Os internautas têm estado a rejubilar, com maior intensidade nas redes sociais e nos palcos da socialite, com as medidas e discursos contundentes de João Lourenço: “Vamos combater a corrupção!” BRAVO! Palmas… agora sim, este é o presidente…

Por William Tonet

E na sequência a espinha dorsal discursiva assenta numa contundente condenação a crise económica, financeira e social, provocada, pasme-se, pelo seu partido. E diz, vamos reduzir o governo…

BRAVO!

Palmas… porque Lourenço prometeu afastar, acabar e, quiçá, nas entrelinhas, colocar na prisão os corruptos, os gatunos do anterior governo… mas, até agora, apenas 1,5 (um e meio) foram indiciados de ilícitos financeiros.

BRAVO!

Palmas, na sequência do verbo andarilho…

Mas, no dobrar da esquina, a realidade leva-nos a desembarcar, num porto real; o causador exclusivo, pelo país estar no abismo, face à crónica má gestão económica, ao peculato, ao nepotismo, à roubalheira e à corrupção institucional, ser o próprio partido: MPLA.

BRAVO!

Seguem-se as palmas…

Nas entrelinhas, João Lourenço, segundo alguns observadores, passa de forma sub-reptícia, ao público (do regime e da oposição), que o único causador da desgraça colectiva dos mais de 20 milhões de autóctones pobres, ser José Eduardo dos Santos, promovido emeritamente, a demónio…

Bravo! O povo gosta de ouvir isso.

Mas será possível, José Eduardo dos Santos, durante os 42 anos de controlo do poder por parte do MPLA e 38 de consulado de poder absoluto, apenas se ter enriquecido, os filhos e os familiares, relegando para último plano, todos os companheiros de rota?

NÃO!

E é aqui que a porca torce o rabo, porquanto, a realidade mostra ser transversal a roubalheira, a todos ex-proletários, absolutamente, todos, nas vestes de altos dirigentes do MPLA, convertidos em proprietários vorazes, com base na delapidação das finanças do Estado.

BRAVO!

Por esta razão, ainda não se matando a esperança, o optimismo contido, se impõe, porque se pode perguntar onde andava a actual caravana? Não beneficiou de financiamentos bancários que não pagaram? Não foram responsáveis ou cúmplices da falência da CAP e do BESA? Não têm património ilícito, nem foram cúmplices das violações de direitos humanos?

Porquê?

Para credibilizar a nova aurora, os actos iniciais de gestão política, devem ser de precisão, contundentes e transparentes, mas transportando a verdade, toda a verdade, ainda que dolorosa, para libertação da alma sofredora dos autóctones, incutindo-lhes crença, no advir.

O contrário pode redundar numa frustração, como a ocorrida com a prometida redução ministerial, herdada do consulado anterior, onde a montanha pariu um rato, face à astronómica extensão da máquina ministerial, do Estado, resultando num aumento significativo dos custos fixos, em fase de crise financeira.

A responsabilidade do novo líder, se comprometido verdadeiramente com a diminuição dos gastos públicos, poderia levá-lo à contenção de gastos, montando um governo de 42 membros, sendo 24 Ministérios e 18 Secretarias de Estado, bastantes para a empreitada de recuperação de credibilidade e rigor governativo de que Angola carece.

No discurso do Estado da Nação, João Lourenço lançou farpas em várias direcções, mas não tocou no essencial, e o essencial não era só responsabilizar o Banco Nacional, como o único responsável do descalabro da política financeira, mas apontar o rumo de solução económica, que passa, para já numa verdadeira redução dos gastos fixos com a máquina do Estado, começando por uma que ele tão bem conhece: a Defesa Nacional e a propaganda institucional.

Porque razão JLO tirou o capote, como se fosse líder de um partido da oposição, não assumindo os erros da governação do MPLA, para marcar uma linha de rumo diferente, começando desde já por apontar o caminho para reduzir gastos, em sectores que tão bem conhece:

a) Forças Armadas, no activo, fixadas em mais de 24 mil milhões de Kwanzas/mês;
b) Reforma dos militares, maioritariamente, das ex-FAPLA e MPLA, em mais de 12 mil milhões de Kwanzas/mês;
c) Redução dos gastos com as unidades UGP, USP e Chacal em mais de 7,5 mil milhões de Kwanzas/mês;
d) Redução dos gastos da CNE, que rondam o incompreensível valor de 1 mil milhão de Kwanzas/mês, quando o pico eleitoral, realiza-se não mais do que em quatro meses do ano, para além de haver, cerca de 18 comissários eleitorais (ligados ao MPLA), equiparados a Secretários de Estado, logo com as mordomias daí inerentes.

