O Presidente João Lourenço, fiel aos conselhos do seu ministro da Comunicação Social e amigo Mário António da Informação do MPLA, provocou um tsunami partidário ao mudar os autores da mídia pública, mas mantendo tudo, dentro dos limites do regime. Apenas mudaram os chefes dos CAP’s do Cazenga, Sambizanga e Vila Alice, para os da Maianga e Alvalade, pois é tudo da mesma freguesia partidocrata.

Foi dentro desta visão, que na qualidade de Titular do Poder Executivo, exonerou no dia 9 de Novembro as administrações de todas as empresas públicas de comunicação social, tendo nomeado novos administradores para os cargos designados pelo anterior chefe de Estado, José Eduardo dos Santos. Mudaram as moscas, sim e, bem, mas a m… é a mesma, com alguma recauchutagem, fora do período eleitoral, para adormecer a oposição, que deve e já deveria ter reagido, de serem sempre elementos do mesmo partido quando, sendo órgãos públicos, poderiam recrutar quadros através de concurso público ou independentes da sociedade civil. Não agindo, correm o risco de, no período eleitoral, os tempos de antena e não só ficarem “colonizados” pelo partido no poder.

E o que mudou? Muito poucochinho…. mas nada de que o F8 não tivesse já dito aquando da primeira visita do ministro. A comunicação social pública estava uma pouca-vergonha, mas a base da sua criação e visão partidocrata, continua, pese algumas, cosméticas mudanças, para inglês ver.

Mas, considerando estarem reunidas as condições objectivas, para colocar homens da sua confiança e do partido no poder, João Lourenço acreditou no cansaço e incompetência de muitos dos seus camaradas, uns que terão “delapidado” bastante os órgãos onde exerciam funções. Por esta razão, exonerou-os, a maioria, bem, face à gritante mestria bajuladora, dos conselhos de administração da Televisão Pública de Angola (TPA), nomeadamente, Hélder Manuel Bárber Dias dos Santos, considerado caixeiro viajante, do cargo de Presidente do Conselho de Administração, Gonçalves Ihanjica da Direcção de Informação, o terror e controleiro do tipo pidesco, dos jornalistas, além de outros cinco administradores executivos e dois não executivos; da Rádio Nacional de Angola (RNA), o Presidente do Conselho de Administração, Henrique Manuel João dos Santos, bem como os restantes seis administradores executivos e dois não executivos; das Edições Novembro (proprietária do Jornal de Angola), José Ribeiro do cargo de Presidente do Conselho de Administração, Victor de Carvalho de Director adjunto do JA e os restantes seis administradores executivos e dois não executivos; da Agência Angola Press (Angop), Daniel Miguel Jorge e quatro dos administradores executivos e dois não executivos.

Os novos senhores da família

Para além de uma nova roupagem na abordagem das matérias, nada do que é obrigação de um órgão público, alimentado pelo dinheiro dos contribuintes, para terem acesso a uma informação plural, isenta e não discriminatória, o quadro não mudou, tudo porque a oposição não muge nem tuge.

Era preciso mudar, sim, mas poderia ser aqui, na comunicação social pública o grande teste de João Lourenço, pois verniz, os angolanos têm tido e muito, veja-se a TV Zimbo e a LAC, para citar apenas dois, ao longo do processo não eleitoral, fingem ser imparciais, convidando, selectivamente, alguns actores políticos fora da família MPLA, mas quando se chega as eleições, lá está a imagem de marca, diabolizando os demais.

Por esta razão, com a nomeação das novas direcções destes órgãos, guinada na “estrela amarela”, os líderes da oposição deveriam solicitar uma audiência, com carácter de urgência, com João Lourenço, exigindo um equilíbrio, para se garantir um verdadeiro pluralismo e não discriminação informativa.

