O primeiro chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas, general João de Matos, morreu hoje em Espanha, aos 62 anos, vítima de doença prolongada, informou o MPLA, partido no poder em Angola há 42 anos.

João Baptista de Matos foi um dos mais conceituados generais das Forças Armadas Angolanas, que ajudou a criar, a 9 de Outubro de 1991, e vivia entre Espanha e Angola há vários anos, sendo públicas as participações que detinha em várias empresas.

A morte de João de Matos chegou a ser noticiada na terça-feira, 31 de Outubro, pela televisão pública angolana (TPA), que horas depois, citando familiares, recuava, informando que o general continuava vivo.

Na informação em que hoje torna pública a morte do general João de Matos, general de Exército reformado, o bureau político do MPLA destaca-o “como um intrépido comandante político-militar, que soube interpretar e aplicar, na prática, os anseios mais nobres do povo angolano, na sua luta revolucionária pela conquista e preservação da Independência Nacional, da integridade territorial de Angola e da paz definitiva”.

“Tendo granjeado, por isso, grande prestígio no país e no exterior”, lê-se na informação enviada ao Folha 8 e que transcrevemos na íntegra.

O general João de Matos chegou a liderar a força militar angolana enviada para a República Democrática do Congo, a pedido do então Presidente Laurent-Désiré Kabila, na guerra civil que atingiu o país vizinho, em 1998.

Foi chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas entre 1991 (antes das primeiras eleições angolanas) e 1999.

Comunicado do MPLA

“Foi com bastante comoção que o Bureau Político do MPLA tomou conhecimento do falecimento do Camarada João Baptista de Matos “General João de Matos”, destacado combatente da luta pela Paz em Angola e antigo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas, ocorrido hoje, dia 4 de Novembro de 2017, em Espanha, por doença.

O MPLA recorda o Camarada João de Matos, General de Exército reformado, como um intrépido Comandante político-militar, que soube interpretar e aplicar, na prática, os anseios mais nobres do Povo Angolano, na sua luta revolucionária pela conquista e preservação da Independência Nacional, da integridade territorial de Angola e da Paz definitiva, tendo granjeado, por isso, grande prestígio no País e no exterior.

Pelo infausto acontecimento, que enluta toda a Nação angolana, o Bureau Político do MPLA curva-se perante a memória deste Dedicado Patriota e, em nome dos militantes, simpatizantes e amigos do Partido, endereça à família enlutada, ao Ministério da Defesa Nacional e ao Estado-Maior General das FAA as suas mais sentidas condolências”.

O general João Baptista de Matos, estava a ser investigado pela justiça brasileira pelo envolvimento em negociações entre uma empresa sua e a petrolífera brasileira Petrobras para o lançamento de um projecto de bio-combustível em Cabo Verde. O ex-chefe do Estado-Maior General das FAA era suspeito de corrupção.

Trata-se da empresa Genius – Gestão de Participações LDA, que de acordo com a Procuradoria da República do Brasil celebrou em Setembro de 2009 um memorando para instalação de uma planta de processamento e desidratação de etano, em Cabo Verde, com posterior comercialização do produto no mercado europeu.

Segundo o jornal brasileiro Estadão, a omissão do nome da firma de João Baptista de Matos nesse documento, onde constam vários campos em branco, foi o que despertou a atenção autoridades brasileiras. Perante este vazio de informação, o Ministério Público Federal do Brasil adiantava que solicitou à Petrobras a identificação das partes envolvidas no negócio, para apurar se o mesmo deu lugar à assinatura de um contrato e, nesse caso, investigar eventuais irregularidades.

Apesar de o projecto não ter avançado, os procuradores da Lava Jato suspeitam que o início de negociações entre a Petrobras e a empresa vinculada ao general João Baptista de Matos só aconteceu graças ao pagamento de subornos.

Em 2011, Rafael Marques de Morais apresentou à Procuradoria-Geral uma queixa-crime contra sete generais angolanos por alegada prática de tortura, violação dos direitos humanos e corrupção na Região Diamantífera das Lundas. A queixa visou designadamente os generais: Hélder Manuel Vieira Dias Júnior; Carlos Alberto Hendrick Vaal da Silva; Armando da Cruz Neto, Adriano Makevela; João de Matos; Luís Faceira e António Faceira.

Presidente lamenta

O Presidente da República, João Lourenço, manifestou hoje profunda consternação pela morte do general João Baptista de Matos, “um valoroso filho da Pátria angolana”.

Em comunicado de imprensa, o Chefe de Estado ressalta que o general João Baptista de Matos faz parte da história recente da República de Angola e é uma referência para a juventude na defesa dos mais nobres valores da cidadania.

Refere que muito jovem juntou-se à luta de libertação nacional e percorreu uma brilhante trajectória, tendo chegado a desempenhar a função de Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA), cuja dedicação ao cargo elevou-se para a contribuição inequívoca do alcance da paz, reconciliação nacional e manutenção da integridade territorial.

O Presidente da República refere que o amor pelo país levou o general João de Matos a dedicar incansavelmente recursos ao seu dispor para a preservação da biodiversidade, tendo sido um dos principais impulsionadores da localização e protecção da Palanca Negra Gigante e do Parque Nacional da Kissama.

João Lourenço augura que o seu exemplo de patriota, activista ambiental e empreendedor, acompanhe os angolanos, enquanto Nação, na construção de uma sociedade mais inclusiva e protectora do bem-comum.

“Neste momento de dor e luto, o Presidente da República, João Lourenço, curva-se perante a sua memória e endereça à família enlutada e às Forças Armadas Angolanas, os mais sentidos pesares”.

Partilhe este Artigo