Em 2003, já lã vão 13 anos, José Eduardo dos Santos anunciou a sua saída da presidência. Alguns acreditaram, outros fingiram que acreditavam, outros – conforme “ordens superiores” – nem quiseram pensar na credibilidade da afirmação.

Por Orlando Castro

O então secretário-geral do MPLA, João Lourenço, foi dos que acreditou que o seu “querido líder” era um político impoluto cuja honorabilidade era à prova de bala. Estendeu-se ao cumprido.

Isto porque, na ingénua crença de que Angola caminhava para ser uma democracia e um estado de direito, quis dar corpo a um movimento, ou facção, para sensibilizar José Eduardo dos Santos no sentido de cumprir a palavra e retirar-se voluntariamente da cena política.

Embora tarimbado nas lides militares, avaliou mal a estratégia subjacente à declaração do chefe. No entanto, na altura, deu o corpo às balas e reiterou publicamente, até mesmo através da na comunicação social, que o presidente do MPLA, da República e Titular do Poder Executivo era um homem de palavra e que, por isso, deveria cumprir o que prometera.

Ledo engano. José Eduardo dos Santos ao longo dos seus 37 anos de poder absoluto mostrou que defende uma coisa às segundas, quartas e sextas e outra às terças, quintas e sábados. Aos domingos prepara, em família, a melhor forma de continuar a ludibriar os escravos, sejam estes militantes do MPLA ou não.

Eduardo dos Santos não gostou que este general que, por sinal, esteve na União Soviética de 1978 a 1982 na Academia Superior Lénine de onde, a par da formação militar, trouxe o título de Master em Ciências Históricas, se armasse em bagre de corrida e fizesse ondas.

Vai daí, fazendo uso da única lei que conhece (quero, posso e mando) Eduardo dos Santos afastou-o de secretário-geral do MPLA e obrigou-o a “aulas” de “educação patriótica”, ou seja de assimilação de bajulação canina.

Aprendida a lição (tanto quanto parece, embora não seja garantido), durante o IV Congresso do MPLA, em 1998, João Lourenço mostrou que já estava domesticado e pronto a servir, incondicionalmente, o seu amo. A prova perante o “escolhido de Deus” deu-a quando operacionalizou o afastamento da ribalta do partido dos ex-primeiros-ministros Lopo do Nascimento (que tombou estrondosamente de secretário-geral a militante de base), Marcolino Moço e França Van-Dúnem.

Foi uma prova de fogo bem sucedida de alguém que praticou futebol e karaté (Shotokan) e que, para além de equitação, gosta de jogar xadrez.

Depois, nos areópagos à média luz, pensou-se que João Lourenço teria tido uma recaída quando, a par de Bornito de Sousa, se opôs à escolha de Manuel Vicente para vice-presidente, feita pelo próprio Eduardo dos Santos. Hoje vê-se que não. Manuel Vicente era mesmo para queimar.

Só falta saber se, mais uma vez, a escolha de Eduardo dos Santos é para valer ou se, como no passado, João Lourenço vai ser mais uma vez um peão na estratégia pessoal de “querido líder”.

João Lourenço por… João Lourenço

João Lourenço fez a sua travessia do deserto. Estará completa? Com Eduardo dos Santos nunca se sabe. E o deserto continua lá...

João Lourenço fez a sua travessia do deserto. Estará completa? Com Eduardo dos Santos nunca se sabe. E o deserto continua lá…

General João Manuel Gonçalves Lourenço
Data de Nascimento: 5 de Março de 1954
Local de nascimento: Lobito
Habilitações Literárias: Licenciado em História
Cargos Exercidos:
1984 – 1987: 1º Secretário do Comité Provincial do Partido e Governador Provincial do Moxico
1987 – 1990: 1º Secretário do Comité Provincial do Partido e Governador Provincial de Benguela
1984 – 1992: Deputado à Assembleia do Povo
1990 – 1992: Chefe da Direcção Politica Nacional das FAPLA
1992 – 1997: Secretário da Informação do MPLA
1993 – 1998: Presidente do Grupo Parlamentar do MPLA
1998 – 2003: Secretário-geral do MPLA
1998 – 2003: Presidente da Comissão Constitucional
Membro da Comissão Permanente
Presidente da Bancada Parlamentar
2003 – 2014: 1º Vice-presidente da Assembleia Nacional
Filho de Sequeira João Lourenço natural de Malange e de Josefa Gonçalves Cipriano Lourenço natural do Namibe, enfermeiro e costureira respectivamente, ambos já falecidos.

Fez os estudos primários e secundários na província do Bié, onde o pai se encontrava na situação de residência vigiada por 10 anos após ter estado preso por 3 anos na prisão de São Paulo em Luanda, pelo exercício de actividade política clandestina enquanto enfermeiro do Porto do Lobito.

Deu continuidade aos estudos em Luanda no então Instituto Industrial de Luanda.

Após a queda do regime fascista em Portugal, na companhia de outros jovens, juntou-se à luta de libertação nacional em Ponta Negra em Agosto de 1974 no CIR Kalunga. Integrou o primeiro grupo de combatentes que entraram em território nacional via Miconge-Belize-Buco Zau-Dinge-Cabinda.

Em vésperas da Independência, participou dos combates na fronteira do N’Tó/Yema contra a coligação FNLA/Exército Zairense foi derrota e a partir do morro do Tchizo em Cabinda contra a unidade da FNLA que se encontrava nas margens do rio Lucola à entrada da cidade.

Tem formação em artilharia pesada, exerceu funções de Comissário Político em diversos escalões, desde pelotão, companhia, batalhão, brigada e comissário da 2ª Região Político- Militar Cabinda, entre 1977/78.

Enviado para então União Soviética de 1978 a 1982 na Academia Superior Lénine de onde para além da formação militar trouxe o título de Master em Ciências Históricas.

De 1982 a 1983, participou nas operações militares no centro do país, Kwanza Sul, Huambo, e Bié com posto de comando no Huambo.

De 1983 a 1986, desempenhou as funções de Comissário Provincial do Moxico e Presidente do Conselho Militar Regional da 3ª Região Político Militar.

De 1986 a 1989, desempenhou as funções 1º Secretário do Partido e de Comissário Provincial de Benguela.

De 1989 a 1990 desempenhou as funções de Chefe da Direcção Política Nacional das FAPLA, em substituição do General Francisco Magalhães Paiva N’Vunda nomeado Ministro do Interior.

De 1991 a 1998 desempenhou as funções de Secretário do Bureau Político para a Informação, de Secretário do Bureau Político para a Esfera Económica por um curto período, de Chefe da Bancada Parlamentar.

De 1998 a 2003 desempenhou as funções de Secretário-Geral do MPLA e de Presidente da Comissão Constitucional.

De 2003 a Abril de 2014, desempenhou as funções de 1º Vice-Presidente da Assembleia Nacional.

É casado com Ana Afonso Dias Lourenço e pai de 6 filhos.

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