Através de um rádio à manivela, Joana Carlos ouvia incrédula, há 25 anos, a proclamação do fim da guerra civil moçambicana, com a assinatura do Acordo Geral de Paz, a 4 de Outubro de 1992. “Ainda estávamos escondidos nuns escombros coloniais em Marromeu (província de Sofala), quando disseram: a guerra acabou”, conta a idosa, de 68 anos.

O acordo foi assinado em Roma, a 4 de Outubro de 1992, por Joaquim Chissano, Presidente de Moçambique, Afonso Dhlakama, presidente da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), e por representantes dos mediadores, a Comunidade de Santo Egídio, de Itália.

Era o fim de 16 anos de guerra civil, razão pela qual o dia passou a ser feriado nacional, Dia da Paz e da Reconciliação Nacional.

Joana Carlos cuida de quintais e recorda-se de ter a mesma sensação de incredulidade quando foram registados novos confrontos militares.

“Primeiro ouvi que havia guerra em Muxungue e depois em Barue. Até estivemos no meio de duas emboscadas. Não acreditava que voltaria a viver a guerra, que nos arrasou a vida”.

Hoje, diz não ter motivos para celebrar o 4 de Outubro porque falta a paz – não uma paz qualquer, que vai e vem, mas aquela que fica para sempre, duradoura, “efectiva”, como se refere no discurso político.

Moçambique vive uma trégua sem prazo declarada unilateralmente pelo líder da Renamo, Afonso Dhlakama, em Maio, prolongando as tréguas a prazo que já duravam desde Dezembro de 2016.

Para trás ficaram meses de instabilidade, com ataques a edifícios públicos e emboscadas na estrada a viaturas militares e civis, com um número incerto de vítimas, durante 2015 e 2016.

O Presidente moçambicano Filipe Nyusi e o líder da Renamo mantêm diálogo para tentar alcançar um terceiro acordo de paz.

Em 2014, o líder da Renamo e o ex-presidente, Armando Guebuza, assinaram um acordo de cessação das hostilidades militares, colocando fim a um conflito que durou 17 meses, que seria reeditado em 2015-16 devido à recusa do principal partido da oposição em aceitar os resultados, alegando fraude.

Para quem esteve no centro dos confrontos, celebrar o dia da Paz e Reconciliação Nacional é “mera ocasião”, pois procura-se uma paz definitiva.

“Temos acompanhado o assunto. O Presidente Filipe Nyusi e o líder da Renamo estão a dialogar. Creio que vão encontrar consenso, porque precisamos de paz”, diz Paula Vilanculos, moradora de Chimoio, capital da província de Manica, centro de Moçambique.

Vilanculos sustenta que a paz obtida com o acordo de Roma foi muito beliscada e a eficácia do entendimento ficou reduzida com a reedição dos conflitos.

Ainda assim, acredita que os líderes políticos “vão trabalhar por um bom acordo, para o bem da nação”.

Uma outra moradora no Chimoio, Natália Vicente, espera também por um acordo mais vigoroso entre o Governo e a Renamo, e pede aos políticos que sejam sensíveis ao sofrimento do povo.

“Eu estive num carro que foi emboscado numa coluna militar, no ano passado, em Barue, e custa-me a acreditar que já tínhamos dois acordos de paz assinados. Este terceiro, que creio que vai chegar, deve ser definitivo” defende Natália.

Jofrisse Mainato é alfaiate na capital provincial, no centro do país, e entende que o calendário não está feito à medida da realidade: celebrar o dia da paz sem paz efectiva deve servir para “apertar os calos” aos líderes políticos, para que se comprometam com a pacificação.

“Este é o segundo ano que celebramos o dia à espera duma paz definitiva. Essa espera está a ser longa e pedimos aos políticos a respeitarem a vontade da população, pois queremos paz”, diz.

Jofrisse não cumpre há anos a tradição de festejar o natal em Inhassunge, Zambézia, sua terra natal, por causa do risco de emboscadas nas estradas.

“Entre a paz e a miséria, eu prefiro a paz. Experimentámos o calar das armas com o acordo de paz [de 1992], mas os últimos anos são turbulentos, com episódios de emboscadas a caravanas políticas e colunas civis em estradas”, diz Manuel Faz Bem, que sugere o levantamento das celebrações à espera da paz.

Não uma paz qualquer, mas sim a paz efectiva.

Lusa

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