A Frente de Libertação do Estado de Cabinda emitiu hoje um comunicado em que “felicita a justiça Belga que acaba de dar um tratamento neutro ao mandato internacional emitido pelas autoridades espanholas contra os separatistas catalães, concedendo-lhes a liberdade condicional e o direito de campanha para as eleições do território belga”.

Por Norberto Hossi

Assim, diz o comunicado enviado ao Folha 8, “a Direcção Política da FLEC considera que a declaração do governo angolano sobre a situação catalã em apoio ao governo de Rajoy, uma confissão de fraqueza em relação ao tratamento que o regime autoritário do MPLA sempre reservou para o dossiê de Cabinda e que não consegue resolver através do diálogo”.

“Quando os políticos e outros activistas são atirados para a prisão, simplesmente porque têm uma opinião diferente, ou quando a violência é usada contra cidadãos, isso é uma flagrante violação dos direitos fundamentais do homem”, lê-se no comunicado, acrescentando a FLEC que “Angola, que não é um Estado de Direito, não é um exemplo para dar lições de democracia aos catalães nem ao resto dos espanhóis que exigem o respeito da lei e uma solução pelo diálogo, apesar do terrível silêncio temerário e hipócrita de países europeus que temem um efeito de contágio, e que até agora conseguiram construir uma Europa unitária sem levar em conta a vontade dos povos.”

Afirma ainda a FLEC que “a posição do governo angolano é sinónimo do trauma de Cabinda, faltando-lhe coragem para entender que o problema só pode ser resolvido através de um diálogo inclusivo”. Por isso, dizem os cabindas, “há coisas que não devem ser toleradas em nenhum país da União Europeia, como são as violações dos direitos humanos e do direito internacional, quer concordemos com os catalães ou não. Não podemos encarcerar as pessoas por simplesmente exercerem pacificamente seus direitos democráticos.”

Recorde-se que existe um crescente apoio à tese de que Portugal deveria – no âmbito da União Europeia e da CPLP – apoiar a realização de um referendo sobre o futuro de Cabinda, contribuindo assim para atenuar o risco de uma implosão em Angola.

O Folha 8 relembra agora o que o Jornalista Carlos Narciso disse, em Maio de 2011, na apresentação do livro “Cabinda – Ontem protectorado, hoje colónia, amanhã Nação”, de Orlando Castro.

“Este livro é um exercício a dois tempos. Por um lado, é um relatório de factos relacionados com a História de Cabinda. Os tratados do século XIX, a implantação da República em Portugal, o Estado Novo, a revolução de Abril, a descolonização, a guerra civil angolana. Por outro lado, é um acto de liberdade de expressão, exercido por um jornalista que se quer a tempo inteiro e íntegro.

Muitos dirão que se trata de jornalismo de causas, e porventura terão razão. Mas a defesa da causa dos oprimidos, das minorias, dos mais fracos, dos que não têm voz, é um jornalismo por uma causa justa, digamos assim, “é o jornalismo da indignação, que não é indolor nem incolor” parafraseando o conhecido jornalista português Baptista Bastos.

O que o bom jornalismo exige é a procura, em consciência, da Verdade, mais do que a simples exposição de factos ou afirmações. Fazer jornalismo é, ainda, descodificar argumentos para uma linguagem acessível a todos os que quiserem compreender o drama que se relata na prosa jornalística…

Nesse sentido, este livro é uma pedrada no charco. Não por conter revelações assombrosas, mas por se atrever a falar de um assunto silenciado e que incomoda os sistemas em vigor: o sistema político instaurado em Angola e o sistema capitalista sustentado globalmente pela exploração e acumulação de riqueza.

Aqui não resisto em repetir o que vem escrito no livro: “…é por isso que Cabinda não é notícia. Uma bitacaia no presidente do MPLA teria com certeza muito maior cobertura do que o facto de em Cabinda imperar o terror.

Falar hoje de Cabinda é algo que desagrada aos poderes políticos e económicos de Angola, de Portugal, e dos que mandam em Angola e em Portugal.

A situação de Cabinda deriva do resultado da descolonização portuguesa. Mas essa descolonização não foi um acto controlado pelos que derrubaram o regime do Estado Novo em Portugal. O papel de Portugal não foi assim tão decisivo, tendo em conta o confronto na época entre os EUA e a União Soviética.

Aconteceu que os EUA perderam a guerra em Angola, assim como já tinham perdido antes a do Vietname.

Os vencedores – a URSS, Cuba, o MPLA – não estavam, naturalmente, interessados na independência de Cabinda e Portugal pouco mais podia ser que um espectador passivo.

Bom, é isto que este livro retrata, ainda que por outras palavras e, porventura, diferentes pontos de vista.

É preciso acrescentar que hoje vivemos em sociedades proto-fascistas, no sentido em que só os poderosos é que têm direito a sobreviver. Acham exagero? Mas digam lá, então, quem é que hoje que esteja fora do arco do poder, se consegue fazer ouvir.

Não me refiro a conversas de café, onde cada um fala mais ou menos alto aquilo que entende… refiro-me ao eco que opiniões divergentes têm nos grandes órgãos de comunicação social nacionais, as televisões, por exemplo… Aqui ou em Angola?… em Cabinda é quase um silêncio total, entrecortado talvez pelos gemidos dos agrilhoados… e em Portugal, enfim… por exemplo, agora vamos para eleições, mas já repararam que os debates eleitorais nas televisões são só entre os cinco grandes partidos, os que têm acento parlamentar, mandando às urtigas o direito constitucional de igualdade perante todas as candidaturas?

Em Portugal, onde é que um ponto de vista que não seja do pensamento dominante se consegue fazer ouvir? Qual é o jornal nacional, a rádio ou a televisão que acolhe opiniões incómodas e as questiona? As difunde? As confronta?

Qual deles é que está aqui para ouvir ideias que confrontam o Poder estabelecido em Angola, um Poder que compra com petróleo silêncios e compromissos por todo o Mundo? É neste quadro que temos de entender o silêncio mediático que envolve a questão de Cabinda.

Mas, enfim… Quando estamos convencidos da nossa razão, nunca devemos abdicar de lutar por aquilo que entendemos que é justo. O que a História ensina é que pode demorar tempo, pode não ser no nosso tempo, pode ser que só aconteça no tempo dos nossos filhos ou dos nossos netos – digamos que isso é pouco importante.

O que é importante é o rumo que imprimimos aos acontecimentos.

O livro termina com a frase “Só é derrotado quem deixa de lutar”… na verdade, a razão pode ser abafada durante algum tempo, mas não pode ser abafada durante todo o tempo. É isso que este livro nos ensina. E por isso merece ser lido.”

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