Um grupo liderado pela Sodiba, fábrica angolana de cervejas de Isabel dos Santos, prevê investir 120 milhões de dólares (102 milhões de euros) para instalar em Luanda uma unidade de embalagens de vidro.

A informação consta do contrato de investimento entre o grupo privado e a Unidade Técnica para o Investimento Privado (UTIP) e que além da Sodiba – fábrica que assegura a produção, a partir de Luanda, da cerveja portuguesa Sagres – envolve também a Embalvidro e a Industrial Africa Development (IAD).

De acordo com o contrato, autorizado por despacho paternal (presidencial) de 14 de Agosto, os investidores privados pretendem construir e operar, em Luanda, uma unidade produtiva de embalagens de vidro.

Na nova fábrica, a empresa de Isabel dos Santos, filha do chefe de Estado angolano e – entre um manancial de outros cargos – Presidente do Conselho de Administração da petrolífera do regime (Sonangol), terá uma participação de 51%, enquanto a IAD contará com uma posição de 49%, estimando o contrato de investimento o aumento da capacidade produtiva nacional, a “promoção do desenvolvimento de zonas mais desfavorecidas” e a criação de 188 postos de trabalho directos.

O contrato com a UTIP, em representação do Estado, prevê a atribuição de vários benefícios fiscais, desde logo a redução em 67,5% da taxa do imposto sobre a aplicação de capitais e de SISA, durante oito anos.

A Sagres, cerveja portuguesa que começou a ser produzida este ano em Angola, pela Sodiba, pretende retomar o seu volume de vendas, de cerca de 35,3 milhões de litros anuais, relativo ao período antes do início da crise económica angolana.

A meta foi avançada anteriormente pelo administrador da Sagres para a área de logística, José Torres, que no início deste ano admitiu que devido à crise que se faz sentir em Angola desde 2014 as vendas foram fortemente afectadas.

“Como cerveja de exportação chegamos a vender cerca de 35,3 milhões de litros em Angola. Era o volume que nós tínhamos antes de começar a crise”, referiu.

Acrescentou ainda que outro dos objectivos é serem capazes de recuperar, no primeiro ano, os mesmos volumes e atingirem uma quota de mercado da marca Sagres, de cerca de 5% do total do mercado angolano. “Isso é o volume que nos estamos a propor e queremos atingir”, frisou.

A marca portuguesa foi instalada em Angola em parceria com a Sociedade de Distribuição de Bebidas de Angola (Sodiba), fábrica da empresária angolana Isabel dos Santos.

Para a instalação daquela unidade fabril, a Sodiba, a mais recente empresa de produção e distribuição de bebidas em Angola, fez um investimento, maioritariamente angolano, que ascendeu os 150 milhões de dólares (cerca de 141 milhões de euros).

Localizado no Polo Industrial do Bom Jesus, a 60 quilómetros de Luanda, este complexo industrial conta com uma área total de 40 hectares e uma capacidade de produção instalada de 144 milhões de litros/ano de cerveja, extensível até 200 milhões de litros, tendo a produção arrancado em Janeiro passado.

Envolve duas linhas de enchimento, uma com capacidade para 50 mil garrafas/hora e outras linhas para o enchimento de latas com a mesma capacidade.

A santa dos Santos

Recorde-se que Isabel dos Santos, a mulher mais rica de África, é já um património da humanidade, sobretudo a nível da transparência empresarial e da valorização de um produto quase autóctone – o ovo. Não são produzidos pelas chamadas galinhas de Angola mas de um seu parente, o que para o efeito é irrelevante.

Além disso, como se sabe, a ascensão empresarial da Santa Isabel dos Ovos (de ouro) não se deveu, longe disso, ao facto de ser filha do dono do aviário, mas tão somente à sua capacidade genética para antecipar os bons negócios, dos quais a venda de ovos foi um talismã.

Acresce que todas as afirmações de Isabel dos Santos, ovíparas ou não, constituem um legado da humanidade. Vejamos algumas que fez ao influente jornal britânico Financial Times:

“Lembro-me quando existiam 300 mil carros em Luanda, quando existiam 600 mil carros, quando existia um milhão de carros e agora penso que existem 2 milhões de carros. Está relacionado com o crescimento do mercado de consumo. Apenas cresceu de forma muito mais rápido do que as infra­estruturas podiam acompanhar”;

“Como se consegue baixar a desigualdade em Angola? Criando oportunidades e criando cada vez mais desenvolvimento. Acordar de manhã e ir trabalhar, fazer alguma coisa. Vai demorar muito tempo, mas quanto mais coisas se fizer acontecer, mais coisas serão construídas”;

“Duvido [que os meus pais tenham sido apresentados pela KGB, quando se conheceram na antiga União Soviética]. Demoraram sete anos a casar, a obter as autorizações. Não penso que tenha sido o KGB, pois nesse caso teriam obtido os papéis mais cedo”;

“O meu pai gosta de cozinhar. Gosta de Peixe. Nunca tivemos o sentido da grandiosidade. Eu ia a pé para a escola”;

“Imagino que seja muito difícil distinguir o pai da filha. Penso que essa dificuldade advenha de estar a fazer as minhas coisas e o meu pai ser uma figura política africana muito forte há tantos anos”;

“Os meus pais foram muito exigentes comigo. Tinha cerca de 23 horas de aulas por semana, mais os laboratórios, mais os relatórios, pelo que não havia tempo para divertimentos”;

“Há muitas pessoas com ligações familiares, mas que hoje não são ninguém. Se for trabalhador e determinado vai ter sucesso e isso é o principal. Não acredito em caminhos fá­ceis”;

“Não estou envolvida na política e nunca tive qualquer papel na política. Nunca tive um emprego na administração pública. Não trabalho com o Governo”;

“Estou sempre a trabalhar, sete dias por semana. O trabalho é divertido. Se faz alguma coisa que vai dar um emprego a alguém, e essa pessoa depois pode pagar a educação do seu filho, e depois o seu filho vai ser um médico, que provavelmente ajudará muitas outras pessoas, isso é muito motivante. Muito mais divertido do que ir para a praia”.

Folha 8 com Lusa

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