O Presidente da República, João Lourenço, iniciou hoje uma visita de 24 horas a Cabinda para constatar “in loco” a realidade política e sócio-económica da região. Talvez o Presidente consiga ver, ou sentir, o estado degradante que a cidade capital e arredores apresentam, a miséria social, moral e económica.

Se conseguir visitar a face não cosmética do Hospital Central verá, acreditamos que com amargura, o estado lastimável e até mesmo nojento em que se encontra. Verá que, para além da exiguidade de espaço, não há medicamentos, não há pessoal médico qualificado suficiente, não está minimamente dotado de equipamentos de diagnóstico complementares, não tem as diferentes especialidades, nomeadamente urologia, endocrinologia, cardiologia, nefrologia, neurocirurgia, otologia e outras consideradas importantes-

Os detentores dos poderes político e económico e respectivos familiares, quando estão doentes vão imediatamente para o estrangeiro, com dinheiro público, tratar-se. Só isso justifica que Cabinda, um território rico em recursos minerais, principalmente, o petróleo, não tenha um hospital devidamente equipado e de referência regional.

Precisamos de fazer de Angola um verdadeiro país onde todos sejam iguais, respeitando sempre os anseios das diferentes correntes político-sociais de Cabinda, com quem se deve dialogar, procurando o melhor estatuto administrativo e não pensar-se só na extracção de petróleo, impondo a lei da bala.

Como é do conhecimento de João Lourenço, foi instituído pela Cabinda Gulf Oil Company o Programa “MOVAS OUT”, que em português significa a saída de todos os expatriados do campo petrolífero de Malongo, para todos os expatriados e trabalhadores se fixarem na cidade, para com essa mudança, contribuírem para o desenvolvimento económico da região, gerando mais trabalho…

Sabem o que aconteceu? Os detentores do poder político apressaram-se em construir condomínios na comuna do Malembo, financiados com dinheiro de bancos públicos, face ao facilitado tráfico de influência. Estamos certos, não estamos Presidente João Lourenço?

Assim, sob coacção política, os expatriados foram direccionados para o conhecido condomínio “MBC”, pertencente a altos dirigentes do partido no poder, pagando rendas chorudas e, prejudicando desse modo o desenvolvimento de Cabinda, marimbando-se, enquanto dirigentes do MPLA, para o desemprego em alta, com as consequências nefastas para o equilíbrio de muitas famílias.

Isto torna a região quase como uma colónia de uns poucos, alojados nas poltronas em Luanda.

Nenhum cidadão natural de Cabinda faz parte de uma empresa de petróleos e teve licença de concessão, para exploração do ouro, na região do Maiombe, pois apenas foram concedidas às empresas dos detentores do poder político, dos generais e dos filhos do ex-Presidente da República. Assim irá continuar?

Recorde-se ter o desenvolvimento e crescimento de Cabinda iniciado com a exploração da madeira e só depois impulsionado com a exploração do petróleo, altura em que alguns mais abastados começaram a erigir habitações que foram posteriormente arrendadas aos trabalhadores estrangeiros que operavam no campo petrolífero de Malongo.

Numa reportagem aqui publicada em Dezembro de 2016, falámos dos trabalhadores da Cabinda Gulf Oil Company e denunciámos a transferência, por orientação e ou omissão de Luanda, de todos os serviços administrativos e trabalhadores desta petrolífera para Luanda, com todas as consequências negativas para a região e famílias, dos trabalhadores, alguns dos quais com mais de 50 anos de idade e fortemente implantados nesta região.

Um governo responsável obrigará a Cabinda Gulf Oil Company a construir não só uma clínica médica, como a sua sede principal em edifício condigno, e aí funcionarem todos os serviços administrativos, técnicos e de prospecção. Se o petróleo é explorado aqui, não faz sentido, a direcção e os serviços administrativos estarem a milhares de quilómetros, em Luanda.

Respeitado povo de Cabinda, no cumprimento da Constituição e da Lei, é preciso continuar a reivindicar e a questionar os políticos que tratam esta parcela, como se fosse uma colónia.

E assim sendo, onde está o Porto Comercial de Cabinda, que o MPLA e o ex-Presidente, José Eduardo dos Santos, prometeram construir? Onde estão as centralidades que o executivo prometeu edificar, na região do labe? Onde está o fomento da produção agro-pecuária? Onde está o fomento e apoio das serrações, para o fomento da produção da madeira e seus derivados?

O Porto Comercial foi, aliás, uma forma engenhosa que o então Presidente José Eduardo dos Santos usou para calar a boca de grande parte dos cidadãos de Cabinda, pese isso, a “vox populi” acusa-o de alocar dinheiro para a empresa do filho Zénu dos Santos, a quem entregou o Pólo Industrial do Fútila, antevendo-se que suceda o mesmo com as centralidades, caso venham a ser construídas.

Actualmente, apregoam aos quatro ventos, estar a situação em paz. Mentira! A guerra está aí, em cada buala da Cabinda profunda, onde nos chegam relatos de violações, destruições de lavras, espancamentos arbitrários e assassinatos de inocentes acusados de pertencerem à guerrilha da FLEC.

João Lourenço sabe que não pode comprar o silêncio de um povo durante todo o tempo, oprimindo-o, coarctando-lhe as liberdades mais elementares, quando este apenas clama e, justamente, por melhor governação, oportunidades iguais e uma justa e equitativa distribuição de riqueza.

É lamentável, na província onde se explora o petróleo, não se conhecer qualquer desenvolvimento de realce, no sector produtivo, como forma de compensar os efeitos nefastos da exploração petrolífera, quantas vezes, irresponsável da Cabinda Gulf Oil Campany, causando prejuízos com o derrame de crude, à fauna, flora e à geração futura.

Os mares de Cabinda estão poluídos e a maioria do peixe e outros produtos do mar, estão contaminados e são impróprios para o consumo humano.

As autoridades angolanas sabem disso, mas o peso de um punhado de dólares, corrompe quem deveria punir, exemplarmente, uma companhia que visando apenas o lucro põe em cheque, deliberadamente, a saúde pública.

A sociedade civil do país e os políticos de bem, que não se envergonham de assumir a especificidade de Cabinda deveriam estar determinados, a alterar esta situação, visando transformar a região numa zona de verdadeiro desenvolvimento industrial com produtos acabados, desde madeireiros, minerais, agro-pecuários, etc..

Cabinda não precisa de ter a obsessão de se transformar num segundo Koweit, mas de superar-se e estar ao nível de regiões onde os recursos exploráveis de hoje são a alavanca para o desenvolvimento do amanhã e das gerações vindouras, tornando-se numa província onde as suas gentes e visitantes tenham orgulho de viver, em harmonia e liberdade.

Isto porque, após 42 anos de independência, Cabinda, vergonhosamente, continua a não ter energia eléctrica e água corrente, para não falar de água potável, na maioria das casas nas zonas urbanas e bualas.

A capital de Cabinda, à noite, parece uma cidade fantasma, completamente às escuras, onde as ruas, nomeadamente, a tão conhecida rua Nova, também conhecida por das Forças Armadas, no período colonial, transformou-se em mercado, e antro de bandidagem nocturna.

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