No dia 13 de Outubro de 2017, sexta-feira, pelas 18h00, será apresentado na Casa de Angola (Travessa da Fábrica das Sedas,7), em Lisboa, o livro “Caminho Longo – Desenvolvimento Integrado”, de Jaime de Sousa Araújo, editado pela Perfil Criativo – Edições.

“N os escarpados relevos geográficos da vasta província de Malanje, detentora de 97 mil quilómetros quadrados, ficam os Reinos da Matamba, com sede no Uhamba, e do Ndongo no Pungo (Kapanda), sob a suserania da Rainha Nzinga Bande e do Ngola Kiluanje-Kiá-Samba. Em linha imaginária, as residências das sedes distam uma da outra 350Kms enquanto, relativamente a Luanda, a distância é de, respectivamente, 700Kms e 300Kms.

Ocorre referir que o local do Uhamba que em 1944 tive a honra de visitar, deve estar despovoado, coberto de opróbio e denso capim.

É lá que jazem os restos mortais da Rainha arguta, inteligente e intrépida, como ficou provado na visita que fez ao Governador Geral de Angola, como enviada especial do irmão, Rei apenas do Ndongo. Afinal, a raiz genética dos “kamumdongos” de Luanda deve estar bem distante de Matamba, onde se inserem as localidades de Tembo-Aluma, Marimba, Chiquita, Ndala Vunje, Ndala Samba, Kiuaba Nzoji (Brito Godins), Mbanje-ia-Ngola, Kahombo, Sujinje, Kunda-dia-Baze, Milando, Kela e outras aldeias mais próximas da cidade de Malanje.

Ao tempo, faltara força mágica para o sofrimento dos que conviveram na ilusão de ajudar a debelar os flagelos trazidos pelo paludismo ou malária, sífilis, bilharziose, hipnose, verminose infantil e um bloco complexo de doenças femininas, por carência de recursos medicamentosos e assistência médica que nunca vi em Madimba! Marcado pela dureza da vida profissional, impunha-se mudança de posição para uma linha menos penosa, mesmo no exercício profissional onde me formava espiritualmente e passava a servir o próximo, pese embora a pesporrência dos médicos habituados a tratar por “tu” sobranceiro os enfermeiros de pele escura. Teria de escolher outro destino, demitindo-me da actual função, fora dos problemas sem assistência médica, perante taxas alarmantes de mortalidade. Passei um período penoso, gratificado apenas pela maturidade da juventude no convívio com padecentes ou grupos sociais amordaçados pela chibata administrativa.

Abordei outra ocorrência difícil, noticiada no jornal de Luanda “Cruzeiro do Sul” onde o proprietário Lino Maria de Sousa Araújo, no termo do mandato governamental do Almirante Baptista de Andrade, em 1889, denunciava o desaparecimento, no salão nobre do Palácio, de um certo número de salvas de prata.

A notícia tomaria a velocidade de bomba-relógio e seus efeitos provocaram um despacho punitivo ao autor do escrito que, cumulativamente, exercia o cargo de Verificador das Alfândegas de Angola.

Com efeito, o autor da surpresa foi logo mandado para Lisboa, suspenso do exercício de funções oficiais, jazendo por lá cerca de três anos até decisão favorável.

Valeram a Lino Maria as melhores relações de topo para regresso à procedência, reintegrado no cargo de tesoureiro-geral da Fazenda. Decorridos mais de sessenta anos, outro prestigiado angolano Alberto Jorge Ferreira de Lemos, director dos Serviços de Finanças e Contabilidade, analista político e cronista dos melhores periódicos, teve a desdita de ser expulso da terra natal por proferir, na Associação Cultural sita na calçada de Luanda, uma palestra alusiva à libertação das colónias de África.

Os episódios aqui deixados a juízo do prezado leitor simbolizam o sacrifício dos angolanos na restauração das liberdades coarctadas pelo poder dominante, testemunho do trato colonial com incidência racista em tudo que houvesse lucro ou privilégio, como se seguirá.

Preterindo a barbaridade da “COTONANG” – Empresa mista no controlo da produção de algodão em toda a área da província de Malanje com o beneplácito do Governo Colonial, ao trabalhador engajado coactivamente pouco tempo lhe sobrava para a agricultura de subsistência, nem sempre consentânea com o mesmo espaço, dadas as características de outro tipo de produção, recurso vital à satisfação das carências decorrentes da colheita do algodão durante quase meio ano, sem alteração da capacidade da lavra, dependente de fenómenos pluviais para sustento da família.

