O presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), Filomeno Vieira Dias, considerou hoje que os órgãos de comunicação social angolanos, sobretudo estatais, “não tiveram uma actuação igualitária” durante a campanha eleitoral.

“É unânime, mesmo por parte dos observadores internacionais que chegaram apenas dois dias antes das eleições, não houve um tratamento igualitário nesta campanha, não houve igualdade de oportunidade. Houve por parte de alguns órgãos, sobretudo os estatais, o privilegiar de uma candidatura que vocês conhecem”, disse.

Em declarações hoje à imprensa, durante a apresentação da Nota Pastoral sobre as eleições gerais de 23 de Agosto, o também arcebispo de Luanda sublinhou que a “pluralidade e o equilíbrio informativo manifestado por outros órgãos”.

Deve haver “por parte de todos” um “esforço real de serem aqueles que procuram ser veículos de transmissão da verdade”.

“O jornalista não é um activista”, apontou.

Porém, o arcebispo de Luanda enalteceu também algumas acções desenvolvidas pelos órgãos de comunicação social durante a campanha eleitoral, que “foram a todos os níveis animadores desse processo”.

“Deram qualidade ao ato e ao processo eleitoral, ajudaram as pessoas a reflectir sobre determinadas situações em muitos casos alertando determinadas situações pontuais e a isso devemos nos congratular”, observou.

Estas afirmações de Filomeno Vieira Dias são um bom motivo para ir à memória buscar factos que importa não esquecer. Desde logo porque a verdade não prescreve.

Embora de vez em quando surjam revoltas dentro da própria Igreja Católica, certo é que a sua hierarquia em Angola continua a fazer o jogo do regime, esquecendo que o rebanho é que precisa de ser protegido.

Contrariando os seus mais basilares princípios, a Igreja Católica angolana está claramente “vendida” ao regime, sendo conivente nas acções de dominação, de prepotência, de desrespeito pelos direitos humanos. Aliás, a tese da libertação foi há muito – mas sobretudo nos últimos anos – mandada às malvas pela hierarquia católica.

Por muitas que sejam as vezes em que os responsáveis católicos comunguem, o pecado – por exemplo – do acordo celebrado em 2011 entre o MPLA e a Igreja Católica para que esta o apoiasse na campanha eleitoral de 2012 pode ser perdoado mas não pode ser esquecido.

Ao que parece, a enorme violação dos direitos humanos, de Cabinda ao Cunene, a forma execrável como as autoridades coloniais de Angola tratam impolutos cidadãos, pouco interessar à Igreja Católica. Isto porque, de facto, o regime compra a sua cobardia dando-lhe as mordomias que a leva a estar de joelhos perante o MPLA.

Não deixa de ser elucidativo da posição subserviente da Igreja Católica o facto de Dom Filomeno Vieira Dias quase resumir os atentados aos direitos humanos em Cabinda ao caso que então correu mundo, e que foi obviamente muito grave, do então padre Raul Tati.

“Eu, pessoalmente, visitei este sacerdote. Tive encontro com ele. O nosso vigário geral, também, há poucos dias, visitou-o e teve encontro com ele”, acrescentou o prelado, que rematou, indicando que “é quanto temos a dizer sobre esta matéria.”

Recorde-se que, entre outros, Raul Tati foi humilhado física e psicologicamente e, apesar disso, a Igreja Católica fez de conta que ele até estava bem, recusando-se a denunciar – como era e é seu dever – as abomináveis condições em que o padre e todos os outros detidos tentavam sobreviver.

“Houve por parte de alguns órgãos, sobretudo os estatais, o privilegiar de uma candidatura que vocês conhecem”, disse hoje Filomeno Vieira Dias. Será que corria o risco de ser excomungado se dissesse: “Houve por parte de alguns órgãos, sobretudo os estatais, o privilegiar da candidatura de João Lourenço e do MPLA?

Seria igualmente excomungado se disse, como o fez Frei João Domingos, que “não nos podemos calar mesmo que nos custe a vida”, acrescentando “que muitos governantes que têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro”?

É que se uma das principais tarefas dos Jornalistas é dar voz a quem a não tem, também a Igreja Católica tem a mesma missão devendo, aliás, ser ela a dar o exemplo.

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