Os médicos internos dos hospitais de Luanda pediram hoje a melhoria das condições laborais e da remuneração salarial, defendendo a criação de um sindicato dos médicos, perante a “péssima” realidade actual do sector. Mais de 40% estão insatisfeitos com as condições de salariais e de trabalho e um terço considera ter uma qualidade de vida “muito má”.

“C ontinuamos sem ninguém que vele pelo nosso bem-estar, pela nossa satisfação. Temos um horário de trabalho muito pesado e continuamos com um salário que não se ajusta à nossa situação”, disse hoje a médica interna, Luzia de Melo.

Falando durante o 1.º Encontro dos Médicos Internos de Angola, uma promoção da Associação dos Médicos de Angola (AMA), a médica do Hospital Josina Machel de Luanda, maior unidade hospitalar pública de Angola, considerou como “muito péssima” a condição laboral das unidades de saúde estatais.

“Daí que aconselharia a essa associação que fizesse visitas regulares principalmente nos hospitais públicos para avaliarem as condições de trabalho dos médicos, eu por exemplo, compro os meus meios de trabalho para puder funcionar”, explicou.

Diante desta situação, a interna de cardiologia do Hospital Josina Machel, defendeu mesmo a criação de um sindicato dos médicos de Angola, “para uma reflexão profunda sobre essas nossas preocupações”.

Uma reivindicação partilhada por outros profissionais, durante este encontro. É o caso da médica interna da Clínica Sagrada Esperança, Ana Soraia Martins: “São sempre relevantes para qualquer área laboral, porque é nos sindicatos onde vemos defendidos os nossos interesses”.

Para a clínica, são muitas as preocupações na actividade diária dos médicos internos a nível do país, desde as condições de trabalho, mas também o reduzido salário.

“E questões fundamentalmente ligadas à formação dentro e fora do país, temos particularmente um trabalho de carácter diferente porque trabalhamos mais tempo, fazemos banco 24 horas e ainda somos obrigados a nos mantermos na instituição”, apontou.

Neste 1.º Encontro dos Médicos Internos de Angola também marcou presença da médica Carlota Tati, proveniente de Cabinda. A médica interna disse mesmo estar descontente com a profissão, pelo desinteresse das autoridades na valorização dos profissionais da saúde.

“Realmente, se hoje me perguntarem se voltarias a fazer medicina eu diria que não, porque há uma grande disparidade em relação aos colegas do mesmo nível de formação, então as condições bases dos profissionais neste país não estão equiparadas”, justificou.

Reiterou a ideia da institucionalização de um sindicato, porque, disse, “é urgente a melhoria de condições de vida dos médicos no país”.

“Panorama do Internato Complementar Médico em Angola” é lema deste 1.º Encontro dos Médicos Internos de Angola, uma realização da AMA e que juntou profissionais do sector para troca de experiência e um olhar sobre as acções diárias da classe.

Mais de 40% dos médicos estão insatisfeitos com as condições de salariais e de trabalho e um terço considera ter uma qualidade de vida “muito má”, indicam as conclusões de um estudo apresentado hoje em Luanda.

Os resultados preliminares do estudo, promovido pelo Centro de Estudos Avançados de Educação Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, foram apresentados hoje, com os autores a constatarem “com muita preocupação” que 70% dos médicos inquiridos “se pudessem escolher não voltariam a ser médicos”.

“Então, temos médicos a cuidar de vidas e que realmente já não têm prazer da profissão mas as necessidades a isso obrigam”, explicou Kavungu André, membro do Centro de Estudos Avançados de Educação Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto.

De acordo com o estudante do 5.º ano da Faculdade de Medicina da maior universidade de Angola, este estudo foi realizado nas principais unidades hospitalares públicas e privadas do país, tendo como amostra um grupo de mais de 70 médicos, surgindo em função das constantes reclamações apresentada pela classe.

“São muitas as reclamações que são apresentadas, como as condições de trabalho, por exemplo, algumas delas as direcções dos hospitais conhecem, a ordem dos médicos conhecem mas que continuam sem respostas”, explicou.

Qualidade de Vida e Grau de Satisfação dos Médicos em Luanda é a temática do estudo que, segundo Kavungu André, mostra igualmente “com unanimidade” os principais problemas vividos nos hospitais principalmente os públicos e deverá ser realizado também outras províncias do país.

Folha 8 com Lusa

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