Quando nasci já encontrei o actual Presidente da República José Eduardo dos Santos. Passam agora 28 anos, e ele lá estava já há 10 anos. Ao longo destes meus 28 anos de vida, pelo que me lembro, nunca um aniversário do presidente foi passado sem luxuriantes e estrondosas celebrações.

Por Sedrick de Carvalho

Lembro que Henrique Miguel «Riquinho», com quem me cruzei pela segunda vez numa das cadeias por onde passei, era o organizador principal das festas que arrastavam sobretudo a juventude. Actualmente é a filha do presidente, através da operadora de telecomunicações, e os genros que se destacam nas festividades.

Sem perceber bem as razões, mas também sem pensar exaustivamente, nunca compreendi os motivos de tanta festa em torno do aniversário duma pessoa. Como filho de pais cristãos pelas Testemunhas de Jeová, as celebrações natalícias nunca entraram na programação da minha família, e talvez por isso achasse mais estranho ainda a importância dispensada ao aniversário do presidente.

Porém, obviamente o presidente tem todo o direito de celebrar o seu aniversário, e ainda bem que o faz porque, assim, pelo menos garantidamente descontrai em todos os meses de Agosto.

Mas não é por isto que o presidente deve usar os meios públicos para celebrar um evento objectivamente de relevância apenas para si, seus familiares e mais próximos.

Entretanto, este ano deverá ser o último aniversário que assistiremos ao uso desenfreado do dinheiro público para o celebrar. No sábado, 26, ainda se cantou o hino nacional na Academia de Futebol de Angola (AFA) no momento em que lhe era feita uma homenagem, mas não ouvi a habitual canção “parabéns a você nessa data querida…”.

Ainda bem que o presidente deixa de o ser. É um alívio. José Eduardo dos Santos fez muito mal a todos nós – repito, a todos nós -, e, talvez sem perceber, colocou os filhos em situação de perigo, interna e externamente, pois até seus colaboradores mais directos detestam a forma como eles foram extrema e absurdamente enriquecidos.

É com este mal que lidamos diariamente, e nessa fase eleitoral o mal agudiza-se. Em Março de 2016, José Eduardo gabou-se de ter vencido todas as eleições em que participou, incluindo em 1979, mesmo sendo simplesmente nomeado na altura. Todos os pleitos realizados foram autênticas orquestras, e as duas simulações antes desta última – 2008 e 2012 – não me foram contadas. Em 2008 fui membro de mesa duma Assembleia de Voto e em 2012 estive no centro de escrutínio dum partido da oposição enquanto técnico. Contudo, as duas foram completamente fraudulentas. Ou seja, o presidente e o seu partido não têm razões para gabar-se de alguma vez terem sido eleitos. Lamentavelmente!

Como previsível, a simulação eleitoral que decorreu a semana passada também foi fraudulenta. Não votei, tal como em 2012, porque o governo e partido do presidente inconstitucionalmente organizou a primeira fase, e este facto é demasiado grave para que eu me sujeitasse ao simulacro. Mas muitos participaram.

No final, surgiu um facto novo: imensas actas sínteses foram divulgadas pelos delegados de lista dos partidos na oposição, e agora os documentos que provam que o MPLA não obteve os resultados que a Comissão Nacional Eleitoral tem divulgado são públicos, diferentemente de outras ocasiões em que não foram entregues cópias das actas aos respectivos delegados. Tal como aconteceu com o presidente José, o seu nomeado sucessor também vai iniciar a sua governação sem legitimidade e com crimes.

Quando era suposto ser o fim duma era, mais parece que estamos perante uma era do fim. Os discursos de guerra, disparos e detenções arbitrárias em várias províncias, desmaios, entre outras coisas, são indicativos suficientes para corroborar o que disse em entrevista ao Jornal Económico em Portugal:

JE – Se o MPLA não obtiver uma maioria absoluta, ou se não vencer as eleições, o regime angolano será suficientemente democrático para assegurar uma mudança (ou a partilha) de poder sem violência?

