O que é que NÃO mudará, com a entrega (antecipada) do “Colar de Presidente” a João Lourenço? A corrupção é um fenómeno sócio-cultural universal, bem o sabemos e sentimos. E também sabemos que Angola, ou melhor, que a MPLÂNDIA tem andado sempre nos píncaros de qualquer índice internacional que meça este fenómeno.

Por Tchockwe Tchockwe

A posição na tabela varia pouco, de ano para ano, mas é consensual que o País tem estado sempre no “grupo da frente” dos mais corruptos do Mundo. Este é um dos legados mais visíveis da omnipresente “gestão” danosa do MPLA, à frente dos destinos do nosso arruinado País.

Mas, então, o que vem a ser isto da “corrupção”? Ora, diz quem sabe, que a corrupção inclui crimes contra o Estado e a economia popular, tais como o tráfico de influências, o nepotismo, a apropriação ilícita de bens públicos, o clientelismo, o suborno, o estelionato de coisa pública, etc., etc., etc..

Diz o Povo, na sua aparente simplicidade, que “o cabrito come onde está amarrado”. Pois é, e vem agora João Lourenço, do alto dos seus 43 anos de comprometida militância no seu “Partido do Coração”, dizer que “o combate à corrupção é um desafio grande (…) que, embora difícil, não é impossível (…) e que quem vai conseguir vencê-lo não é o cidadão João Lourenço, o militante João Lourenço (…) quem vai conseguir vencê-lo é o próprio MPLA, que é uma verdadeira máquina”.

Ora, é aqui que reside o grande problema: J Lo dá-nos a entender, como se fossemos todos matumbos, que o MPLA saído de mais uma “esmagadora vitória (pseudo-)eleitoral” poderia gerar uma força interna capaz de se opor, com sucesso, à deriva criminosa que o próprio, através das suas “elites dirigentes”, tem intentado contra o embrionário Estado angolano, desde há décadas-

Bem, das duas… uma: ou João Lourenço ainda não aprendeu a conhecer as dinâmicas permitidas, e mesmo incentivadas, dentro do seu “Partido do Coração” ou, o que é pior, finge-se de ingénuo para capitalizar sobre a anestesiada população eleitora, politicamente apática, e tolerante à mensagem “daqueles que já conhecem” (os “camaradas”, claro está!).

João Lourenço apresenta ao Povo um curriculum totalmente comprometido com o “Partido sem Mácula”: nasceu politicamente no partido, cresceu com a sua ideologia marxista-leninista, actualizou-se quando a moda passou a ser o neo-liberalismo, tornou-se general-empresário, aceitou com um sorriso as “benesses e honrarias” que o MPLA lhe quis oferecer e sente-se umbilicalmente agradecido ao Partido “por tudo”, tal como um bom filho em relação ao pai!

Serviu sempre o MPLA com desvelo e orgulho, sendo um dos seus históricos mais fiéis. Por isso, também, a escolha do regime para suceder a JES. Sim, dizemos bem: a escolha do REGIME que, naturalmente, tem fundadas esperanças na gratidão e protecção do seu novo “filho pródigo”.

Em resultado do que acima se disse, é forçoso perguntar: Como é que este personagem, por melhores que fossem as suas intenções, poderia comandar uma ruptura com um passado-presente de corrupção endémica, amiguismo, sobre-facturação de obras públicas, falência fraudulenta de Bancos e outras instituições participadas pelo Estado, iniquidade nas nomeações para o funcionalismo público, privatização de lucros e estatização de prejuízos, associação criminosa e tantos outros vícios? Onde é que iria buscar a força política para o fazer? Quem, de dentro do “Partido de Deus”, quereria ombrear com J Lo nesta cruzada sem tréguas? Meus senhores, a ingenuidade e a alienação mental têm limites!

J Lo não é um civil, e já lá vão quase 15 anos desde o calar das armas. Está visto que, para credibilizar e (bem) governar o nosso KIMBO, nada como “O Partido” nomear alguém que vista uma farda. Este facto, com certeza, foi bem ponderado e não é inocente…

General, com especialização em artilharia pesada, João Lourenço é também formado em Ciências Históricas por uma universidade da antiga União Soviética. Salvo melhor entendimento, J Lo (criativamente apelidado de João “Malandro”) não parece ser o homem de rupturas de que Angola precisa “como do pão para a boca”, optando antes pelos continuismos, acomodamentos e lealdades.

A vantagem de renovação e abertura política que teria se fosse um civil oriundo da intelectualidade angolana, ou alguém “com provas dadas” e forjado fora da escola partidária, esfuma-se na sua condição de militar de alta patente (general de 3 estrelas), num cenário de conhecido despotismo castrense, tolerado pela sociedade civil, como só acontece nas mais retrógradas ditaduras militares da América Latina, sudeste asiático e “mãe-África”.

Empresário, como é da praxe na classe dos oficiais generais em Angola, será possível imaginá-lo a correr o risco de afrontar os tentaculares interesses instalados, há já dezenas de anos, tentando introduzir legislação de que o País carece para, por exemplo, impedir os famosos “conflitos de interesses”, que se multiplicam à velocidade da luz, sem qualquer consequência para os envolvidos? Não nos parece que tal cenário, verdadeiramente, pudesse vir a estar sobre a mesa, independentemente das boas intenções do candidato do Sistema. Como se diz, acertadamente, em linguagem corrente: “de boas intenções está o inferno cheio!”

Angola encontra-se numa encruzilhada histórica: ou segue pela via já conhecida, e conforma-se com a destruição do País às mãos de uma associação, digamos, pouco cumpridora dos deveres cristãos, ou encara a possibilidade de MUDANÇA, dando o benefício da dúvida “aos angolanos que pensam diferente”.
Errar é humano, mas persistir no erro é, porventura, sintoma de insanidade ou masoquismo. Esperemos que o eleitorado não tenha memória curta, e que não seja necessário o “dia de reflexão”, na véspera de 23 de Agosto, para que se aclare o sentido de voto de cada um. Afinal, o que está em causa é o presente e, principalmente, o FUTURO de todos nós e das gerações vindouras.

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