Os hospitais angolanos continuam carentes dos meios mais básicos para tratar os doentes que correm para essas instituições com intuito de salvarem a vida. Muitos são os que entram e de lá não saem vivos por não terem dinheiro para comprar luvas comercializadas às portas e, por isso, não são sequer atendidos para se aferir o que têm.

Por Sedrick de Carvalho

O que contaremos é a história duma cidadã cuja família conseguiu pagar para usufruir de um “tratamento diferente” num hospital público mas que, ainda assim, foi humilhada. Maria, nome fictício criado devido ao pedido de anonimato feito pela família, de 38 anos de idade, foi levada pelos familiares ao hospital Josina Machel no dia 13 do mês em curso. Chegou ali depois de sair do coma. A causa: derrame cerebral. Os médicos apressaram-se em dizer aos familiares que não tinham esperanças de que a mesma sobreviveria. Esta certeza médica foi-se alterando à medida que o dinheiro começou a aparecer nos corredores do hospital.

Tudo começou no hospital do Zango 2, município de Viana, “reinaugurado no âmbito das eleições”, para onde Maria foi levada para ali ter o parto. E deu à luz a um menino saudável. Mas ela começou a apresentar “uma subida anormal” da tensão arterial. A equipa médica de serviço anunciou à família que Maria seria transferida para outro hospital no mesmo município, desta vez no Kapalanca.

“Entregaram-nos a irmã sem ambulância com o bebé acabado de nascer e sem cartão. Atiraram a responsabilidade para o hospital do Kapalanga”, contaram.

A guia de transferência foi entregue aos familiares e foi-lhes dito sem rodeios que “o hospital não tinha condições de transferir pacientes”, isto é, não existia ambulância. O relógio assinalava 21 horas, e só a resiliência típica angolana explica o facto de a família ter conseguido alugar um carro para efectuar a operação naquele momento. Pelo aluguer pagaram três mil Kwanzas.

Em estado mais crítico, Maria chegou ao hospital do Kapalanca em convulsão e os familiares mais assustados ainda. Começaram a formar-se lágrimas nos olhos de alguns parentes quando “funcionários de lá também disseram sem cerimónias que não podiam fazer nada”.

Com outra transferência em mão, agora assinada pelo hospital do Kapalanca, os familiares tinham de ir à maternidade Lucrécia Paim, no município de Luanda, Rangel, mais de 30 quilómetros de distância da localidade com o nome do hospital onde estavam. O motorista da viatura que para ali os levara já tinha cumprido o objectivo do aluguer e, portanto, “foi à sua vida”.

Os funcionários do Kapalanca disseram que “tinham uma ambulância quase disponível”. O “quase disponível” foi a introdução para dizer que a ambulância não tinha combustível. A irmã de Maria prontamente exibiu dois mil Kwanzas para abastecer o tanque do veículo estatal, dinheiro que entregou ao motorista que, entretanto, simplesmente colocou o carro em funcionamento tão logo “enfiou a massa no bolso”. Ao longo do trajecto nem pararam em algum ponto de abastecimento.

“Pediram dinheiro para abastecer a ambulância sem sequer prestarem alguma assistência à minha irmã que nesse instante precisava de cuidados e estava já sem ar e tinha a tensão muito alta”, lamentou o irmão.

Das convulsões, Maria passou ao coma, e foi assim que chegou à maternidade central de Luanda, hospital que regista 110 mortes por cada mil partos realizados, segundo Corado Silva, chefe do serviço da neonatologia da maternidade em declarações à imprensa, em Março deste ano. Ultrapassadas as “burocracias incompreensíveis para quem chega naquele estado”, Maria “foi bem atendida porque os médicos fizeram tudo para a reabilitar”.

Três dias depois saiu do coma “mas com uma hemorragia cerebral por ter ficado a debater-se por demasiado tempo e acabou sofrendo logo no pior lado que se pode esperar: o lado esquerdo”. Importa realçar que neste hospital não foram cobrados quaisquer valores pelo tratamento, ao contrário doutras denúncias feitas.

Maria balbuciou as primeiras palavras pós-coma por volta das 12H do dia 16, para alegria dos familiares. Entretanto, poucos minutos depois, para espanto dos familiares, recebeu outra guia de transferência “para que pudesse dar continuidade ao serviço de medicina de especialidade”. O hospital Josina Machel era o novo destino.