SC – Como disse, o resultado será o que o MPLA quiser. Mas suponhamos que estivéssemos com uma organização eleitoral independente: o MPLA não dá mostras de estar disposto a ser oposição e, se fosse derrotado nas urnas de voto, tudo indica que desencadearia acções de instabilidade pós-eleitoral. Aí, tal como aconteceu na Gâmbia, seria necessário uma presença forte de organizações comunitárias regionais, preferencialmente e, em última instância, das Nações Unidas, para garantir que a tomada de poder ocorresse pacificamente. (edição n.º 1898, de 18 de Agosto de 2017).

É a era do fim do silêncio das armas em Angola que o MPLA está disposto a recorrer para manter-se no poder. Era suposto que José Eduardo estivesse disponível para sair de cena sem sobressaltos e escrever o seguinte na sua biografia: “não fui derrotado militarmente por Jonas Savimbi, nem derrubado como Khadafi ou Mubarack ao longo da primavera árabe, e assisti sem interferir às primeiras eleições realmente livres no país”. A última parte não aconteceu, e o presidente deixará de o ser com mais esta nódoa no seu vasto curriculum de podridão.

O povo angolano aprendeu imenso com as guerras que o país viveu, e não vai recorrer a ela, apesar da hierarquia do MPLA pouco se importar com isto. E o ambiente bélico que estão a criar nesse momento, mesmo não tendo tanta influência sobre os eleitores que estão a ser desrespeitados ao ser-lhes roubada a provável hipótese que escolheram – ter outro governo -, já produziu ameaças directas contra mim. Entre os ameaçadores estão indivíduos que são também vítimas da degradação colectiva milimetricamente feita ao longo dos anos.

No dia 26 participei no Fórum Socialismo, organizado pelo Bloco de Esquerda em Portugal, e falei sobre a repressão em Angola, com Jorge Silva «Juka». Enquanto falava sobre o ambiente repressivo no país, as lágrimas escorriam pelo meu rosto e encharcaram as minhas palavras. Tive de me calar por alguns minutos e desculpar-me. Conto isto para realçar que é nojenta a forma como o governo de José trata a população que apenas quer liberdade de viver, e dói bastante saber que ainda seremos presos ou mortos mesmo com a sua ausência da presidência. Nenhuma família merece ter as filhas e filhos, mães e pais, irmãos e irmãs encarceradas e encarcerados por quererem democracia no seu país. É nojento!

Enquanto festeja no palácio que sem legitimidade ocupa há quase 38 anos, deste lado o terror continua a ser espalhado por fiéis cumpridores de ordens. Mas estes executores também precisam de liberdade para viverem as suas vidas como os outros povos pelo mundo as vivem – sem esquecer os povos que também almejam por liberdade. Os militares, os agentes dos vários órgãos de polícia, os militantes-cidadãos, estes e todos, estão ansiosos por liberdade. Aquartelem a retórica retrógrada da guerra. Precisamos avançar.

Não odeio o presidente José, nem posso, porque, se assim fosse, então me consideraria derrotado por ele. Tal como os que me antecederam nas masmorras, mantenho-me firme, apesar das quedas emocionais como acima relatado. E destaco este facto porque, se quiser, José Eduardo ainda pode fazer a opção certa para o seu final de reinado ao entregar o poder ao partido realmente vencedor e dar o braço e um abraço publicamente ao seu verdadeiro sucessor, bem como penso existir a possibilidade de não ser perseguido política ou judicialmente se assim proceder pois há nos angolanos ainda a cultura do perdão. Não há tempo nem pode existir retaliações. Este é um apelo que o faço mesmo sabendo que, como disse a activista Assata Shakur, ninguém no mundo, ninguém na história, conseguiu a sua liberdade apelando para o senso moral das pessoas que o oprimiam.

Por fim, gostaria que este texto fosse mostrado ao presidente. Desejo-lhe sinceramente parabéns pelo aniversário, pois acredito que merece viver como todos os humanos e mais ainda para ver a implementação da democracia em Angola.

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