Nos quesitos acima, poderíamos ver emergir, não um líder, do show-off, mas determinado com a mudança, intramuros, se adoptasse uma política concreta de desvios de recursos da máquina da Defesa Nacional para os sectores da Educação e Saúde, disciplinando ainda o pagamento de reformas, a pessoas que são empresários, deputados, ministros, etc..

Por outro lado, não seria mau, JLO, numa visão estratégica de contenção e redução de gastos, propor um melhor aproveitamento do potencial das FAA e Polícia Nacional em tempo de paz, com a sua vinculação mensal, em tarefas de alfabetização, ensino, e saúde nas zonas rurais e do interior, os serviços de engenharia participando na abertura e compactação de vias de comunicação, bem como a criação de canais de irrigação.

Mas preferiu o óbvio, dar tiros ao ar, com promessas vagas, que não conduzem a nenhuma esquina pragmática.

GRECIMA virou LOURECIMA

O novo Presidente da República que beneficiou de toda a máquina do Estado e do seu partido para chegar ao poder, não se importando se através de um processo legal ou ilegal, não questionou, nunca a fraude, a batota, a parcialidade da CNE e dos órgãos públicos que deveriam se pautar pela lisura e a transparência. Seria bom ouvir-se nos seus discursos, que as reclamações dos partidos da oposição e da sociedade quanto a fraude e batota nos procedimentos da CNE e a parcialidade da Comunicação Social levariam a um novo paradigma, com os ajustes que se impõe.

Mas até aqui, não se pode falar da fraude e batota se ela, nos beneficia e como beneficiou, um candidato desconhecido, sem carisma, mas contando com uma máquina pública e órgãos paralelos, aos órgãos do poder do Estado, como o GRECIMA colocaram tudo, para endeusar Lourenço e diabolizar Samakuva e Chivukuvuku.

O GRECIMA criado por Eduardo dos Santos é daqueles órgãos cujo objecto é segredo de Estado, uma vez servirem apenas uma corrente, logo o seu desmembramento deveria ser como o nascimento, sem grande fanfarra.

Mas, para muitos foi positiva a sua extinção, no entanto, ela não é eficaz, foi apenas para inglês ver, porquanto, não carecia um despacho ruidoso, quando afinal, não se verificou a extinção do GRECIMA, mas sim a sua transformação.

Com tanto ruído se o órgão era pernicioso, não lhe serviu na campanha eleitoral, o mais sensato seria a diluição do seu património, pelos órgãos públicos de comunicação social: TPA, RNA, ANGOP e JA, mas preferiram outro caminho.

Assim, depois de tanta palhaçada, afinal, a máquina diabólica, passa para a alçada do porta-voz do Presidente da República, eis a cosmética na sua máxima expressão, afinal o GRECIMA não foi extinto, apenas virou LOURECIMA. Por tudo isso não me parece, tenha sido prudente tanto ruído e achincalhamento público de Manuel Rabelais, membro do Comité Central e refastelado nas poltronas do Parlamento, como deputado da bancada do MPLA, quando afinal mudaram as moscas, continuando as mesmas “fezes” discriminatórias.

Por essas e por outras o MPLA está a mostrar ser um autêntico saco de gatos, não preparado para nenhuma verdadeira mudança. Se houvesse uma verdadeira e imparcial CNE (Comissão Nacional Eleitoral), cumpridora da lei eleitoral, capaz de publicar os resultados eleitorais, marginais a batota, o país, muito seguramente, já estaria em guerra. O MPLA não aceita perder o poder, nem mesmo a maioria no parlamento…

Se entre eles é assim, alguém de bom senso, fora das pistas da euforia, acredita, que se resignariam ao silêncio, aceitando uma verdadeira mudança de regime, com um Presidente da República e da Assembleia Nacional da Oposição?

Só um louco seria capaz de acreditar e nós não somos, pois se dúvidas ainda houver, assistam o documentário… Mas continuarei a dar o benefício da dúvida, ao novo inquilino da Cidade Alta, João Manuel Gonçalves Lourenço, até ao dia 100.

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