líder ideal para uma UNITA que de bom grado trocou a mandioca pela lagosta.

Desde 2002, o presidente vitalício (ao que parece assim continua a ser) de Angola tem conseguido fingir que democratiza o país e, mais do que isso, conseguiu (embora não por mérito seu mas, isso sim, por demérito da UNITA) domesticar completamente todos aqueles que lhe poderiam fazer frente.

A excepção, reconheça-se uma e tantas vezes quantas for necessário, são os jovens activistas que foram presos às ordens de um regime que quer o seu povo faminto e inculto, escravo.

Não é crível que, até pelo facto de o país ter estado em guerra dezenas de anos, José Eduardo dos Santos tenha as mãos limpas de sangue. Aliás, nenhuma ditador com 38 anos de permanência seguida no poder, tem as mãos limpas.

Mas essa também não é uma preocupação. Quando se tem milhões, pouco importa como estão as mãos. Aliás, esses milhões servem também para branquear, para limpar, para transplantar, para comprar (quase) tudo e (quase) todos.

Tudo isto é possível com alguma facilidade quando se é dono de um país rico e, dessa forma, se consegue tudo o que se quer. E quando aparecem pessoas que não estão à venda (como os jovens activistas e não como a maioria dos políticos da oposição) mas incomodam e ameaçam o trono, há sempre forma de as fazer chocar com uma bala. E a UNITA não corre esse risco. É pena.

Acresce, e nisso os angolanos não são diferentes de qualquer outro povo, que continua válida a tese de que “se não consegues vencê-los junta-te a eles”. Não admira por isso que o MPLA tenha mais alguns fiéis seguidores, sobretudo por omissão.

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