O Governo angolano criou uma comissão técnica para avaliar a situação envolvendo as três fábricas têxteis reconstruidas com financiamento estatal de mais de 1.000 milhões de euros e exploradas por privados, cujas concessões foram revogadas.

De acordo com três despachos de Setembro assinados pela ministra da Indústria, Bernarda Martins, em causa está a “incompetência absoluta do Instituto de Desenvolvimento Industrial de Angola (IDIA)” para atribuir os direitos de superfície às empresas privadas.

Foi assim revogado o acto administrativo de adjudicação e o de celebração dos contratos que atribuem o complexo Satec, na província do Cuanza Norte, à Mahinajethu SA, da África Têxtil, em Benguela, à Alassola SA, e do complexo da Textang II, em Luanda, à Nova Textang II SA, três unidades em que o Estado angolano investiu 1.200 milhões de dólares (1.010 milhões de euros) na sua reabilitação.

“Não tenho muitos comentários a fazer sobre isso, apenas dizer que se trata de um acto administrativo interno [do ministério] que pode ser corrigido a qualquer momento. Nós somos uma empresa privada, estamos a trabalhar e somos parceiros económicos do Governo”, afirmou hoje à Lusa o presidente do Conselho de Administração da Alassola SA, Tambwe Mukaz.

A Alassola recebeu a concessão dos direitos de superfície (167.500 metros quadrados) daquela fábrica a 2 de Setembro de 2013, mas o processo é revertido, em termos administrativos, por despacho do Ministério da Indústria, o mesmo acontecendo com as duas restantes fábricas, com a mesma argumentação.

Em concreto, esta fábrica, com 170 trabalhadores e a perspectiva de chegar aos 1.200 no próximo ano, estreou-se na sexta-feira no fornecimento ao mercado português, com uma encomenda de 156 toneladas de fio que deve repetir-se dentro de quatro semanas, sendo esta a primeira exportação do género em Angola.

“Acredito num desfecho positivo deste caso”, adiantou ainda Tambwe Mukaz.

A Alassola está instalada no município de Benguela e resultou da reabilitação da antiga África Têxtil, inaugurada em 1979 e que paralisou a actividade em 1998. Seguiu-se um processo de reabilitação, ampliação e modernização da unidade, que se prolongou por cinco anos com um investimento estatal de 450 milhões de dólares (380 milhões de euros). A fábrica, tal como as restantes, continua a laborar.

Já no final de Setembro, por despacho conjunto dos ministros da Economia, Indústria e Finanças, foi nomeada uma comissão técnica que terá a competência de preparar um relatório “com uma posição unânime e objectiva sobre as indústrias têxteis”, sob coordenação de Vicente Leitão, presidente do Conselho de Administração da sociedade pública Recredit.

“Para a conclusão, de forma global e completa, do processo de diagnóstico e demais situações inerentes às três fábricas têxteis financiadas pelo Estado, de modo a assegurar o seu imediato aproveitamento produtivo no quadro das decisões tomadas pelo Governo”, lê-se no mesmo despacho conjunto, de 29 de Setembro.

Esta comissão integra ainda a presidente do Conselho de Administração do Instituto para o Sector Empresarial Público, Henda Inglês, e o director-geral do IDIA, Dário Camati.

Uma falsa partida?

Uma fábrica angolana de produtos têxteis estreou-se no fornecimento ao mercado português, com um encomenda de 156 toneladas de fio. A informação foi prestada pelo presidente do Conselho de Administração da Alassola, Tambwe Mukaz, dando conta que o início das exportações, para fornecer “grandes marcas” que operam em Portugal, resultou de um período de avaliação da qualidade daquele produto.

“A qualidade foi testada e está aceite na União Europeia, e já temos outra encomenda de fios, semelhante, um produto intermédio. Daqui a três meses está já previsto o envio de tecido, porque vamos subindo no produto, porque já temos esse acordo com o parceiro em Portugal”, explicou Tambwe Mukaz.

Face à entrada no mercado das exportações, Tambwe Mukaz prevê o alargamento para o funcionamento em três turnos, até ao próximo ano, chegando a fábrica aos 1.200 trabalhadores.

Esta primeira encomenda que partiu do porto do Lobito com 15 contentores de fio, deverá render à volta de 500 mil euros, de acordo com números da administração.

Folha 8 com Lusa

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