Nota: Este artigo foi escrito em 2014. Perante as denúncias de raptos e assassinatos de mulheres nos últimos meses, importa tornar público o relato duma senhora que foi raptada e com muita sorte deixada viva quando os seus raptores tinham ordens para a matar.

Por Sedrick de Carvalho

Quatro mulheres, todas de nacionalidade angolana, foram raptadas e libertadas posteriormente, isto no dia 6 de Outubro de 2014, por indivíduos até ao momento desconhecidos.

Quando era 1 hora da madrugada de segunda-feira, dia 6, uma das vítimas, cuja identidade mantemos em segredo por questões de segurança e, portanto, atribuímos o nome de Marta, começou a receber “telefonemas estranhos”, informando que sua filha mais nova “estava gravemente doente e hospitalizada no hospital Maria Pia”. Apavorada e sem saber o que fazer naquele momento, Marta esforçou-se para contactar o filho mais velho, de 24 anos, com quem supostamente a filha estaria no hospital, mas sem sucesso.

Os telefonemas continuaram ao longo da madrugada. Assim que o relógio marcou 5h30, Marta preparou-se e decidiu “apanhar” o primeiro táxi que viu passar. Estava no Zango, em Viana.

“Ligaram-me três vezes com a mesma história e isto atormentou-me. Por azar, não tinha saldo no telemóvel. Mandei tantos ´liga só´ ao meu filho, mas nem assim tive resposta”, relata, visivelmente ainda assustada.

Com a pressa de chegar ao hospital, Marta não hesitou em subir no primeiro carro que parou, com as cores azul e branco “do tipo caixa de fósforo”, motivada principalmente porque no interior estavam outras senhoras e um jovem que pareciam passageiros, num total de seis pessoas, contando com o motorista e o suposto cobrador.

Alguns metros depois do arranque da viatura – narra a vítima – o moço que ela julgava ser também passageiro ordenou-lhe que entregasse o telefone.

“Quando ele me disse aquilo pensei que estava a brincar comigo e não o entreguei. Afinal as outras senhoras já sabiam, e disseram-me para cumprir o que ele disse”, frisou, continuando o relato: “Ainda gritei: ´Ai meu Deus. Não me façam mal´”.

Amarradas e vendadas

Dali para a frente, Marta, tal como as outras mulheres, teve a certeza de que estava sob custódia de marginais e por isso adoptou o comportamento de quem já estava há mais tempo na viatura: calma e rezando para que o pior não acontecesse.

“O moço recebeu-me o telefone. Receberam dólares duma senhora que parecia ser kinguila, à outra tiraram 20 mil Kwanzas e a mim os oito mil”, declara.

Em seguida, os homens amarraram e vendaram as mulheres. “Nos amarraram com uns panos pretos nos olhos e na boca para não vermos nada nem gritarmos”, descreveu.

O percurso seguinte foi feito às cegas. Após muito tempo de andamento, apenas recorda que o carro passou em buracos e locais molhados. “Parecia que estávamos numa mata”, lembra.

Cerca das 14h00, os raptores retiraram-lhes as faixas dos olhos e Marta conta que percebeu que estavam realmente numa mata, onde havia apenas uma casa grande. O grupo entrou na habitação e apresentou as vítimas ao suposto líder do grupo, identificado por «chefe Café».

“Eles chamavam-se por chefe Café, chefe Sal, chefe Cebola, até chefe Faca. Tudo em código”, atesta.

Ao ver a “mercadoria”, como disseram os raptores, o «chefe Café» disse aos “cabolas” que se tinham enganado, por alegadamente não serem aqueles “tipos de mulheres” as que deveriam ter sido raptadas. Uma alegria repentina apoderou-se das mulheres ao ouvirem aquelas palavras, mas assustaram-se quando o líder mandou “desfazerem-se delas”.

“Quando ele disse para eles se desfazerem de nós, chorei, porque pensei que nos matariam para não deixarem pistas”, diz.

Raptada há dois anos

Em seguida foram levadas para um local para comerem. Ali encontraram o que acreditam serem “muitas pessoas raptadas, inclusive crianças”. Foi uma jovem, de aproximadamente 22 anos, que, ao ver uma delas chorar, aproximou-se e disse-lhe para ser forte.

“Aquela menina disse-me que já estava ali há dois anos. Contou-me que foi raptada no Kwanza-Norte”, recorda.

Após a refeição, os “cabolas” questionaram as vítimas se reconheciam o local, e todas responderam negativamente. Entregaram o telefone de uma delas, depois de apagarem todas as informações que lá estavam. Imediatamente colocaram as mulheres num jeep branco e novamente taparam a boca e os olhos delas. Foram deixadas num sítio isolado.

“Só depois de alguns minutos é que a senhora que tinha os dólares deu conta que estávamos perto da praça do «Trinta» e como ela tinha uma cunhada que vendia ali, então decidimos ir à bancada dela e lhe pedir dinheiro para apanharmos autocarro”, desabafa, com as lágrimas no canto do olho.

Marta lembra que a viagem da mata onde estavam até ao sítio onde foram deixadas durou quase duas horas. Em conversa com as outras cidadãs, Marta soube que foram raptadas no Cazenga, Cacuaco e Benfica, todas no mesmo dia.

Traumatizada, a cidadã preferiu não apresentar queixa à Polícia Nacional por desconfiar de tudo e todos.

Alguns desaparecidos em 2014

Nos últimos tempos, vários cidadãos têm denunciado às autoridades policiais e nas redes sociais, com realce para o Facebook, o desaparecimento de familiares, muito deles de forma misteriosa.

Eloy Aires Cudidia Laurindo, Adilson Penelas Gregório, Cláudio António Quiri, Arnaldo Vivaldo Brandão e Daniela Ruth, são algumas das pessoas que sumiram sem deixarem rasto.

Eloy Aires, de 25 anos, desapareceu alguns dias depois de contrair matrimónio, quando se divertia na ilha de Luanda, na companhia de amigos.

Quanto ao desaparecimento de Adilson Penelas, familiares afirmam que o jovem saiu de casa no intuito de acompanhar Cláudio António e nunca mais voltou.

Paulina António, mãe de Cláudio, conta: “Apenas sabemos que o raptaram na estrada da Samba, no dia 12 de Julho de 2014, com o amigo”.

Segundo dados divulgados pelo extinto semanário «A Capital», Arnaldo Vivaldo foi visto pela última vez no dia 1 de Junho de 2014. Já a adolescente Daniela Ruth desapareceu numa sexta-feira, exactamente quando se dirigia à escola onde estudava. “De lá para cá, não mais foi vista”, nota a fonte.

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