A secretária-executiva do elefante branco que se chama CPLP, Maria do Carmo Silveira, considerou hoje “dignificante” e “bom para todos” a eleição da Guiné Equatorial para membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU, acrescentando que aquele país “falará pela CPLP e pelos seus Estados-membros”.

Maria do Carmo Silveira bem que poderia, à falta de melhor, ir brincar com os seus antepassados em vez de, num misto de ignorância e orgia canibalesca, teimar em gozar com a nossa chipala. É que a paciência tem limites e até a dos escravos está à beira de estoirar.

“É muito importante para a Comunidade de Países de Língua Portuguesa ver um dos seus membros ser eleito para o Conselho de Segurança da ONU. Dignifica a CPLP”, disse à Lusa Maria do Carmo Silveira, à margem de uma apresentação sobre o Fórum Económico Women In Leadership (Mulheres na Liderança), que decorrerá em Outubro no Dubai.

Na semana passada, a Guiné Equatorial e outros quatro países (Peru, Costa do Marfim, Koweit e Polónia) foram eleitos pela Assembleia-Geral da ONU para assumir um mandato de dois anos como membros não-permanentes do Conselho de Segurança, posição que assumem a 1 de Janeiro de 2018.

A Guiné Equatorial é membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) desde Julho de 2014.

“Será bastante importante a CPLP ter um interlocutor a esse nível. Poderá falar pela organização e pelos seus Estados-membros”, disse a máxima responsável da Comunidade de Países de (suposta) Língua Portuguesa.

Para Maria do Carmo Silveira, esta é também “uma forma de o português” (que não se fala na Guiné Equatorial) “entrar e estar presente” no mais importante órgão das Nações Unidas. “Só pode ser bom para todos nós”, concluiu a senhora, certamente satisfeita por mostrar ao mundo que não sabe o que diz, ficando por saber se algum dia dirá o que sabe.

É a primeira vez que a Guiné Equatorial entra no Conselho de Segurança – o que aconteceu com o apoio de 185 dos 193 Estados membros da organização. O Presidente do país, Teodoro Obiang Nguema – tomou o poder em 1979, através de um golpe de Estado, mantendo-se desde então em funções, sendo actualmente o ditador mais longevo do continente africano, seguido de perto pelo seu homólogo angolano, José Eduardo dos Santos.

A Guiné Equatorial, como deveria saber Maria do Carmo Silveira, está há décadas na mira das organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, que acusam o Governo de Obiang de praticar fraudes eleitorais e cometer graves atropelos contra os seus próprios cidadãos.

Os crimes de corrupção, violação dos direitos humanos e perseguição política figuram dos relatórios de várias organizações internacionais – que acusam o Presidente Obiang e a sua família de controlarem a riqueza do país.

Com apenas 700.000 habitantes, a antiga colónia espanhola registou nos últimos anos um grande crescimento económico, graças às enormes reservas de gás e petróleo descobertas no seu território, mas continua a ser um dos países do mundo com maior percentagem de pobreza e mortalidade infantil, curiosamente como acontece com Angola.

Na apresentação do Fórum Económico Women In Leadership, que decorreu na sede da CPLP, em Lisboa, a empresa organizadora revelou ter feito um convite à Comunidade de Países de Língua Portuguesa para se fazer representar oficialmente no fórum do Dubai.

Maria do Carmo Silveira admitiu ter recebido o convite da empresa Naseba, mas ressalvou que ainda está a analisar a proposta.

Para melhor se perceber a latrina em que se transformou a CPLP, recorde-se que – é só um dos muitos exemplos possíveis – o Governo da Guiné-Bissau anunciou a atribuição da sua principal condecoração nacional, a medalha Amílcar Cabral, ao Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema.

“A Guiné-Bissau e a Guiné Equatorial têm excelentes relações”, justificou Olívio Pereira, secretário-geral da presidência do Conselho de Ministros.

De acordo com aquele (ir)responsável, “Teodoro Obiang tem sido um estadista atento à evolução da situação politica na Guiné-Bissau, tendo manifestado a sua solidariedade com diversos governos e em diversas ocasiões com o povo da Guiné-Bissau”.

A atribuição da medalha é, assim, “um gesto de reconhecimento que o Governo liderado por Umaro Sissoco Embaló decidiu prestar-lhe”, acrescentou.

Mas nem todos gostam de chafurdar na porcaria. O antigo embaixador do Brasil junto da CPLP, Lauro Moreira, considera que a entrada da Guiné Equatorial no bloco lusófono é uma questão que envergonha a organização.

“É uma vergonha. Se não fossem suficientes os problemas que nós temos internamente, agora temos um problema que é pavoroso, porque é uma questão que envergonha a CPLP”, afirmou Lauro Moreira, que é presidente do Conselho Directivo do Observatório da Língua Portuguesa (OLP).

Para o antigo embaixador brasileiro junto da CPLP (2006-2010), o bloco lusófono já tem, por exemplo, “problemas seríssimos com a Guiné-Bissau, que é um país maravilhoso, que ao mesmo tempo tem óptimos quadros superiores, mas que agora está reduzido a um narco-Estado”.

“Este país (Guiné Equatorial) é pária na comunidade internacional”, sublinhou Lauro Moreira.

Obiang e membros da sua família (nomeadamente o seu filho ‘Teodorin’ Obiang) – que têm uma das maiores fortunas em África segundo a revista Forbes – enfrentam processos em alguns países por corrupção, fraude e branqueamento de capitais, assim como o Presidente equato-guineense enfrenta acusações de violação dos direitos humanos por várias organizações não-governamentais (ONG).

A pena de morte na Guiné Equatorial está suspensa neste momento, medida que foi tomada para poder entrar no bloco lusófono. Também segundo a ONG Transparency International, é um dos países mais corruptos do mundo.

Segundo Lauro Moreira, Teodoro Obiang “reina em absoluto sobre um país que flutua hoje em petróleo e sobre uma população naufragada na maior miséria”.

É, de acordo com o diplomata, “um país desconsiderado pela comunidade internacional, isolado pela língua (o único a falar espanhol em toda a África), cuja história, cultura e comportamento nada tem a ver com os ideais que presidiram a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em 1996”.

Lauro Moreira afirmou que a CPLP ficou desfigurada com a estrada da Guiné Equatorial para o bloco lusófono, pois é “um país que nada fez na prática para merecer essa concessão a não ser introduzir às pressas o português como língua oficial, ao lado do espanhol e do francês, e acenar com os seus petrodólares de novo-rico”.

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