Como não poderia deixar de ser, o decano do Corpo Diplomático acreditado em Luanda, Jean Baptiste Dzangue, elogiou hoje os êxitos quase divinos da governação (que já dura há 37 anos) de sua majestade José Eduardo dos Santos. E, no agradecimento, Dos Santos disse que a interpretação de Dzangue traduz as qualidades de um observador atento e de um diplomata distinto.

Ao discursar na cerimónia de cumprimentos de Ano Novo do Corpo Diplomático, José Eduardo dos Santos – na sua congénita modéstia de estadista de gabarito mundial – disse que essa interpretação de Jean Baptiste Dzangue contribui para a concórdia e a aproximação entre os povos e os países num espírito de respeito e compreensão mútua.

“É para mim motivo de grato prazer receber os Senhores Representantes do Corpo Diplomático nesta Cerimónia de Cumprimentos de Ano Novo. Ouvi com muita atenção as palavras do Senhor Decano do Corpo Diplomático, a quem agradeço profundamente as palavras de amizade e cortesia”, disse Eduardo dos Santos.

Na sua análise, seguida atentamente nos principais areópagos da política mundial, desde a Coreia do Norte à Guiné Equatorial, sua majestade disse que são muitos os problemas a que a comunidade internacional tem de fazer face, e só colocando acima de tudo a vontade política, o espírito de diálogo e o cumprimento dos princípios e normas do Direito Internacional será possível encontrar soluções para esses problemas.

Não. Parece mas não foi Barack Obama quem disse isto. Foi mesmo José Eduardo dos Santos…

Nesse contexto, Eduardo dos Santos disse ser inquestionável a necessidade de regresso aos parâmetros do multilateralismo universal, para se ultrapassarem mais facilmente os conflitos militares, o clima de incerteza política e a crise económica e financeira, a que o actual espírito unipolar nas relações internacionais conduziu em diferentes partes do globo.

Declarou também que, felizmente, vai-se formando um consenso de que é urgente inverter-se a inércia negativa dos conflitos e que a paz é fundamental para o desenvolvimento e progresso dos povos e nações, para a promoção da democracia e para a salvaguarda dos direitos humanos.

“Essa visão mais realista, pragmática e tolerante nas relações internacionais é tanto mais importante quanto o facto de as Nações Unidas e outras instituições internacionais estarem a desempenhar um papel cada vez mais activo na tentativa de resolução dos problemas internacionais. É também nesta perspectiva que devem ser saudadas algumas alterações que ocorreram recentemente no mundo”, expressou sua majestade o “escolhido de Deus”.

José Eduardo dos Santos disse também acreditar que o novo Secretário-Geral da ONU, o português e velho amigo do regime António Guterres, recentemente empossado, vai dar um notável impulso a uma nova abordagem dos problemas internacionais e que os Estados membros dessa organização universal vão dar o contributo que estiver ao seu alcance para a busca de soluções efectivas para os conflitos actuais, bem como para se evitarem novos conflitos, através de uma diplomacia preventiva mais actuante.

A bajulação do diplomata (de)cano

José Eduardo dos Santos gostou de ser elogiado. Tal como o seu regime, prefere ser assassinado pelo elogio do que salvo pela crítica.

José Eduardo dos Santos gostou de ser elogiado. Tal como o seu regime, prefere ser assassinado pelo elogio do que salvo pela crítica.

O decano dos embaixadores acreditados em Angola, Jean Baptiste Dzangue (Congo Brazzaville), saudou reverencialmente os esforços, no mínimo notáveis, do Governo angolano tendentes a impulsionar o crescimento dos sectores que estão fora do petróleo, mais precisamente agricultura, pesca, construção e comércio.

Segundo o (de)cano Jean Baptiste Dzangue, essa política melhorou de forma substancial a cesta básica, o fornecimento de água e energia, a saúde pública, sobretudo no que concerne à melhoria das taxas da mortalidade materno-infantil, de acordo com as recentes estatísticas feitas por medida pelo regime do MPLA, e que, nos últimos tempos, fazem prova de muito ardor de Angola.

De acordo com Jean Baptiste Dzangue, um outro desafio maior e o mais preocupante é a questão da segurança e das instabilidades no mundo, em geral, e em África, em particular.

“Vossa Excelência dizia a este respeito, cito: trata-se de situações de instabilidade política e militar que prevalecem na nossa região e que minam, não somente a soberania e a integridade dos países envolvidos, mas que nos afectam a todos, ameaçando a paz e a segurança de toda a região, que são os fundamentos indispensáveis para o desenvolvimento socioeconómico, assim como o processo da integração dos nossos países nos diferentes blocos sub-regionais, tais como os Grandes-Lagos, a SADC e a CEEAC”, expressou o assalariado de Denis Sassou Nguesso.

Jean Baptiste Dzangue afirmou que uma das principais causas das instabilidades constitui, infelizmente, dentre outras, a organização, mais ou menos conseguida e muito controversa dos processos eleitorais que acarretam consequências imprevisíveis. Nada como uma “democracia” que, como a angolana, mantém no poder a mesma pessoas durante 37 anos…

A seu ver, o mérito de que Angola se pode vangloriar hoje é que o povo e os governantes compreenderam muito bem que somente a paz social e a segurança constituem a alavanca incontornável para a construção de uma sociedade inclusiva e de bem-estar, favorecendo a liberdade e a diversidade de expressão, a criatividade, promoção da democracia participativa, o diálogo, tudo num estrito respeito das leis em vigor na República de Angola. O (de)cano sabe o que diz mas não pode dizer o que sabe.

Jean Baptiste Dzangue disse ser por causa desta preocupação maior que o Governo e o Chefe de Estado angolano pessoalmente cuidam, de maneira muito meticulosa e responsável (ou seja, pela fraude), dos preparativos e da organização das próximas eleições gerais de 2017.

“Partindo do Presidente da República ao Presidente da Assembleia Nacional, passando pela Sociedade Civil, inclusive as igrejas, os Partidos Políticos, as Organizações das mulheres e da juventude, o poder judicial, em suma, todas as sensibilidades nacionais, sentem-se implicadas nesse processo em nome da nação e por uma República Unida e indivisível”, declarou Jean Baptiste Dzangue, curvando-se caninamente perante sua majestade.

“Basta olhar para o entusiasmo com que a população votante aflui, de Norte ao Sul e de Leste ao Litoral, quer seja no interior do país, para participar em todas as fases do registo e actualização do ficheiro eleitoral na equidade, transparência e tolerância. Não será isso já um sinal muito confiante de que as eleições decorrerão aprioristicamente de forma pacífica?”, perguntou, afirmando, Jean Baptiste Dzangue.

É mesmo isso. O discurso do (de)cano poderia resumir-se na seguinte máxima que, apesar de velhinha, continua pujante: “O MPLA é Angola, Angola é o MPLA”.

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