O director adjunto do Centro de Desenvolvimento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) considera que Angola deve aprender com os erros do passado e apostar seriamente na diversificação da economia. Novidade? Nenhuma. A receita é conhecida há muito. Tal como a megalomania patológica do regime.

Em entrevista à Lusa à margem da apresentação da edição portuguesa do relatório “Perspectivas Económicas em África 2017: Empreendedorismo e Industrialização”, que decorreu em Lisboa, Federico Bonaglia disse que Angola falhou nas políticas económicas, que não apostaram na diversificação, e não melhorou significativamente a redução da pobreza (temos 20 milhões de pobres).

“O que esperamos em Angola é que a nova liderança aprenda com esta situação anterior e invista mais na construção das ligações entre o sector extractivo e o resto da economia, e também melhore a capacidade dos cidadãos participarem na governação do país e na melhoria da qualidade das instituições”, disse Bonaglia, defendendo uma tese moribunda à nascença.

A OCDE pensa (ou apenas diz que pensa) que Angola é uma democracia e um Estado de Direito. Isso é tão possível, seja qual for o governo do MPLA, como ver um jacaré a voar.

Ainda sobre Angola, que conheceu um abrandamento económico desde a descida dos preços do petróleo, o director adjunto do Centro de Desenvolvimento da OCDE avisou que “o facto de o crescimento estar concentrado em sectores que não geram emprego significa que mesmo que a economia cresça, não vai ter um ‘efeito-cascata’ até aos cidadãos de forma a reduzir a pobreza”.

Tudo isto tem sido dito por muito boa gente que, por cá, ainda pensa pela própria cabeça. A OCDE não está a descobrir a pólvora, mas está a permitir que o regime continue apenas a preocupar-se com os poucos que têm cada vez mais milhões, esquecendo os milhões que têm cada vez menos.

Em Angola, vincou, “é preciso usar melhor as receitas geradas pelo petróleo nos últimos anos”, até porque “há uma nova liderança e isso pode trazer novas abordagens políticas”.

Ao acreditar (ou fingir que talvez acredite) que a nova liderança de João Lourenço “pode trazer novas abordagens políticas”, Federico Bonaglia escuda-se na sua eventual ingenuidade política para, como outros, nos passar um (mais um) atestado de matumbez abrilhantado pela fanfarra do MPLA.

O problema, concluiu, é que o dinheiro do petróleo não parece chegar às populações: “Se olharmos para o crescimento dos preços do petróleo e compararmos com o crescimento da economia em Angola e a melhoria das condições de vida das populações, vemos que a equação não é muito favorável, porque a taxa de pobreza ainda é muito alta e a incidência do crescimento económico na redução da pobreza tem sido muito desigual”.

O relatório da OCDE, Banco Africano para o Desenvolvimento e Nações Unidas, divulgado em Agosto, prevê que Angola tenha crescido 1,1% e acelere este ano para 2,3% e 3,2% em 2018 “devido ao aumento previsto das despesas públicas e uma melhoria dos termos de troca, resultante da recuperação do preço do petróleo”.

Entre as recomendações do relatório está aumentar “o investimento em capital humano, prosseguir a diversificação e reduzir a vulnerabilidade da sua economia para passar a integrar o grupo dos países de rendimento médio em 2021”.

Na verdade, enquanto as organizações internacionais (OCDE, FMI, UE, ONU etc.) não disserem o mesmo que nós dizemos, usando o seu poder para alterar a situação, nada mudará em Angola.

E o que o Folha 8 diz, entre outros, é simples: é vergonhoso e um golpe fatal à dignidade dos angolanos a contínua (e pelos vistos eterna) dependência de Angola ao regime que a governa desde 1975. Não se justificam a fome, a ignorância e a doença que assolam Angola, pelo que a única solução terá de passar obrigatoriamente por bons líderes, boas instituições e boa governação, sem os quais não haverá Estado de Direito, não haverá desenvolvimento.

E tudo isto se deve a falhas monumentais e criminosas dos líderes angolanos após a independência, bastando para se chegar a essa conclusão não ter medo de assumir que quando nasceu como país, há 42 anos, Angola estava melhor em termos económicos.

Folha 8 com Lusa

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