O MPLA, partido dono de Angola desde 1975, está com dificuldades em pôr ordem no saco de gatos selvagens e, por isso, ainda não confirmou o general João Lourenço como eventual sucessor de sua majestade o rei José Eduardo dos Santos na liderança do reino.

Por Orlando Castro

Pelos vistos havia mais do que (passe a expressão) sete cães à espera do osso. Alguns, tarimbados na sobrevivência (eventualmente bem recordados do 27 de Maio de 1977), preferem esperar para ver. Outros puseram as garras de fora. É mesmo assim. De bestial a besta vai um espaço muito curto.

No sábado, nos festejos dos 60 anos do MPLA, todos esperavam – uns sentados, outros em bicos de pés -, que o “guia supremo”, o “querido líder”, o “escolhido de Deus”, tornasse público e de forma oficial quem será, ou seria, o cabeça-de-lista às eleições previstas para 2017.

Apesar das missas e outras manifestações encomiásticas de visível ardor canino, sua majestade não compareceu nas comemorações, defraudando a expectativa de cerca de 25 milhões de angolanos, incluindo os 20 milhões de pobres.

Encostado à parede, João Lourenço discursou repetindo num improviso devidamente pensado as velhas teses de Eduardo dos Santos. Quase parecia um regresso ao passado, se bem que o “play-back” estivesse em bom nível.

Mais uma vez, Eduardo dos Santos mostrou que é mestre na arte de fazer saltar da toca os seus mais ambiciosos bajuladores. Exímio prestidigitador, deu um estalo com os dedos, encenou (embora isso seja inevitável um dias destes) a apresentação da cadeira do poder e, in continenti, as mais esfomeadas e ávidas hienas saltaram para a ribalta.

Como qualquer ditador, José Eduardo dos Santos criou, exigiu e comprou ao longo do seu real consulado de 37 anos um exército de bajuladores e cultores caninos da sua personalidade, assumindo-se como – segundo uns – o “escolhido de Deus” e – segundo outros – o representante de Deus na terra.

O que se passa na cabeça de Eduardo dos Santos ninguém sabe. Se calhar nem ele próprio sabe. Certo é que não lhe faltam conselhos nacionais e internacionais sobre quem deve ser o seu sucessor. João Lourenço pode muito bem, e mais uma vez, ser apenas o isco, o chamariz, que levará o presidente a concluir que, afinal, o partido não está preparado para escolher o seu sucessor.

Se assim for, Eduardo dos Santos poderá dizer que – mais uma vez – fará o sacrifício de ser ele o cabeça-de-lista, mostrando que só ele tem capacidade para manter a velha máxima de que o MPLA é Angola e de que Angola é o MPLA.

Outra opção, sempre estribado pela previsível guerra interna no MPLA para assaltar o trono, será a de escolher alguém cuja capacidade profissional, formação académica, honorabilidade, prestígio interno e mundial etc. etc. são garantias sólidas e à prova de bala para um bom desempenho.

E quem será esse alguém? Não será certamente um general. No espectro da população angolana, mesmo considerando os 20 milhões de pobres, só existe uma pessoa com essas características, com esse carisma, com esse prestígio: Isabel dos Santos.

Atente-se que a escolha de Isabel dos Santos fará com que José Eduardo dos Santos não tenha de reeditar a luta demoníaca para dominar um reino que quis, e conseguiu, esclavagista; não tenha de voltar a fuzilar adversários/inimigos políticos; não tenha que mandar incorporar na cadeia alimentar dos jacarés todos aqueles que pensavam pela própria cabeça, bem como os que Eduardo dos Santos apenas suspeitava que pensavam fora das “ordens superiores”.

Ao contrário do que poderá acontecer se a escolha for um qualquer general, Isabel nunca lembrará ao pai que ele transformou traficantes de armas em cidadãos nacionais, com passaporte vermelho e funções de Estado (Pierre Falcone e Arkady Gaydamak, por exemplo).

Isabel também nunca fará alusão à ambição do pai que o levou a expandir a guerra para fora das fronteiras, derrubando governos legitimamente eleitos como o de Pascal Lissouba, no Congo Brazzaville, para colocar no poder o seu amigo ditador Sassou Nguesso; ou que participou no derrube do ditador Mobutu Sese Seko, substituindo-o por outro ditador de igual calibre, Joseph Kabila, fazendo o mesmo na Guiné Equatorial, com Teodoro Obiang.

Por estas e por outras, votamos (isto é como quem diz!) na filha de Tatiana Kukanova.

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