O maior partido da oposição angolana, UNITA, reúne a Comissão Política no início de Dezembro, disse hoje o seu porta-voz, Alcides Sakala, segundo o qual existe actualmente um “consenso” para sensibilizar o líder a retroceder na intenção de abandonar a liderança.

O deputado Alcides Sakala, porta-voz da UNITA, falava à Lusa quando decorrem, a partir de hoje e até domingo, as reuniões preparatórias, provinciais, para a próxima sessão ordinária da Comissão Política do partido, que deverá ter lugar “na primeira semana de Dezembro”.

“O partido não está em crise, antes pelo contrário, está fortificado, mais unido e coeso e ele [Isaías Samakuva, líder da UNITA] está dentro do seu mandato, que termina em 2019. É esta a tendência, de poder continuar até terminar o mandato, mas tudo será analisado nesta reunião da Comissão Política”, indicou Alcides Sakala.

Vários históricos daquele antigo movimento independentista admitiram nas últimas semanas a possibilidade de concorrerem à liderança do partido fundado por Jonas Savimbi, incluindo o seu próprio filho e actual deputado da UNITA, Rafael Massanga Savimbi, entre outros.

A 27 de Setembro, o presidente da UNITA, Isaías Samakuva, anunciou que pretende abandonar a liderança, colocando o seu lugar à disposição no arranque de um novo ciclo político em Angola, após as eleições gerais angolanas de Agosto, em que o partido ficou no segundo lugar.

“Afirmei aos angolanos, antes e durante a campanha eleitoral, que depois das eleições deixaria o cargo de presidente da UNITA para servir o partido numa posição diferente [concorria a Presidente da República]. Mantenho e reafirmo esta decisão”, disse hoje Isaías Samakuva, que falava então na abertura da quarta reunião ordinária da Comissão Política do Comité Permanente da UNITA, nos arredores de Luanda.

Isaías Samakuva foi eleito presidente do partido em 2003, na sequência da morte em combate, no ano anterior, do líder e fundador da UNITA, Jonas Savimbi, o que levou ao fim da guerra civil de quase 30 anos em Angola.

O líder do maior partido na oposição em Angola, o segundo mais votado nas eleições gerais, que viu o número de deputados eleitos quase duplicar, para 51, defendeu antes que “é chegado o momento de se desencadear um novo processo conducente a materialização da sua decisão”, propondo por isso a realização de um congresso extraordinário.

A decisão cabe à Comissão Política do partido, que segundo o porta-voz da UNITA pode tentar convencer Isaías Samakuva a cumprir o mandato até ao final.

Os angolanos, sobretudo os que simpatizam com a UNITA, continuam sem saber se qualquer reflexão que ultrapasse o círculo de bajuladores de Isaías Samakuva (é tal e qual o que se passou com Eduardo dos Santos e já se passa com João Lourenço) serve para acordar aqueles que sobrevivem com mandioca ou, pelo contrário, apenas se destinam a untar o umbigo dos que se banqueteiam com lagostas em Luanda.

Perante os sucessivos desastres eleitorais (apesar do bom resultado de Agosto, continua a ver o poder por um canudo), Isaías Samakuva mais não conseguiu do que ir de derrota em derrota. Limita-se a posições cosméticas para tudo ficar na mesma. Apesar de ser o líder desde 2003, não percebeu que a UNITA enquanto principal partido da Oposição está em cima de um tapete rolante que anda para trás. Por isso limitou-se a andar. E, é claro, ficou com a sensação de estar a ganhar terreno mas, no final de contas, está sempre no mesmo sítio. Jonas Savimbi dir-lhe-ia, certamente, isto de forma mais assertiva.

Isaías Samakuva é o líder que os militantes querem. Não é de crer que seja a alternativa que os angolanos gostavam de ter. Longe disso. Ao contrário de Jonas Savimbi que, mesmo errando muitas vezes, agia, Samakuva limita-se a reagir e a muito custo. Em vez de entender a mensagem, manda “abater” o mensageiro.

Ninguém melhor do que Samakuva para saber se a UNITA vai conseguir viver sem comer. UNITA no sentido dos homens e mulheres que tinham e têm orgulho no Galo Negro que transportavam no peito. Um dia destes o MPLA virá dizer, eventualmente sob o sorriso acéfalo de mais alguns “Fernandos Heitores” e com uma lágrima no canto do olho (sorridente), que exactamente quando estava mesmo, mesmo quase a saber viver sem comer, a UNITA morreu.

A UNITA, e nisto é igual ao MPLA, prefere ser assassinada pelo elogio do que salva pela crítica. E quando assim é… não há memória que a salve, nem mesmo a do Mais Velho.

O sacrificado povo angolano, mesmo sabendo que foi o MPLA que o pôs de barriga vazia (temos 20 milhões de pobres), não viu, não vê e assim nunca verá, na UNITA a alternativa válida que durante décadas lhe foi prometida, entre muitos outros, por Jonas Savimbi, António Dembo, Paulo Lukamba Gato, Alcides Sakala, Samuel Chiwale Jeremias Kalandula Chitunda, Adolosi Paulo Mango Alicerces e Elias Salupeto Pena.

Terá sido para isto que Jonas Savimbi lutou e morreu?, perguntam muitos angolanos das gerações mais velhas. Não. Não foi. E é pena que os seus ensinamentos, tal como os seus muitos erros, de nada tenham servido aos que, sem saberem como, herdaram o partido.

Será que a UNITA não enterrou, depois da morte de Savimbi, o espírito que deu corpo ao que se decidiu no Muangai em 13 de Março de 1966?

Foi do Muangai que saíram pilares como a luta pela liberdade e independência total da Pátria; Democracia assegurada pelo voto do povo através dos partidos; Soberania expressa e impregnada na vontade do povo de ter amigos e aliados primando sempre os interesses dos angolanos.

Foi de lá que também saíram teses sobre a defesa da igualdade de todos os angolanos na Pátria do seu nascimento; busca de soluções económicas, priorização do campo para beneficiar a cidade; liberdade, democracia, justiça social, solidariedade e ética na condução da política.

Alguém, na UNITA, se lembra hoje de quem disse: ”Eu assumo esta responsabilidade e quando chegar a hora da morte, não sou eu que vou dizer não sabia, estou preparado”?

Isaías Samakuva pode continuar a ser líder da UNITA. Por muitos anos que o seja ficará sempre longe dos 38 anos que José Eduardo dos Santos leva na liderança do MPLA. Mas, em democracia, quantos líderes estão tantos anos (14 já leva Samakuva) na liderança de um partido?

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