ANGOLA. “O soba Ngana Mussanga, do MPLA, veio, com 20 jovens armados com paus. Deu-me chapadas na cara, enquanto os jovens me agarravam. Atiraram-me ao chão, apertaram-me nas mãos e nos pés, para não me soltar e o soba começou a espancar-me com uma moca na cabeça”, revela Pedro Muiungulenu Zambicuari.

O incidente ocorreu a 8 de Setembro, na comuna do Luremo, município do Cuango, na província da Lunda-Norte, tendo como vítima o representante da UNITA que fiscalizava o registo eleitoral naquela localidade.

Este é o primeiro incidente que vem a público sobre a violência contra membros da oposição durante o processo de registo eleitoral. As próximas eleições estão previstas para o próximo ano.

Os partidos da oposição – UNITA, CASA-CE e PRS – suspenderam, ontem, a fiscalização do registo eleitoral no Luremo, em protesto contra os actos de intimidação e violência contra os seus membros.

O representante da UNITA, Pedro Muiungulenu Zambicuari, narra o sucedido.
“Às 8h30, antes de iniciar o registo, o soba Ngana Mussanga veio ter comigo. Perguntou-me quem eu era e de onde vinha. Respondi-lhe que sou cidadão angolano”, explica.

“O soba disse-me, então, que o MPLA não queria nenhuma oposição aqui [no Luremo]. Avisou-me: ‘arruma as tuas trouxas e vai-te embora’. Respondi-lhe que eu estava ali para fiscalizar o registo e não para fazer política. Deu-me as costas e foi-se embora”, continua.

Imediatamente, o membro da UNITA informou a Brigada Móvel de Registo Eleitoral, alojada na administração comunal, que o encaminhou à administradora comunal, Maria Tungo, entretanto ocupada para o receber.

“O chefe da secretaria da administração communal [Kubindama] disse-me que eu não tinha nada que fiscalizar o registo mas, se quisesse, podia ir fiscalizar a direcção da UNITA. E era melhor sair já do Luremo”, explica Zambicuari.

Acto contínuo, por volta das 16h00, o mesmo Kubindama dirigiu-se à brigada móvel para dar o ultimato a Pedro Zambicuari, diante dos seus colegas, que deveria abandonar imediatamente o Luremo ou enfrentar as consequências.

Uma hora depois, o soba dirigiu-se à residência, onde deveria pernoitar, e foi agredido pelo próprio soba, como acima reportado.

“O soba não me disse mais nada. Viu-me, agarrou-me e começou logo a bater-me”, conta.

Refere que, a dado momento, conseguiu espernear até se soltar e pôs-se em fuga, tendo sido perseguido à pedrada e com mocas.

Procurou refúgio no comando local da Polícia Nacional. “Informei o caso ao segundo comandante Joaquim e o soba também apareceu diante dessa autoridade. Disse-me diretamente que estava ali para me matar”, diz.

“O comandante pediu ao soba para se sentar e disse-lhe que não podia fazer confusão na esquadra. Mas o soba continuou a gritar contra o comandante, a dizer que me mataria de qualquer forma”, revela o representante da UNITA.

Membros do Partido de Renovação Social (PRS) acorreram à unidade para socorrer o seu colega da oposição e evacuaram-no para Cafunfo. Um outro oficial da Polícia Nacional aconselhou, no momento, o comandante a entregar o militante da UNITA aos cuidados do PRS. Segundo testemunho da vítima, o referido oficial disse ao comandante “que a polícia não tinha meios para impedir que me matassem ali mesmo caso continuasse no local.”

Ontem, os partidos da oposição reuniram com a administradora do Cuango, Angélica Kaumba Sassão, a pedido desta, para abordar o incidente e o processo de registo eleitoral naquela localidade.

“A administradora chamou-nos para dizer que a agressão contra o nosso colega era normal e que não devíamos fazer barulho por causa disso”, refere Justino Pedro, secretário-adjunto do PRS no Cuango, que esteve presente no encontro.

“Eu perguntei à administradora Angélica: e se o homem da UNITA tivesse sido morto? Ela respondeu que nós podemos fazer queixa onde quisermos e nada acontecerá. Foi a resposta dela”, acrescenta Justino Pedro.

Por causa dessa atitude, refere o interlocutor, os partidos da oposição acharam por bem suspender a sua participação, por razões de segurança.

Maka Angola tentou o contacto com a administradora municipal sem sucesso. Não foi possível contactar o soba Ngana Mussanga ou a administração do Luremo por dificuldades de comunicação.

Pedro Muiungulenu Zambicuari queixa-se de fortes dores de cabeça e nas costas por causa da agressão violenta de que foi alvo e recebeu um cocktail de quatro injecções para aliviar as dores.

In Maka Angola

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