A Rede Angolana das Organizações de Serviços de Sida (Anaso) afirmou hoje que as infecções por tuberculose, malária e Sida “estão a aumentar assustadoramente” em Angola, com o país a registar 25.000 novas infecções do VIH/Sida anualmente. “Há relatos de crianças com nove, dez e onze anos que se estão a prostituir…”

Ainformação foi prestada hoje pelo secretário executivo daquela Organização Não-Governamental, que falava à imprensa no final do workshop nacional das Organizações da Sociedade Civil para o Reforço ao Sistema de Saúde Comunitário de Angola, sublinhando que a Anaso concluiu igualmente que a saúde comunitária do país “está doente”.

“A saúde comunitária em Angola, à luz das nossas reflexões, é um desafio. A saúde comunitária em Angola não está de saúde, se olharmos para as principais doenças comunitárias que acontecem”, explicou António Coelho.

A organização não tem dúvidas no diagnóstico: “A malária, nos últimos cinco anos, continua a ser a principal causa de morte e a tuberculose é aquela doença que até ao momento continua a ter um tratamento que não vai com a realidade e a preocupação que ela devia constituir, enquanto doença contagiosa”.

Para António Coelho, o país precisa de mudar o seu paradigma em torno da saúde comunitária, mais próxima das populações, com o apoio governamental.

“Ao contrário dos países da região, onde são as organizações comunitárias que assumem a saúde local e o Governo comparticipa e gere todo esse processo. Reflectimos em relação à nossa visão do que deve ser o sistema comunitário da saúde em Angola nos próximos cinco anos”, apontou ainda.

Organizações da sociedade civil de vários pontos de Angola discutiram, nos últimos dois dias, neste encontro em Luanda, temáticas ligadas à saúde comunitária no país, com um olhar específico a malária, tuberculose e HIV/Sida.

De acordo com o secretário executivo da Anaso, a situação dessas doenças no país “continua a ser preocupante”.

“A resposta, na nossa opinião, deve ser generalizada em função do número alarmante de casos que têm estado a aumentar”, acrescentou.

Daí que, exortou, é necessário “que se fale mais sobre a saúde comunitária” em Angola, e que “haja mais fundos para que diferentes acções identificadas a nível das comunidades possam ser implementadas”.

Recorde-se que a Anaso rejeita que a taxa de prevalência da Sida no país seja apenas de 2,1%, conforme estimativa das autoridades governamentais, aludindo à mortalidade que se regista.

“Porque nós sabemos que morrem muitas pessoas em Angola com Sida e nós ainda não somos capazes de chegar aos sítios mais recônditos do país para o diagnóstico, aí onde a promiscuidade sexual existe”, disse Teresa Cohen, presidente da Anaso, organização criada em 1994.

A responsável falava em Luanda, no dia 10 de Maio de 2017, durante a cerimónia de abertura de um seminário sobre liderança e gestão de projectos para as organizações da sociedade civil em Angola, organizado pela Anaso, tendo exortado ao empenho das organizações da sociedade civil angolana “para que a taxa de prevalência de Angola seja verdadeira”.

“Não acredito muito na taxa de prevalência de 2,1% para Angola”, apontou, explicando que para este número estar correcto devem estar a “morrer muitos” dos que nascem infectados.

O Instituto Nacional de Luta contra a Sida estima que cerca de 300.000 pessoas estejam a viver com o VIH entre homens, mulheres e crianças numa taxa de prevalência de 2,1% da população.

A Anaso, porém, estima que a epidemia afectou já cerca de meio milhão de pessoas, sendo que apenas 215.000 estão a ser acompanhadas e apenas 78.000 estão a beneficiar de terapia anti-retroviral.

Teresa Cohen disse estar “muitas vezes animada e outras desiludida” com os resultados das acções em torno do combate do VIH/Sida em Angola, pelo facto de “esperar muito” da Comissão Nacional de Luta contra a Sida e a Lei da Sida, tendo ainda “lamentado” o facto de passados mais de 20 anos de actividade, a Anaso não ter sido reconhecida com o estatuto de instituição de utilidade pública.

“Desde que começamos a trabalhar muitas outras intuições que do meu ponto de vista não têm tanta força social e política já são instituições de utilidade pública e têm o apoio do governo. A Anaso não é até hoje reconhecida como instituição de utilidade pública, por este facto nos socorremos dos doadores”, concluiu.

Só 10% das crianças são tratadas

A Anaso estima que apenas 3.000 crianças infectadas com HIV-Sida em Angola estão a fazer terapia anti-retroviral, o equivalente a cerca de dez por cento do total.

A informação foi prestada, em Março, por António Coelho, secretário-executivo desta ONG, assumindo a preocupação com o nível crescente de menores sem acesso a medicamentos ou tratamentos.

“Estamos a falar de um país com cerca de 26 milhões de habitantes, onde cerca de 30.000 crianças estão neste momento infectadas pelo HIV, e dessas apenas cerca de 3.000 estão a ser acompanhadas e fazem terapia, porque a taxa de cobertura do tratamento a nível das crianças ainda é muito baixa”, reconheceu o responsável.

António Coelho precisou que o nível do corte de transmissão vertical também é muito baixo, esclarecendo que entre 100 crianças filhas de mães seropositivas em Angola, 24 nascem igualmente seropositivas.

“Portanto, o quadro também não é muito bom e neste particular temos de continuar a lutar para melhorar”, lamentou.

A Anaso revela igualmente que têm vindo a crescer em Angola os números da contaminação ou transmissão dolosa do HIV-Sida: “Continuamos a ter pessoas em Angola que, com alguma estabilidade financeira, vão passando de forma consciente o vírus para outras pessoas. Estamos preocupados porque em média recebemos entre cinco a 10 denúncias por dia, uma situação que tem estado a contribuir assustadoramente para o número de novas infecções”.

Apesar da lei que pune estes casos, António Coelho disse que a contaminação dolosa requer novos métodos e estratégias, defendendo por isso maior aposta na mudança de comportamento das pessoas, por considerar que “o processo é bastante lento e demorado”.

Angola vive desde finais de 2014, por incompetência do Governo, uma profunda crise económica e financeira decorrente da quebra para metade nas receitas petrolíferas, o que tem vindo a obrigar à contenção nas despesas públicas, com reflexos na situação socioeconómica das famílias.

A Anaso lamenta a diminuição de verbas para o sector da Saúde e revela que em consequência da crise no país existem adolescentes a iniciarem a actividade sexual de forma precoce e relatos de crianças a iniciarem actividade de prostituição com apenas nove anos, devido às dificuldades de sobrevivência.

“Estamos a receber relatos de pessoas que se estão a prostituir-se com nove, dez e onze anos, isso requer da nossa parte uma intervenção rápida no sentido de mudarmos o quadro, mas seguramente que isso tem outras factores. É preciso, de facto, criar condições para combater a pobreza”, explicou.

De entre as acções da Anaso para 2017 constam a realização de campanhas públicas de sensibilização e educação à população em relação aos perigos que a doença apresenta e ainda uma aposta na adesão da população ao teste.

“Menos de 20% da população angolana realizou o seu teste do HIV. Este é um número bastante baixo, aí também deverá recair a nossa aposta neste ano”, concluiu António Coelho.

Folha 8 com Lusa

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