Já lá vão 42 anos. Angola tornou-se independente de Portugal e dependente do MPLA. Ao fim de 38 anos de poder absoluto, José Eduardo dos Santos passou o seu legado a João Lourenço que desta forma (quase) dinástica se tornou no primeiro Presidente angolano (em 42 anos só tivemos três) a chegar ao cargo sem ter combatido na guerra colonial. Mesmo assim é um general.

A pesar de não ter chegado a combater directamente o regime português – acabara de completar 20 anos quando se dá a revolução dos cravos em Portugal -, viveu a oposição ao colonialismo (de acordo com a história oficial) ainda criança ao ver o pai detido na cadeia São Paulo, em Luanda, entre 1958 e 1960, acusado de actividade política clandestina, enquanto enfermeiro do porto do Lobito.

Escolhido no simulacro eleitoral de 23 de Agosto como cabeça-de-lista do MPLA com pouco mais de 61% dos votos, perdendo o MPLA 25 deputados no Parlamento face às eleições anteriores, e com o país mergulhado numa profunda crise financeira, económica e social (é um dos mais corruptos do mundo, lidera a mortalidade infantil a nível mundial, tem 20 milhões de pobres), o antigo general quase todos os dias parte a loiça, fazendo da palavra exoneração a mais comum desde que tomou posse.

Prometeu (e até agora está a cumprir) ser um reformador, ao estilo Deng Xiaoping, rejeitando a classificação de “Gorbachev angolano” (hipótese realçada, pela primeira vez, pelo Mestre da Lusofonia Eugénio Costa Almeida), por suceder à prolongada liderança de José Eduardo dos Santos (38 anos no poder).

“Reformador? Vamos trabalhar para isso, mas certamente não Gorbachev, Deng Xiaoping, sim”, afirmou João Lourenço, que nasceu no Lobito a 5 de Março de 1954.

Deng Xiaoping foi, recorde-se, secretário-geral do Partido Comunista Chinês e líder político da República Popular da China entre 1978 e 1992, tendo criado o designado socialismo de mercado, regime vigente na China moderna e que posteriormente foi adaptado pelo MPLA para Angola.

Depois dos presidentes Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, João Lourenço já assumiu que quer ficar na história de Angola pelo papel na recuperação económica do país. Para já (ainda não há tempo para isso) não se pode falar de recuperação, mas pode com certeza falar-se no tsunami que atravessa o país, tais são as mudanças implantadas (quase todas sem anestesia) no comando das principais empresas do Estado.

Pouco antes da proclamação da independência angolana, feita em Luanda, pelo MPLA, e no Huambo pela UNITA e FNAL, a 11 de Novembro de 1975, João Lourenço iniciara a carreira militar na República do Congo, tendo feito a sua primeira instrução político-militar no Centro de Instrução Revolucionária de Kalunga.

Hoje general na reforma, e até Julho passado ministro da Defesa Nacional, João Lourenço integrou o primeiro grupo de combatentes do MPLA que entraram em território nacional via Miconge, em direcção à cidade de Cabinda, após o golpe de Estado em Portugal e consequente queda do regime colonial.

Com José Eduardo dos Santos, Presidente e líder (que continua a ser) do partido desde 1979, a anunciar a intenção de deixar o poder com o fim do conflito armado (2002), João Lourenço posicionou-se na corrida à sucessão, o que lhe valeu uma longa travessia no deserto, depois de José Eduardo dos Santos decidir manter-se no poder.

A reabilitação política aconteceu em Abril de 2014, quando é nomeado por José Eduardo dos Santos para ministro da Defesa Nacional, culminado com a eleição, em congresso, em Agosto de 2016, como vice-presidente do MPLA, antecedendo a sua entrada na corrida eleitoral para chefe de Estado angolano.

Se é certo que Eduardo dos Santos não gostou que João Lourenço se armasse em bagre de corrida e fizesse ondas, não é menos verdade que chegado à Presidência JLo esteja não a fazer ondas tipo bagre mas, isso sim, tipo tsunami. Aliás, a força das ondas já fizeram cair muitos dos acólitos de Eduardo dos Santos.

No entretanto, nos areópagos à média luz, pensou-se que João Lourenço teria tido uma recaída quando, a par de Bornito de Sousa, se opôs à escolha de Manuel Vicente para vice-presidente, feita pelo próprio Eduardo dos Santos. Hoje vê-se que não. Manuel Vicente era mesmo para queimar.

O antes de João Lourenço

José Eduardo dos Santos assumiu as rédeas do poder ainda jovem. Aos poucos, com as feridas dos massacres que o MPLA levou a efeito no 27 de Maio de 1977, foi construindo a sua cleptocracia e, no âmbito dessa estratégia, tornou o país num estado esclavagista e unipessoal.

