O artista angolano Kiluanji Kia Henda venceu o Frieze Artist Award 2017, e irá criar uma nova instalação performativa naquela feira internacional de arte contemporânea que decorrerá de 4 a 8 de Outubro em Londres, no Reino Unido.

O júri do prémio, que recebeu candidaturas de mais de 80 países, anunciou que escolheu o projecto de Kiluanji Kia Henda, nascido em 1979, em Luanda, cidade onde continua a viver e a trabalhar em áreas que cruzam a fotografia, vídeo e “performance”.

Kiluanji Kia Henda é o primeiro artista africano a vencer este prémio, criado em 2014.

A proposta do artista, vencedora do Frieze Artist Award 2017, tem como título “Under the Silent Eye of Lenin”, e consiste numa instalação de duas partes, inspirada no culto do marxismo-leninismo no período pós-independência de Angola.

O artista faz um paralelismo entre esse culto, e as práticas de feitiçaria durante a guerra civil no país, aplicando também narrativas de ficção científica usadas durante a Guerra Fria entre as então superpotências mundiais dos Estados Unidos da América e União Soviética.

A instalação pretende suscitar a reflexão sobre a ficção e o seu poder de manipulação como arma em situações de extrema violência.

“Under the Silent Eye of Lenin” irá mudar ao longo da apresentação da feira de arte.

O júri do prémio foi composto por Cory Arcangel (artista), Eva Birkenstock (directora da Kunstverein, em Dusseldorf, Alemanha), Tom Eccles (director executivo do Center for Curatorial Studies, em Nova Iorque, EUA) e Raphael Gygax (curador), com Jo Stella-Sawicka (directora artística das Frieze Fairs) como presidente.

Recorde-se que Kiluanji Kia Henda apresentou obras recentes, de fotografia e vídeo, na exposição “In the Days of a Dark Safari”, que esteve patente na Galeria Filomena Soares, em Lisboa, até ao passado dia 6.

Amostra foi constituída por duas séries fotográficas – a “The Last Journey of the Dictator Mussunda N´zombo Before the Great Extinction”, constituída por cinco elementos, e “In the Days of a Dark Safari”, com oito obras diferentes – e um vídeo com o título “Havemos de Voltar”.

Nas séries de fotografia foi apresentada uma visão crítica da renovação dos discursos que opõem natureza e cultura, civilização e barbárie, “para que se abram novos caminhos para África”, e também uma reflexão sobre a vida e a morte, e na curta-metragem é abordada a forma como a cultura vê a natureza.

“As paisagens africanas de safari e os animais representados conduzem ao sentimento ambíguo de retorno à génese humana, quase sempre acompanhado pelo terror de se estar exposto”, referia a galeria num texto sobre a exposição.

“As falsidades colidem umas contra as outras. Entre o referencial externo da floresta e a interioridade da informação científica, entre o evolucionismo colonial e o populismo pós-colonial, produz-se um choque e mudança de perspectiva”, segundo um texto de Kiluanji Kia Henda.

“The Last Journey of the Dictator Mussunda N’Zombo Before the Great Extinction” incorpora o fim das ditaduras em África, inspirada na figura do falecido ex-presidente congolês, Mobutu Sese Seko, “considerado um arquétipo de ditador africano”.

Na curta-metragem “Havemos de Voltar”, título retirado de um poema de Agostinho Neto, o artista narra “a saga de uma Palanca empalhada que ainda possui algo de alma, ou estaria a sua alma empalhada? A Palanca rejeita o papel de se tornar num documento ao serviço da história e, pretende regressar a um passado onde reside a sua glória”.

Kiluanji Kia Henda, artista autodidacta, participou em diversas residências artísticas, nomeadamente: I Trienal de Luanda (2006); ZDB (2007), Lisboa; Black Projects (2008), Cidade do Cabo, África do Sul com bolsa da Swiss Arts Council ProHelvetia e Swiss Agency for Developement and cooperation; e 3.ª Trienal de Gaungzou (2008), China, com apoio da Sindika Dokolo Foundation.

Das exposição individuais que realizou desde 2007, destacam-se: New Man (2013), Kunstraum Innsbruck, Áustria; Trans It (2010), SOSO Gallery, São Paulo, Brasil; Self-portrait as a white man (2010), galleria Fonti, Nápoles, Itália; e Portraits from a Slippery Look (2008), Goethe Institute Nairobi, Quénia. Participa em exposições colectivas desde 2005, de onde se destacam: Tomorrow Was Already Here (2012) Tamayo Museum, Cidade do México; SuperPower: África in Science Fiction (2012) Arnolfini Art Center, Bristol, Inglaterra; Other Possible Worlds – Proposals on this side of Utopia (2011) NGBK, Berlim, Alemanha; Propaganda By Monuments (2011) Contemporary Image Centre, Cairo, Egipto; There is always a cup of sea to sail in (2010), 29.ª Bienal de São Paulo, Brasil; Black Atlantic (2009) ar/ge kunst Galerie Museum Bolzano, Itália; e Luanda Pop – check list (2007) 52.ª Bienal da Veneza, Pavilhão Africano, Veneza, Itália.

O seu trabalho encontra-se presente em diversas colecções públicas e privadas, tais como: SD, African Collection of Contemporary Art, Luanda; Colecção António Mosquito, Luanda; Colecção BESA _ Banco Espírito Santo, Angola; Hélder Batáglia, Collection of Contemporary Art Luanda; Ellipse Foundation, Collection of Contemporary Art, Lisboa; e Metropolitana di Napoli, Nápoles, Itália.

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