O Presidente angolano, João Lourenço, exonerou hoje o Conselho de Administração da Empresa de Comercialização de Diamantes (Sodiam), a terceira decisão do género, em empresas públicas, em dois dias.

A Sodiam, cujo Conselho de Administração era presidido, até hoje, por Beatriz Jacinto de Sousa, é uma empresa estatal criada em Dezembro de 1999 com o exclusivo da venda dos diamantes produzidos em Angola.

Na informação distribuída hoje à imprensa, a Casa Civil do Presidente da República refere que foram exonerados ainda Filipe Sérgio Gomes Adolfo e José das Neves Gonçalves Silva, que eram administradores executivos da Sodiam.

Em substituição, João Lourenço nomeou Eugénio Pereira Bravo da Rosa para Presidente do Conselho de Administração daquela empresa diamantífera estatal e Fernando Teixeira da Fonseca Amaral para administrador, o mesmo cargo agora atribuído a José das Neves Gonçalves Silva (que já integrava o Conselho de Administração anterior).

Estas exonerações juntam-se às decididas pelo chefe de Estado na quarta-feira – sendo que 2 de Novembro foi feriado em Angola -, tendo então exonerado Carlos Sumbula do cargo de Presidente do Conselho de Administração da Empresa Nacional de Diamantes de Angola (Endiama), a segunda maior empresa nacional, naquelas funções desde 2009.

Para aquela empresa pública foi nomeado – e empossado hoje pelo chefe de Estado – o economista José Manuel Ganga Júnior, que até 2015 foi director-geral da Sociedade Mineira de Catoca, responsável por 75% da produção diamantífera anual angolana.

Além de José Manuel Ganga Júnior, foram nomeados por decreto presidencial, para a concessionária estatal para o sector dos diamantes em Angola, que representa vendas anuais de mais de mil milhões de euros, Laureano Receado Paulo, Ana Maria Feijó Bartolomeu, Osvaldo Jorge Campos Van-Dúnem e Joaquim Filipe Luís, para os cargos de administradores executivos.

No dia 1 de Novembro, João Lourenço, que tomou posse como terceiro Presidente de Angola a 26 de Setembro último, mudou a administração da Empresa de Ferro de Angola (Ferrangol), concessionária estatal do sector mineiro do país.

Diamantino Pedro Azevedo foi exonerado do cargo de presidente do conselho de administração da Ferrangol (assumiu a pasta de ministro dos Recursos Mineiras e Petróleos), com João Lourenço a nomear para o seu lugar João Diniz dos Santos.

Ainda para aquela empresa pública foram nomeados, como administradores, Romeu Artur Ribeiro, Djanira Alexandra Monteiro dos Santos, Kayaya Kahala e Henriques Kiaku Simão.

Das grandes empresas públicas, apenas a Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol), concessionária estatal do sector petrolífero, liderada desde Junho de 2016 pela empresária Isabel dos Santos, filha do anterior chefe de Estado e ainda presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos, não teve até agora qualquer mudança no Conselho de Administração feita por João Lourenço.

Sodiam e Isabel dos Santos

A De Grisogono, a joalharia de luxo suíça detida por Isabel dos Santos e pelo marido (Sindika Dokolo), foi Fundada em 1993 e tem clientes como Sharon Stone ou Kim Kardashian. A compra da joalharia foi feita em 2012 através da empresa “Victoria Holding Limited”, uma parceria entre a Sodiam e uma empresa privada, “Melbourne Investments”, que tem Sindika Dokolo como o único proprietário.

Segundo a revista Forbes, “não é claro que Dokolo tenha feito algum investimento financeiro na Melbourne Investments ou se a Melbourne contribuiu com dinheiro para a compra”.

A Sodiam, enquanto empresa estatal (a sua equipa de gestão, o presidente e director-executivo foram todos nomeados pelo ex-presidente José Eduardo dos Santos), é obrigada a declarar publicamente todos os seus negócios no país e no estrangeiro, mas a parceria com Dokolo foi um segredo, escreveu a Forbes em 2014, dois anos depois da compra.

No ano passado, a De Grisogono comprou o diamante bruto mais caro do mundo, o Constellation, de 813 quilates, por 63.1 milhões de dólares. Também em 2016, comprou um diamante de 404 quilates e sete centímetros de comprimento, o maior alguma vez encontrado em Angola, por uma quantia não divulgada. No mês em que foi encontrada esta pedra, outros sete diamantes de grandes dimensões foram descobertos numa mina na província da Lunda Norte, uma zona muito pobre onde não existe electricidade ou ligações telefónicas em grande parte do território.