Por alguma razão, 41 (quase 42) anos depois da independência e 15 após a paz total, o legado que José Eduardo dos Santos nos deixa é um país que lidera o ranking mundial da corrupção e que é líder destacado da mortalidade infantil em todo o mundo.

O “querido líder”, o “escolhido de Deus”, o mais alto representante de Deus na terra, José Eduardo dos Santos, fartou-se de gozar com os angolanos. Ainda não há muito tempo, morriam por dia no Hospital Pediátrico de Luanda mais de 20 crianças. Na morgue não havia espaço para mais corpos. Os que chegavam iam sendo postos em cima dos outros!

A envergadura de estadista estratosférico foi tal que, presumivelmente, a Coreia do Norte preparava-se para instituir o dia 28 de Agosto (dia do seu nascimento) como “Dia Internacional Eduardo dos Santos”. Homenagens similares estariam previstas para as maiores democracias do mundo, começando no Zimbabué, passando pela Arábia Saudita, China, Cuba, Irão e Guiné Equatorial e terminando na Síria.

O Financial Times explicou, tal como o Folha 8 tem feito ao longo dos últimos 22 anos, as razões que justificam que Eduardo dos Santos fosse o paradigma dos paradigmas da política internacional. Nunca é demais relembrá-las, numa humilde contribuição da nossa parte enaltecer o desempenho do presidente.

1 – Angola é uma cleptocracia (regime político corrupto) e os seus dirigentes são uma elite indiferente ao resto da população. É por isso que, como escreve Ricardo Soares de Oliveira no livro “Magnificent and Beggar Land: Angola Since the Civil War”, o Ocidente adora um cleptocrata.

2 – Mesmo pelos padrões dos Estados petrolíferos, Angola é quase risivelmente injusta. Os oligarcas deixam gorjetas de 500 euros nos restaurantes da moda em Lisboa, enquanto cerca de uma em cada seis crianças angolanas morrem antes de terem cinco anos.

3 – Esta pequena, mas poderosa, cleptocracia é aceite como uma parte integrante do sistema ocidental, sendo os expatriados que fazem a economia angolana mexer, desde as consultoras que ajudam a definir a política económica até aos bancos que financiam os negócios do clã Eduardo dos Santos.

4 – Os oligarcas angolanos habitam a economia do luxo global das escolas públicas britânicas, dos gestores de activos suíços, das lojas Hermès, etc..

5 – A clique dirigente consiste largamente numas poucas famílias de raça mista da capital, que considera que os cerca de 21 milhões de angolanos negros no mato ou musseques são imperfeitamente civilizados, e com pouco desejo para os educar.

6 – Por trás de cada magnata angolano há uma equipa de gestão maioritariamente portuguesa que não se preocupa com as consequências da sua gestão. Por isso os estrangeiros bombam petróleo, fazem luxuosos vestidos e constroem aeroportos sem sentido no meio do nada.

7 – Os membros do clã Eduardo dos Santos fazem luxuosas viagens à Europa e passeios entre capitais europeias recorrendo a aviões a jacto.

8 – O dinheiro dos governantes e o dinheiro do Estado é a mesma coisa. Todo ele é roubado ao Povo. Mas como o dinheiro não fala, empilham-no nos bancos da Europa (e não só) e gastam-no como lhes dá na real gana: compram quadros, cirurgias plásticas, casas de praia e empresas.

9 – O perfil do cliente de elite angolano em Portugal, que representa mais de 40% do mercado de luxo português, revela que se trata sobretudo de homens, empresários do ramo da construção, ex-generais ou com ligações ao governo. Vestem Hugo Boss ou Ermenegildo Zegna. Compram relógios de ouro Patek Phillipe e Rolex. Do outro lado estão 70% de angolanos. O seu perfil é: pé descalço, barriga vazia, (sobre)vive nos bairros de lata.

10 – Esses angolanos de primeira não olham a preços. Procuram qualidade e peças com o logo visível. É comum uma loja de luxo facturar, numa só venda, entre 150 e 300 mil euros, pagos por transferência bancária ou cartão de crédito.

11 – Por outro lado, no país dos angolanos de segunda, 45% das crianças sofrem de má nutrição crónica e uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

12 – Na joalharia de luxo, os angolanos de primeira (todos afectos ao regime) também se destacam, tanto pelo valor dos artigos que compram como pela facilidade com que os pagam. Chaumet, Dior e H. Stern? Sim, pois claro. O preço não é problema. Quanto mais caro melhor. Comprar uma pulseira por 200 mil euros é como comer um pires de tremoços.

13 – Em Angola o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

14 – Refeições? Que tal trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas, com cinco vinhos diferentes, entre os quais um Château-Grillet 2005?

15 – Quanto ao Povo, a ementa dessa subespécie é fuba podre, peixe podre, panos ruins, 50 angolares e porrada se refilarem.

Será tudo diferente nos 43 anos da independência? Esperamos que sim. Tem a palavra João Manuel Gonçalves Lourenço.

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