O Governo português reiterou a disponibilidade do primeiro-ministro, António Costa, para visitar Angola na Primavera, mas admite que esta deslocação só se realize após as eleições gerais angolanas previstas para Agosto.

Em declarações à Lusa, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva (o tal que disse estar “mandatado por José Eduardo dos Santos”), afirmou que “o Governo está a trabalhar no cenário que acertou com as autoridades angolanas”, no sentido de a visita se realizar “na data mais breve possível, que seja de interesse de ambas as partes”.

“Do ponto de vista português, o nosso interesse é que a visita se realize. Nós compreendemos que o calendário político-eleitoral em Angola coloca restrições e portanto entendemos que o que faz sentido é que essa visita se realize na primavera ou depois, já com um novo Presidente e um novo executivo”, afirmou o chefe da diplomacia portuguesa, tentando tapar o Sol com uma peneira de modo a desviar o cerne da questão.

O suposto impedimento nada tem a ver com as eleições. Refere-se, exclusivamente, à chantagem do regime de José Eduardo dos Santos sobre Portugal, procurando que sejam arquivados os processos judiciais por corrupção contra altos dignitários do MPLA, com Manuel Vicente, vice-presidente da República, à cabeça. Santos Silva tem todo o direito de tratar os seus cidadãos como matumbos, mas não tem esse direito quando fala dos angolanos.

Portugal está, neste momento, a aguardar a indicação de uma data pelas autoridades angolanas, na sequência da visita que o ministro realizou, em meados de Fevereiro, àquele país.

Questionado sobre se o Governo português mantém o interesse em que a visita se realize na Primavera, Santos Silva respondeu: “A nossa disponibilidade é essa. Agora, também compreendemos o ponto de vista das autoridades angolanas e nós queremos que a visita se realize com o máximo de êxito possível”.

O êxito total será conseguido tão logo alguém em Portugal dê, como acontece em Angola, “ordens superiores” para os processos serem arquivados. Aí sim, tudo ficará na santa paz dos deuses.

Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros português, trata-se de uma “visita muito importante porque há temas muito importantes na agenda bilateral”. Do ponto de vista oficial do regime de Eduardo dos Santos nada há de mais importante do que o arquivamento dos processos e, consequentemente, na manutenção de Portugal como uma monumental lavandaria das negociatas do clã que há 38 anos dirige Angola.

“Quando Angola entender que seja a melhor data para a visita do primeiro-ministro de Portugal a Angola, ela realizar-se-á”, disse Santos Silva, confundindo deliberadamente a beira da estrada com a estrada da Beira. Falar de Angola quando, de facto, deveria falar do regime que governa Angola, é uma forma de atirar areia à nossa chipala. Mas a estratégia já não cola.

Recorde-se que em Fevereiro, foi adiada “sine die” a visita a Angola da ministra da Justiça portuguesa, Francisca Van Dúnem, sem que tivesse sido dada, na altura, qualquer explicação pelo executivo angolano.

Dias depois, o Governo de Luanda classificou como “inamistosa e despropositada” a forma como as autoridades portuguesas divulgaram, em meados de Fevereiro, a acusação de corrupção feita pelo Ministério Público a Manuel Vicente, vice-Presidente de Angola.

A posição do Governo angolano foi conhecida através de uma nota do Ministério das Relações Exteriores, que considera a divulgação da acusação como “um sério ataque à República de Angola, susceptível de perturbar as relações existentes entre os dois Estados”.

O primeiro-ministro, António Costa, já manifestou a vontade de prosseguir a “cooperação política e económica” com Angola, garantindo que a acusação da Justiça portuguesa ao vice-Presidente angolano não afectará a sua amizade para com o nosso país. Todos (ou quase todos) acreditamos que a amizade entre portugueses e angolanos não será afectada negativamente. Mas que afecta a amizade entre os donos de Angola (MPLA/regime) e as instituições portuguesas, isso afecta. E de que maneira. José Eduardo dos Santos não admite que o queiram salvar pela crítica. Está, decididamente, apostado em ser assassinado pelo elogio.

O chefe do Governo português aproveitou para recordar o “princípio da separação de poderes” que vigora em Portugal, onde as autoridades judiciárias actuam com “total independência” face ao executivo.

A isso, o regime responde dizendo que não aceita lições de independência de democracias fracas como a portuguesa. O MPLA pauta a sua actuação desde há 41 anos pelos exemplos das grandes democracias mundiais, casos da Guiné Equatorial e da Coreia do Norte…

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