O ex-primeiro-ministro angolano, Marcolino Moco, que vestiu com grande maestria a falsa farda de crítico da liderança de José Eduardo dos Santos, admite que tem mantido conversas com vista a uma aproximação ao cabeça-de-lista do MPLA, João Lourenço, às eleições de quarta-feira, mas sem passar cheques em branco. Alguém acredita?

Por Orlando Castro (*)

A posição foi assumida hoje, em entrevista exclusiva à agência Lusa, por Marcolino Moco, militante do MPLA, partido no poder em Angola desde 1975 e pelo qual assumiu o cargo de primeiro-ministro entre 1992 e 1996, depois de no sábado ter estado na tribuna do comício de encerramento da campanha eleitoral de João Lourenço, que tenta suceder à liderança de 38 anos de José Eduardo dos Santos como chefe de Estado angolano.

Marcolino Moco claudicou, desiludiu, ajoelhou-se e, por isso, tem de rezar junto do altar de um suposto deus (Eduardo dos Santos) e do seu santo/cordeiro preferido, João Lourenço.

Fomos todos enganados. Fomos. No dia 7 de Janeiro de 2017, Paulo de Morais (Professor Universitário, ex-candidato às eleições presidenciais em Portugal e Presidente da Frente Cívica) escrevia aqui no Folha 8:

“É com homens como Marcolino Moco que Angola tem de arrancar para um outro futuro. Só homens amantes mais do seu povo do que do poder ou dinheiro, poderão desviar Angola do percurso suicida em que se encontra esta comunidade colectiva. Angola necessita de uma Perestroika à africana, liderada por um novo Gorbatchov que mude o rumo político deste que é um dos mais belos e ricos países do mundo. Esta mudança de rumo tem de ter lugar sem violência ou guerra, sob a tutela de uma comissão internacional do tipo da “Verdade e Reconciliação “que Mandela instituiu na África do Sul.

Cabe a pessoas com vontade, vigor e perseverança e autoridade política encontrar os caminhos do futuro de Angola. Marcolino Moco, face às posições críticas que vem tomando face ao poder vigente, e a par dos mais desassossegados do MPLA, não pode virar as costas a este desafio.”

Infelizmente, por muito que volte a dizer que “caiu que nem um patinho”, Marcolino Moco virou as costas ao desafio.

“Não posso atestar que o partido está a mudar. O que estou a fazer é para que amanhã não seja acusado de que me abriram a janela e eu não aceitei, é só isso. Nesta altura dou o benefício da dúvida ao candidato do partido”, afirmou Marcolino Moco hoje à Lusa.

De acordo com Marcolino Moco, nas últimas semanas já manteve contactos directos, em duas ocasiões, com João Lourenço, o cabeça-de-lista do MPLA às eleições gerais de quarta-feira.

Questionado sobre se admite voltar a trabalhar directamente com o MPLA, e com João Lourenço, num eventual cenário de renovação da governação de Angola, Marcolino Moco não afastou a possibilidade: “Responder liminarmente a essa pergunta não posso. Haverá certamente aproximações, mais conversas. Ele felizmente garantiu-me essa abertura, a iniciativa foi dele, não foi minha. E, das conversas que tivemos, se ninguém as interromper, nós poderemos chegar a uma saída, a uma conclusão”.

Uma aproximação que, insiste Marcolino Moco, surge como benefício da dúvida quando o partido está em renovação, com a saída de José Eduardo dos Santos.

“Nunca quiseram saber das minhas críticas, pelo contrário. Recebi ameaças, o isolamento perante muitas pessoas. Agora, a testar o estrago que foi feito, há uma aproximação repentina à minha pessoa. Uma aproximação que eu não posso recusar, numa altura em que o candidato do partido já não é o mesmo”, disse.

Ainda assim, Marcolino Moco espera para ver, tendo em conta a alegada manipulação das imagens e declarações de um dos encontros, públicos, que teve, em Luanda, com João Lourenço, pela televisão estatal.

“Posso dizer – e disse-o ao João Lourenço – que para ir ao comício no sábado deixei muita gente a chorar, dividida, em casa. Que não queriam que eu fosse, depois desse episódio, em que me passaram de crítico a um dos bajuladores mais reles, me humilharam. É importante dizer que eu só fui lá porque o secretário-geral do MPLA me disse que o Presidente José Eduardo do Santos [que também esteve no comício de encerramento] pediu para que eu lá fosse, no dia em que faria a última intervenção”, recordou.

Mesmo na hora da aproximação e valorizando a intervenção de José Eduardo do Santos no comício, “por não ter feito um discurso sectário ou partidário”, porque “o que vem aí é muito difícil”, Marcolino Moco não(?) deixa a crítica.

“Começamos a fazer eleições sem primeiro criar condições para que essas eleições sejam úteis. Das primeiras resultou uma guerra, demorou por aí uns quantos anos, da segunda e da terceira resultou a entrega do país a uma família. Então, é esse benefício da dúvida que eu dou ao MPLA”, apontou.

Apesar da postura crítica dos últimos anos, o ex-primeiro-ministro reconhece que o partido “teve o bom senso” de não o expulsar, apesar de “estar preparado para o efeito”.

“É um partido muito intolerante para com qualquer ideia diferente lá dentro”, justifica, sobre o facto de ter deixado de participar activamente na vida do partido, sob liderança de José Eduardo dos Santos.

“Há uma família que toma conta do país e estraga tudo, que é a família do Presidente, que acham que com o desaparecimento de Jonas Savimbi o país estava nas suas mãos, tinham direito a tudo”, aponta.

“Foi uma gestão desastrosa e vergonhosa. Queria evitar utilizar esses termos agora, mas é inevitável, é evidente, quando um Presidente cria um Fundo Soberano sem consultar a Assembleia Nacional e nomeia o seu filho para o dirigir”, acrescentou.

Após encontros com João Lourenço que descreve como “breves mas significativos”, Marcolino Moco conclui com o aviso: “Tenho 64 anos e não passo cheques em branco a ninguém. Voto na nação angolana, que ainda não está completa”.

Alguém (ainda) acredita em Marcolino Moco? Em tempos, muito recentes, escrevi que Marcolino Moco “é uma das mais prestigiadas figuras de Angola, sobretudo da Angola que todos desejamos e que um dia destes floresça”. Hoje, com o coração a sangrar, sou obrigado a dar a mão à palmatória e dizer que a Angola que todos acreditamos que um dia destes florescerá não mais poderá contar com Marcolino Moco.

(*) Com Lusa

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