Na campanha presidencial de 2012, no entanto, segundo o que foi divulgados publicamente, também pelo Folha 8, o então presidente José Eduardo dos Santos queixou-se de que as receitas da extracção de diamantes na região não chegavam “sequer para pagar as estradas”.

A nova loja da De Grisogono vem no seguimento de uma parceria da joalharia com a DLK, que passa a gerir a empresa nos EUA. “Decidimos fazer parceria com a DLK com o objectivo de perseguir o nosso objectivo de crescimento global e enfatizar o nosso envolvimento em alta joalharia e pedras preciosas”, disse a companhia.

A De Grisogono até há bem pouco tempo era uma pequena empresa onde trabalhavam 150 pessoas, em Plan-les-Ouates, perto de Genebra, na Suíça.

Com boutique na Madison Avenue, em Nova Iorque, mas empresa de importância mediana no ramo da joalharia e relógios de luxo, de repente, eis que ficamos a saber que essa “cambuta” ambiciona ser líder mundial desse sector.

A razão foi (é) uma pedra, grande, um diamante que aterrou na sua mesa como que caída do céu ou por encanto, dando origem a uma mega festança que reuniu 700 VIP’s, modelos de “passerelle” e actrizes, organizada em Maio de 2016 por ocasião do Festival de Cinema de Cannes no Eden Roc e com ampla mediatização na imprensa internacional.

O fundador, PCA e director artístico da De Grisogono, Fawaz Gruosi, a partir daí começou a ver o futuro da sua empresa em tons de azul e ouro, com notas verdes pelo meio, depois de ter comprado a referida pedra, excepcional, um diamante angolano de 404 quilates, então recentemente encontrado na mina de Lucapa, província da Lunda-Norte.

“Estou muito nervoso, este diamante tira-me o sono, é a primeira vez que me preocupo por não ser capaz de fazer o que tenho que fazer. A minha responsabilidade é enorme”, disse Fawaz Gruosi, solicitado a comentar, na sua boutique de Nova Iorque, a descoberta do pedregulho. Responsabilidade tão grande que Gruosi não se aventurou a lapidar o mambo sozinho e recorreu aos serviços do prestigioso lapidário nova-iorquino Ben Green.

Compreensível, pois a verdade é que, com o “404”, a sua empresa e ele próprio mudavam de estatuto, como alegou um especialista do ramo diamantífero em Genebra. “Em geral, este tipo de aquisição é reservado às maiores empresas, como a Graff ou a Winston”, disse ele.

Trata-se, de facto, de um golpe de mestre. O “404” era o maior diamante jamais descoberto em Angola e nunca a marca De Grisogono tinha obtido uma pedra deste calibre.

Mas vamos com calma… por essa altura, o que de maior reboliço e irritação grassava na área diamantífera entre os concorrentes da De Grisonogo, era o ciúme, a sua meteórica ascensão e a exageradamente dispendiosa maneira de divulgar a existência desse diamante na supracitada gala VIP no Eden Roc, organizada no em pleno Festival de Cinema de Cannes, em Maio de 2016.

Por outro lado, sejamos francos, a De Grisogono podia dar-se ao luxo de ser generosa. Porque a sua marca, contas bem feitas, tem aliados que lhe permitem desempenhar um papel de liderança.

Recapitulemos. Em 2012, a empresa foi adquirida – por meio de uma montagem ad hoc, offshore – pelo empresário Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos.

Monsieur Dokolo avançou com 100 milhões de francos suíços destinados a transformar a De Grisogono num cliente privilegiado de diamantes angolanos destinados à joalharia. Vai de si que, com a compra do “404”, esta visão estratégica se concretizou na prática de maneira deveras espectacular.

Por outro lado, Sindika Dokolo também está por trás da Nemesis, uma empresa de diamantes no Dubai. De acordo com o seu director, Nicky Polak, foi ela, a Nemesis, que comprou o “404” à empresa estatal angolana, Sodiam, antes de vender os seus direitos à De Grisogono (que não pagou nem um Luei, só pagaria no final da lapidação e receberá lucros que se contam em milhões de dólares).

Portanto, não é preciso ser perito em economia para ver neste lance que o diamante passou de uma empresa do Estado, controlada pela filha do presidente da República, Sodiam, para as empresas privadas, Nemesis e De Grisogono, que são propriedade de Sindika Dokolo, marido da dita filha do agora ex-presidente.

Folha 8 com Lusa

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