Parar um ciclo que existe há décadas é extremamente difícil. Desgastante mesmo. Quando eles são ciclos negativos, pior ainda. Interromper um ciclo positivo é mais fácil na medida em que há tendência para encararmos o positivo como imutável e, logo, imparável.

Por Sedrick de Carvalho

Nessa percepção da irreversibilidade do ciclo positivo é onde reside o vício do mesmo, pois a estabilidade leva os seus beneficiários a despreocuparem-se, baixando as defesas, e quem tem intenções contrárias avança nesse vácuo deixado pela estabilidade. Quanto ao ciclo negativo, a dificuldade é maior porque os que o defendem fazem-no sem qualquer entrave ético ou legal.

Acreditar que é possível quebrar uma longa sequência de ciclo decadente com quem sempre participou desse ciclo é duma ambiguidade ofensiva. Entretanto, para além dos que não sabem fazer outra coisa senão esperar pela salvação externa, divina ou humana, é também uma altura para se perceber o quanto muitos que pretensamente tentavam quebrar o ciclo negativo afinal, bem visto, são parte do mesmo e o que defendem, na realidade, é a manutenção do ciclo que os beneficia apenas. Para estas pessoas, um ciclo negativo é um ciclo positivo desde que os seus interesses estejam acautelados.

A história contemporânea nos mostra vários casos de ciclos negativos quebrados. A maioria destes ciclos terminaram com guerras, quer promovidas por movimentos locais, como os casos das lutas pelas independências, claro que com apoios internacionais, e quer por forças militares externas, como o caso da Alemanha Nazi.

Os ciclos negativos longínquos nas governações em África são comuns. Mas há exemplos recentes de interrupção desses ciclos por meios pacíficos no continente, dos quais podemos apontar o caso de Madagáscar.

Claramente este modelo de cessação de ciclos negativos, até pouco tempo tido como utópico, é o ideal quando se tem em vista a implementação dum ciclo positivo a curto ou médio prazo. A via violenta origina uma onda de violência que custa colocar fim e suscita comparações entre o ciclo anterior e o novo, e assim percebe-se que o ciclo novo, afinal, não é novo mas, sim, uma continuidade do período negativo. Como exemplo podemos apontar a situação na Líbia.

Porém, na esteira do que se passa na Líbia, é preciso realçar que os defensores do “status quo” negativo têm feito tudo para a continuidade da delapidação do país a seu bel-prazer, e para tal não lhes importa instalar uma guerra civil que será o móbil para eliminar fisicamente todos os que consideram serem instigadores da desobediência civil.

O novo governo angolano tem construído uma imagem fictícia segundo a qual é o princípio do fim do ciclo negativo que dura há já quatro décadas. O presidente João Lourenço tem baralhado as cartas governamentais e assim tem baralhado também os espectadores legitimamente ávidos por melhorias, começando pelo pleno gozo dos mais básicos direitos.

Um ciclo governativo, positivo ou negativo, é constituído por vários elementos, e todos com papéis preciosos. Os que compõem esses ciclos são, obviamente, construtores do mesmo, pelo que os benefícios e consequências da sua participação a eles devem ser creditados.

Nessa linha, o actual presidente é parte da construção do ciclo negativo angolano. Partícipe ao nível central. Com discursos aplaudidos, João tem granjeado adeptos em várias esferas da sociedade, inclusive entre membros de partidos na oposição. O seu antecessor também foi efusivamente elogiado quando chegou ao poder, importa recordar, apesar do país, na altura, apenas se encontrar há quatro anos independente, quando habilmente principiou por libertar os presos políticos na sequência da alegada tentativa de golpe de Estado em 27 de Maio de 1977.

Desde comissário e governador provincial, de secretário-geral do MPLA a vice-presidente da Assembleia Nacional, e ainda ministro e vice-presidente do seu partido, João Lourenço está umbilicalmente ligado ao ciclo que ironicamente afirma querer combater. Se as declarações de intenções fossem reais, então estaríamos perante um “presidente-suicida”, como Sérgio Piçarra ilustrou num dos seus brilhantes cartoons ao longo da simulada campanha eleitoral.

No âmbito da transparência e para “início do suicídio”, João teria de explicar detalhadamente a origem do dinheiro com que fez-se proprietário do banco SOL e como obteve empresas agro-pecuárias, estas apontadas como estando entre as maiores do país.

Visto que recentemente foi nomeado um novo governador para o banco central, nessa perspectiva, sendo João dono de banco, que garantias há de que a sua instituição financeira não terá privilégios presidenciais na relação com o BNA?

Moçambique e Rússia são os exemplos que a ditadura angolana decidiu adoptar. Continuidade do ciclo com novo rosto. É uma questão de manutenção do “status quo”. E é assim que assistimos ao reenquadramento de indivíduos descaradamente gatunos e corruptos, aduladores e incompetentes, irresponsáveis e prepotentes, e isto sem quaisquer prestação de contas sobre a gestão que levaram a cabo nos departamentos que ocuparam até recentemente.

Cercar-se dos mesmos é inevitável, sendo parte do seu clube partidário. Assim, esperar um ciclo positivo com as mesmas figuras do ciclo negativo, para além de contraditório, é pura utopia. Como dissemos noutra ocasião, um ciclo positivo para Angola não surgirá pela via da sucessão consanguínea ou intrapartidária.

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