Desta vez não foi preciso “abastecer” a ambulância.

Chegados ali, aproximadamente às 14H, ficaram no banco de urgências, onde não havia bancos disponíveis para se sentarem, “a aguardar pela recepção de um doutor que fizesse consultas e análises”. O ambiente naquele hospital “é fedorento e extremamente cheio”. Às 18H, cansados e com medo de que a situação de Maria piorasse, um dos irmãos “conversou” com um dos enfermeiros que “andam por lá de um lado ao outro com batas azuis”. O termo “conversou” é a maneira de dizer que pagou para serem atendidos. Em menos de uma hora já tinham os resultados dos exames.

A descarada insensibilidade dos médicos e enfermeiros daquele hospital, segundo os familiares, é gritante ao ponto de “abandalharem as enfermeiras que acompanharam a ambulância e por isso tiveram dificuldades em entregar a paciente nesse hospital infernal”. A única sala de análises clínicas é pequena para atender mais de 100 pessoas que ficam à porta, apertadas e sentadas ao chão, sem alimentação, nem água, aguardando pelo chamado, se acontecer. Não tinham dinheiro para pagar a “um daqueles bons moços das batas azuis” para serem especialmente atendidos.

O mesmo irmão que pagou ainda pensou em manifestar no local o seu descontentamento quanto ao amontoado de doentes sem assistência por não ter dinheiro para pagar ou parente médico, mas desistiu da ideia quando a família lhe fez recordar que estavam ali pela irmã que, caso protestasse, certamente seria ela a sofrer represálias.

“Aquilo aí é uma autêntica máfia onde enfermeiros, maqueiros, doutores e mesmo seguranças falam todos a mesma língua”, afirmou.

O pagamento ao enfermeiro serviu para ser atendida, mas não para ter uma cama num quarto do hospital. Desta vez quem teve de ser pago foi um funcionário encarregue das macas, que “arranjou uma vaga num quarto comum que seria para os convalescentes”, cujos companheiros, outros que pagaram pelo quarto, variam dentre “os já quase bons e os em estado terminal”. Maria estava entre os primeiros.

Ao todo, 15 mil Kwanzas foram pagos ao enfermeiro e o maqueiro, uma quantia que o irmão já não sabe detalhar quem cobrou mais no esquema.

Enquanto ali esteve, Maria lembra-se duma senhora que “deveria estar nos cuidados intensivos” morrer à sua frente. A foto mostra a cidadã que, afinal, estava já morta quando foi feita essa fotografia no momento em que Maria almoçava. O irmão, que fez a fotografia e sem perceber “apanhou” a senhora, ainda falou com os enfermeiros pois “desconfiava que ela estava quieta demais”. Em resposta, foi-lhe dito que não havia nada a fazer e que era mesmo assim, acrescentando que “uns saem e outros não”. A confirmação da morte foi atestada minutos depois por outra enfermeira. Encerraram as visitas e os familiares saíram de lá duplamente horrorizados: com o coração apertado por assistirem aos “últimos suspiros da senhora” e por deixarem a irmã naquele “campo de extermínio”.

Nesse dia perceberam que afinal não tinham o dinheiro suficiente para pagar por um atendimento melhor, talvez numa clínica ou até mesmo para que a irmã fosse levada para um dos “quartos vip de cima com ar-condicionado”.

No dia seguinte Maria recebeu alta médica, e continua o tratamento em casa, onde se encontra actualmente em recuperação. A família conta que se ali ficasse então o pior poderia acontecer.

O hospital Josina Machel, anteriormente Maria Pia, está situado a escassos metros do Ministério da Saúde e dos três órgãos de soberania do país: Presidência da República, Assembleia Nacional e Tribunais.

Nos hospitais não existem medicamentos e instrumentos básicos como luvas e seringas, mas no ano passado assistiu-se a campanhas de doações destes produtos protagonizadas por indivíduos ligados ao governo. A questão que se levanta é como estas personalidades, entre elas as irmãs Isabel e Welwitchia dos Santos, e Bento Kangamba dos Santos, cunhado das filha de José Eduardo dos Santos, têm medicamentos para doar quando o governo não tem para abastecer as instituições hospitalares sobre sua responsabilidade.

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