A esperteza saloia, gerada certamente no nepotismo genético no regime de José Eduardo dos Santos, não se limita a actos de prepotência e vigarice internos. Nem a China está a escapar a esta vigarice comercial que se julga impune e imune às regras comerciais.

De facto, e nem todos os incidentes são tornados públicos, quase 90% dos carregamentos de petróleo provenientes do poço angolano de Saturno que chegaram a Huangdao, norte da China, nos primeiros dez meses deste ano tinham, repare-se, peso a menos.

Serão as balanças chinesas diferentes das nossas? Uma tonelada em Angola pesa menos do que mil quilogramas na China?

Segundo o maior jornal da província de Shandong, o Qi Lu Wan Bao, 45 dos 51 carregamentos provenientes de Saturno traziam, de facto, menos carga do que o acordado e do que constava da documentação de venda. Mas será que essa pequena (na óptica do regime angolano) diferença é suficiente para tanto alarido?

Talvez não. Veja-se que a perda (diferença entre o comprado e o recebido) para os compradores foi estimada na módica quantia de… 2,21 milhões de dólares. Coisa pouca…

No total, as encomendas oriundas daquele poço de águas ultra-profundas, situado no bloco 31, costa norte de Angola, apresentaram um défice de 7.690 toneladas, destaca o jornal, que cita a alfândega de Huangdao. Presume-se que o governo de José Eduardo dos Santos vá mandar os seus peritos até à China para aferir a fiabilidade das balanças.

No caso em que os carregamentos apresentaram maior irregularidade, o valor em falta ascendeu a 0,5% do total. A mesma fonte justifica o défice com a “densidade do petróleo acima do normal” e o “carregamento insuficiente no porto de carga”, estimando a perda para os compradores em 2,21 milhões de dólares.

Não é de crer que o sistema angolano, tal como o regime, que está acima de qualquer dúvida de credibilidade, até porque tem um certificado de honorabilidade passado pelo não menos impoluto governo de sua majestade, tentasse vigarizar os amigos chineses. Como tal, é certamente a China que está a aproveitar a oportunidade para facturar mais uns dólares à custa da ingenuidade angolana.

Situada na província de Shandong, a ilha de Huangdao é sede de uma das principais refinarias do gigante estatal Sinopec no norte da China, e extremo de um dos oleodutos que fornece o nordeste chinês. Entre Janeiro e Outubro, Huangdao recebeu 3,6 milhões de toneladas de petróleo oriundos de Saturno, o que coloca o poço angolano entre o terceiro maior fornecedor, a seguir a Meery16, na Venezuela, e ESPO, na Rússia.

A refinaria estatal China Petroleum & Chemical (Sinopec) anunciou um lucro líquido de 10,19 bilhões de yuans no primeiro trimestre de 2016, resultado superior ao do mesmo período de 2015, quando a companhia registou lucro de 1,65 bilhões de yuans (1 dólar corresponde a 6,8 yuans).

Nos três primeiros trimestres de 2016, a Sinopec afirmou que o rendimento das refinarias caiu 1,72% para 175,25 milhões de toneladas. Já a produção de gasolina subiu 3%, a 42,09 milhões de toneladas.

A produção de petróleo e gás nos primeiros nove meses do ano caiu 8,13%, para 322,29 milhões de barris de petróleo. Já a produção de petróleo bruto caiu 14,01%, para 191,26 milhões de barris, de acordo com a empresa

Perante este diferendo com Angola, as autoridades chinesas recomendaram aos importadores que, ao assinar o contrato de compra com o fornecedor angolano, devem identificar claramente o método de pesagem e realizar uma inspecção no porto de carga. O bloco 31 tem o petróleo mais barato produzido em Angola e já rendeu em receitas para o Estado, entre Janeiro e Setembro, 57.104 milhões de kwanzas (321 milhões de euros), segundo dados do Ministério das Finanças de Angola.

O bloco 31 explorado por um consórcio que integra a BP (26,67% do capital), a Statoil (13,33%), a Sonangol Sinopec International (15%) e a estatal angolana Sonangol (45%), que é também operadora do bloco.

Em Julho passado, Angola ultrapassou a Arábia Saudita e a Rússia e tornou-se no principal fornecedor de petróleo da China, segundo dados das Alfândegas chinesas.

A produção de petróleo bruto da China caiu novamente em Outubro, pois as refinarias continuaram a cortar a produção devido aos baixos preços do petróleo.

A produção de petróleo bruto pelas empresas produtoras que têm uma receita anual acima de 20 milhões de yuans (US$ 2,9 milhões) caiu 11,3% anualmente para 16,1 milhões de toneladas em Outubro, segundo o Departamento Nacional de Estatísticas. A queda foi mais acentuada do que a de 9,8% em Setembro.

Por outro lado, a importação tem aumentado desde que as refinarias privadas foram autorizadas, em 2015, a importar petróleo bruto.

Nos primeiros dez meses do ano, as importações aumentaram 3,6% anualmente para 312 milhões de toneladas, enquanto a produção de petróleo refinado cresceu 2,5%.

A Sinopec, a maior refinadora petrolífera da China, e a PetroChina, a maior produtora de petróleo e gás, baixaram seus objectivos da produção de petróleo em 2016.

A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma anunciou o maior corte deste ano dos preços da gasolina e do diesel no retalho, seguindo os preços globais em queda de petróleo bruto causados por um forte dólar norte-americano e pelas reservas crescentes de petróleo bruto nos Estados Unidos da América.

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