Vejamos, como ficaram os novos Conselhos de Administração; a Televisão Pública passa a ser presidida por José Fernando Gonçalves Guerreiro, quadro antigo do DIP, amigo de Mário António e João Melo e saído da TVC (Televisão Comercial) acusado de má gestão e desvio de fundos, vai ser coadjuvado por Francisco José Mendes, que abandona a TV ZIMBO, para assumir as funções de administrador executivo para Conteúdos, Bidima Manteya Jorge para Administração e Finanças, Manuel Florindo Rosa dos Ramos para a área Técnica, e Ana Maria Gouveia para o Marketing e Intercâmbio, Leonel da Conceição Abel Martins e António Baptista, como administradores não executivos.

Assume o Conselho de Administração da Rádio Nacional, Marcos António Quintino Lopes, Paula Simons, administradora executiva para os Conteúdos, Fidel Adão da Silva para Administração e Finanças, Cândido Rocha Pinto para a área Técnica, e Círia Monteiro Cassoma no Marketing e Intercâmbio, enquanto José Fernandes Cruz Neto e Aguinaldo Cahilo ficam como administradores não executivos.

O Jornal de Angola recebe um velho quadro, amigo de João Melo e que também teve uma triste passagem, ligada à gestão de fundos, para além de se ter convertido nos últimos tempos num dos grandes bajuladores do templo, não se coibindo, inclusive de atentar contra colegas de profissão da imprensa privada, Victor Emanuel Nelson da Silva, como presidente do Conselho de Administração.

Caetano Pedro da Conceição Júnior será administrador executivo para os Conteúdos da Edições Novembro, José Alberto Domingos para Administração e Finanças, Carlos Alberto Molares D´Abril para a área Técnica, Mateus Francisco dos Santos Júnior para o Marketing, Publicidade e Vendas, enquanto Olímpio de Sousa e Silva e Catarina Viera Dias da Cunha ficam como administradores não executivos.

Na Angop, transitam dois antigos administradores para a chefia, nomeadamente, Josué Silicavisa Isaías, como presidente do Conselho de Administração, secundado por José Chimuco como administrador executivo, para os Conteúdos, Engrácia Bernardo para a Administração e Finanças, Manuel Luzito André para a Área Técnica, e Lourenço Mutepa para Marketing e Intercâmbio, Anastácio Pinto Emídio de Brito e Júlia Maria Dias Rodrigues Mingas como administradores não executivos.

Como se pode verificar, facilmente, não existe ninguém, que não seja dos comités de especialidade do MPLA, uns com passagens pela Assembleia Nacional e outros cargos partidários. Os jornalistas independentes, que não fazem parte do partido no poder, que bem poderiam assumir responsabilidades, foram mais uma vez mais preteridos, na lógica partidocrata de governação.

Discurso em sentido contrário da prática

No discurso de investidura como terceiro Presidente da República de Angola, João Lourenço abordou directamente o sector da comunicação social, realçando que o país assistiu a um “assinalável progresso” na “qualidade da informação” desde o alcance da paz, em 2002, com mais órgãos de comunicação social e um “debate mais plural”.

“Mas estamos conscientes de que ainda há muito por fazer e que estamos longe de atingir o ideal nessa matéria. Neste mandato, vamos assegurar um maior investimento público no sector da comunicação social, de modo que os angolanos tenham acesso a uma informação fidedigna em todo o território nacional”, apontou João Lourenço, no seu discurso de 26 de Setembro.

“Apelo, pois, aos servidores públicos para que mantenham uma maior abertura e aprendam a conviver com a crítica e com a diferença de opinião, favorecendo o debate de ideias, com o fim último da salvaguarda dos interesses da Nação e dos cidadãos”, disse na mesma ocasião, que marcou a transição no poder, após 38 anos de liderança de José Eduardo dos Santos.

Infelizmente, nas suas deslocações e actos públicos tem imperado a continuidade do princípio da exclusão, na vertente de: “apenas os camaradas na cobertura no nosso reino”.

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