José Eduardo dos Santos chegou ao cadeirão do Poder em Angola em 21 de Setembro de 1979. Por lá se manteve até 2017, fazendo e alimentando uma horda de bajuladores que, pensava ele, seriam incapazes de alguma vez o apunhalar pelas costas. Enganou-se. Mal se levantou do cadeirão para o passar a João Lourenço sentiu logo as primeiras punhaladas.

Por Orlando Castro

Ao longo dos últimos 22 anos, o Folha 8 sempre disse que a febre do poder estava a toldar inteligência de José Eduardo dos Santos e que ele estava, de dia para dia, a mostrar ser exclusivamente apologista de querer ser assassinado pelo elogio bajulador do que salvo pela crítica séria.

Pagámos, continuamos a pagar, um alto preço por isso. Ao contrário dos que agora servem outro amo e, por isso, o transformaram do dia para a noite de bestial em besta, nós sempre mantivemos (com falhas e erros, que assumimos) a mesma postura. Dizemos, de frente, o que pensamos ser a verdade. Fazemos disso uma regra de ouro.

Como nestas questões de integridade moral nunca é tarde para reconhecer erros, talvez José Eduardo dos Santos deva um pedido de redenção a todos aqueles (e não são assim tantos) que durante os seus 38 anos de Poder foram – e continuam a ser – coerentes com essa verdade.

O Folha 8 (e sempre são 22 anos na primeira linha deste combate) pode ser legitimamente acusado por José Eduardo dos Santos de o ter “alvejado” muitas e muitas vezes. É verdade. Mas ele sabe que foram sempre “tiros” dados pela frente, o que lhe permitia defender-se e, sobretudo, saber quem era o adversário ou – como diziam os seus acólitos que agora o consideram um alvo a abater – o “inimigo”.

Hoje, certamente, Eduardo dos Santos não terá dificuldades em reconhecer (nem que seja apenas nos seus solilóquios) que tínhamos razão quando dizíamos que ele não olhava a meios para atingir os seus fins, mesmo que isso passasse pele inclusão de alguns “inimigos” na cadeia alimentar dos jacarés.

Também tínhamos razão ao dizer que nunca foi nominalmente eleito e que era nesse facto que residia o seu segredo. Tal como anotamos que passou, até talvez com alguma glorificação, ao lado dos massacres (30 mil, 80 mil mortos?) do 27 de Maio de 1977, mostrando depois que ao contrário do que pensariam Lúcio Lara, Ambrósio Lukoki e Pascoal Luvualu quanto à sucessão de Agostinho Neto, não era um sipaio.

José Eduardo Agualusa, no conto “O bom déspota”, escreveu: “Durante os primeiros anos fingi-me de morto. Deixei que me vissem como um fiel herdeiro do falecido Presidente e, ao mesmo tempo, fui libertando sem alarde os fraccionistas que haviam sobrevivido aos fuzilamentos e aos campos de concentração. Nomeei alguns para importantes cargos governamentais. Nunca mais criaram problemas”.

O problema hoje é que, afinal, José Eduardo dos Santos já não pode (pelo menos assim parece) nomear e, por isso, a cáfila faminta dos que o passaram de bestial a besta não pára de crescer.

Como líder do MPLA, do governo e da República, Eduardo dos Santos, enterrou Lenine, o comunismo e rendeu-se ao capitalismo, aceitando mesmo que figurativamente se desse ao país uns laivos de democracia e de multipartidarismo. Mas agora só resta a liderança do partido e, mesmo aí, são cada vez mais os que estão prontos para se ajoelhar aos pés no novo “escolhido de Deus”.

“O sistema de gestão da economia socialista não era capaz de dar resposta aos numerosos problemas com que se defrontava a sociedade. O afundamento do sistema socialista não foi uma grande surpresa para nós e não nos afectou profundamente. Nós já nos havíamos engajado em todo um processo de reajustamento do nosso sistema,” afirmou Eduardo dos Santos em Abril de 1992 ao Le Courrier.

Nessa enorme capacidade de assassinar os camaras de ontem e de também bajular os de hoje, Eduardo dos Santos fez com que o MPLA, no III Congresso extraordinário de 1992, deixasse de ser “Partido do Trabalho”, a República deixasse se ser “Popular” e até a Assembleia do Povo passa a ser Assembleia Nacional.

Sem o fantasma de Jonas Savimbi no activo, Eduardo dos Santos, passou a conduzir o governo como se fosse a sua empresa de investimentos privada. O problema é que agora o potencial novo dono disto tudo quer voltar a nacionalizar o país para, é claro, voltar a privatiza-lo, nessa altura com outros proprietários, provavelmente de apelido Lourenço.

Quanto a nós, cá vamos continuar, assumindo que – apesar da nossa quota-parte de responsabilidade na “queda” de alguns – não será por estarem caídos que os vamos espezinhar. É, inequivocamente, o oposto do que fazem muitos outros no seu prazer canibalesco de pontapear os caídos que, ainda ontem, os ajudaram a ter lugar cativo na manjedoura.

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