Em Maio de 2008, o presidente da UNITA, Isaías Samakuva, disse em Luanda que o seu Partido tem no homem o centro das atenções para o programa de governo da mudança. Se as palavras correspondessem aos actos, os angolanos agradecerão, certamente. Mas já lá vão oito anos e tudo não passou de vãs promessas.

Por Orlando Castro

Isaías Samakuva falava nesse ano para militantes e simpatizantes da UNITA que se concentraram na sede municipal do Partido no Kazenga, numa cerimónia que serviu para a tomada de posse da Direcção Central do Processo Eleitoral, um órgão para a gestão da campanha do Galo Negro rumo às eleições de Setembro de 2008.

Na sua intervenção o líder da UNITA disse que o seu partido estava apostado a oferecer aos angolanos uma mudança estável, tranquila e com serenidade, tendo no centro das atenções o homem. Na altura, tal como hoje, a alternativa passa por isto, também por isto, mas não só por isto.

Para Samakuva era preciso que o homem seja valorizado e dignificado, estando previsto no programa de mudança do seu Partido a criação de condições para uma melhor habitação, saúde e protecção do meio ambiente, bem como ensino para todos os jovens em idade escolar.

“Não vamos prometer um milhão de casas, para serem entregues às mesmas pessoas. Vamos construir habitação para todos aqueles que realmente necessitem dela, até lá no interior do país”, defendeu.

Não era nem é “até lá no interior do país”. É sobretudo lá no interior do país, na Angola profunda. Na Angola real.

Samakuva disse também que o programa da mudança da UNITA previa acabar com a famosa “gasosa”, que impede muitos jovens de terem acesso ao sistema de ensino, bem como a fragilidade de algumas autoridades. Segundo disse, o fim “da gasosa” passa pela remuneração justa dos funcionários, que hoje auferem um salário incompatível com o custo de vida.

E se os funcionários auferem “um salário incompatível com o custo de vida” que dizer da esmagadora maioria dos angolanos?

O Líder da UNITA sublinhou que o seu Partido estava decidido a mudar este estado de coisas, tendo lançado palavras de Ordem aos presentes de “mudança agora e já”; “mudança com democracia”; “Setembro – mudança”. “O nosso objectivo está à vista. É a mudança em Setembro”.

Samakuva apelou também aos seus partidários para não responderem às provocações daqueles que querem perturbar o processo da mudança. “Não aceitemos as provocações. Tenhamos disciplina e coragem”, frisou o Presidente da UNITA sublinhando que a disciplina não significa ter medo.

“Ninguém deve intimidar-nos. Cada um que fique com o seu partido de escolha. Se é do MPLA que seja, se é da UNITA seja da UNITA”, disse Isaías Samakuva, num veemente apelo do respeito pela diferença.

Como se vê, só faltou o resto, o essencial. E o resto, mesmo não apostando (quanto a mim) em todos os Homens válidos que a UNITA tem ao seu dispor, é muito, muito mesmo.

No início de Agosto de 2008, Isaías Samkuva disse, num discurso que marcou o arranque oficial da campanha eleitoral em Angola, que “a corrupção estava institucionalizada no país”.

Isaías Samakuva defendeu que, “para inverter o quadro” de “corrupção institucionalizada” no país é necessária “uma mudança de regime”, sublinhando que o seu partido é o que está melhor posicionado para essa tarefa.

Por outras palavras, Samakuva disse que, finalmente, o Galo começa ia voar. Os angolanos começam a acreditar que haia alguém capaz de, entre outras coisas, tornar os ricos menos ricos e os pobres menos pobres. Ledo engano.

Numa cerimónia marcada pela presença de cerca de 400 pessoas, entre militantes e simpatizantes do partido, Samakuva considerou na altura que, “os grandes problemas nacionais são a exclusão social, a pobreza, o desemprego, o sistema de educação e a corrupção”.

Ou seja? Tudo. Tudo o que o MPLA não conseguiu fazer, mesmo estando no poder desde 1975. Como sempre, depois de 2002, a UNITA só fala e vai passar a falar (cada vez mais) só. As palavras, as promessas não enchem barriga.

O líder da UNITA lembrou que mais de 68 por cento da população angolana vivia na “pobreza extrema” e que a taxa de analfabetismo estava estimada em 58 por cento em contraste com a média africana que era de 38 por cento.

São números que envergonham Angola mas que não se devem esconder. São números que mostram como para o MPLA há filhos e enteados, como para o MPLA há angolanos de primeira e de segunda.

Samakuva assinalou que entre 1997 e 2001, Angola consagrou à educação uma média de 4,7 por cento do seu orçamento, quando a média dos países que integram a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) foi de 16,7 por cento.

“Para além de limitados, esses recursos enfermam também de iniquidade na sua distribuição, sendo que para o litoral Angola disponibilizou 15 dólares per capita, enquanto no interior, cifrou-se em cinco dólares, o que é uma política discriminatória que resulta da cultura de exclusão”, frisou.

Exclusão, acrescente-se, direccionada para todos aqueles que ousaram pensar de forma diferente da verdade oficial, da verdade do MPLA.

Quanto ao sistema de saúde, referiu que Angola disponibilizava apenas três a quatro por cento do seu orçamento para o sector e que a malária continuava a ser a principal causa de morte dos angolanos, seguindo-se a tuberculose, desnutrição, tripanossomíase (doença do sono) e hipertensão. Ou seja, os angolanos estiveram e estão entregues à bicharada de quem tem os dólares e, neste caso, não de quem tinha a de os distribuir.

“Angola, ao invés de um Estado de direito, tornou-se num Estado patrimonialista, mal governado, com um baixo índice de desenvolvimento humano, onde os jornalistas ainda são presos”, disse Samakuva.

Ainda no domínio da economia, apontou que esta continuava a crescer, mas “mal” quer na estrutura da produção interna, quer na distribuição da riqueza nacional. A título de exemplo, o sucessor de Jonas Savimbi na liderança da UNITA sublinhou que mais de 80 por cento do PIB (Produto Interno Bruto) é produzido por estrangeiros e mais de 90 por cento da riqueza nacional privada “foi subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5 por cento de uma população de cerca de 18 milhões de angolanos”.

Ou seja, poucos têm milhões e milhões têm pouco ou nada.

“A política económica em curso não garante a integração digna da juventude na sociedade, nem lhe assegura o primeiro emprego e não promove o desenvolvimento descentralizado do território”, considerou Samakuva numa radiografia que mostrou já nessa altura, 2008, como o rei ia nu.

Samakuva é, está provado, um bom especialista no diagnóstico. Mas não passa disso. E farto de diagnóstico estão os angolanos. Eles querem ser tratados. Mas a UNITA, infelizmente, não vai por esse caminho.

A UNITA, é verdade, é dos partidos que não erra. Mas, reconheça-se também, isso acontece porque Samakuva sabe que a melhor forma de não errar é… nada fazer. E Angola precisa de quem faça, de quem não tenha medo de fazer… mesmo errando.

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