A poderosa “COTONANG” de Malanje dominava o Reino de Matamba (Uhamba, antiga capital), desde as areias de Tembo Aluma às escarpas de Tala Mungongo, obrigando os “jingas”, “holos” e “jagas” à entrega do algodão da colheita ao preço previamente fixado, com a plena anuência da autoridade administrativa no controlo ao pagamento do “imposto indígena”, da coleta obrigatória do regedor de sanzala, se quisesse sossego na aldeia.

Outro modelo de escravatura decorria nas roças e fazendas dos poderosos empresários agrícolas das “Companhias de Açúcar do Dande, Cassequel e Dombe Grande de Benguela”, as propriedades da “CADA”, Companhia Agrícola do Amboim, e dos latifundiários portugueses Mário Cunha, Marques Seixas e Cardoso de Matos, além das grandes roças de café e palmar nas províncias do Uíje,Congo, Kuanza Norte e Kuanza Sul, de outros colonos, num processo de angariação de trabalhadores, aliás, de outros pecaminosos actos atentatórios dos direitos universais do homem!

Recorda-se os crimes contra a dignidade dos trabalhadores, aliciados a pretensos benefícios que sempre rendundaram em malogro e prejuízos para famílias do contratado, alegadamente, por um ano.

As estatísticas colocavam Angola no 4° maior produtor de café, apenas superado pelo Brasil, Côte d’Ivoire e Venezuela. Cabia-lhe o 4° lugar na produção de óleo de palma, com baixo nível de produção do açúcar que tanto sacrifício exigia do trabalhador na plantação da cana no Dande, Dombe Grande e Cassequel.

É deveras chocante o modus operandi dos trabalhadores do sul para centenas de empresas de média e grande porte do norte, centro e sul de Angola, a par dos recrutamentos para os Caminhos de Ferro de Moçâmedes – Jamba, Benguela e Luanda – Malanje.

No balanço específico do fenómeno de deslocação da massa laboral do sul, sobra o milagre oportuno da Independência, pois libertou os escravos do contrato a que tinham sido compelidos, aumentando a crise de produções agrícolas de latifúndios abandonados, e fazendo cair em derrocada as empresas beneficiadas, sobretudo, pelas vítimas do Sul.

Conforta-nos saber da falta de outro processo de produção de café que no ano em curso rondava 30 mil toneladas, sem mão-de-obra barata, pois a Independência não a propiciava.

Porém, se os governos, hoje, quiserem aumentar os níveis de produção, terão outros modelos, acima de mil metros de altitude, os quais dispensam tanta força braçal e sacrifício desumano.

Tudo quanto se vem dizendo é produto de vivência e profunda revolta de consciência, a adesão à luta de libertação.”

Jaime de Sousa Araújo nasceu a 14 de Outubro de 1920 em Angola. Frequentou o liceu Salvador Correia e diplomou-se em enfermagem no Hospital Dona Maria Pia, em Luanda. Licenciou-se em jornalismo pelo Instituto de Angola e frequentou a Universidade Clássica de Lisboa e a Universidade de Coimbra.

Funcionário público e empresário, participou em inúmeras intervenções públicas nacionais e internacionais. Assim, foi Membro da Comissão para a transladação dos restos mortais do Monsenhor Manuel Joaquim Mendes das Neves de Braga para o cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda. Esteve também presente, sob a égide do Presidente Nzé Jomo Kenihata, nas conferências políticas da FNLA, MPLA e UNITA decorridas na República do Quénia. Foi também convidado pelo KIPAEA – Movimento para o Desarmamento Multilateral – a dar uma palestra em Atenas.

Esteve na origem de vários movimentos e organizações, tal como a FULA – Frente Unida de Libertação de Angola, a Liga das Comunidades Lusófonas, a FACEL – Federação das Associações Cívicas do Espaço Lusófono e a Liga Africana (antiga Liga Nacional Africana).

Foi redactor de diversas publicações, como o jornal Farolim, que editou e administrou em conjunto com Aníbal Melo e Mário de Alcântara. Editou também a revista, Angola, publicada pela Liga Nacional Africana, e foi o autor do opúsculo, Sonho Adiado-União Económica da África Austral, documento que foi enviado a 13 chefes de estado africanos.

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