O resultado de uma primeira votação no Conselho de Segurança para secretário-geral da ONU colocou António Guterres na frente da corrida. Talvez por isso, ou não, o ministro das Relações Exteriores de Angola, Georges Chikoti, apresentou hoje o apoio angolano à passagem do vice-primeiro-ministro da Eslováquia, Miroslav Lajcak, ao grupo de seis seleccionados…

Em Março passado, o antigo alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres, veio a Luanda pedir o apoio de Angola à sua candidatura a secretário-geral ONU. Embora faça parte do ADN do regime jogar em vários tabuleiros, certamente que sua majestade o rei não lhe negará esse apoio. Pena é que, estamos em crer, o candidato se esqueça de que Angola não é o regime e que, por cá, existem angolanos a morrer todos os dias.

Em declarações à Angop, no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, António Guterres disse que, “por Angola estar envolvida em actividades internacionais extremamente relevantes, vejo-me na obrigação de transmitir pessoalmente essa pretensão às autoridades angolanas”.

Pois é. Está até no Conselho de Segurança da ONU. E, pelos vistos, isso basta. O facto de ter desde 1979 um Presidente da República nunca nominalmente eleito, de ser um dos países mais corruptos do mundo, de ser o país do mundo onde morrem mais crianças… é irrelevante.

O também ex-primeiro-ministro, na linha aliás de todos os subservientes governos de Portugal, reforçou que Angola é um país que tem hoje múltiplas iniciativas no fórum internacional, com a sua presença no Conselho de Segurança das Nações Unidas, na presidência da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos (CIRGL) e em outras iniciativas no continente africano.

“Naturalmente como velho amigo deste país, senti que era meu dever, no momento em que anunciei a minha candidatura a secretário-geral das Nações Unidas, vir o mais depressa possível para poder transmitir essa intenção às autoridades angolanas”, sublinhou.

António Guterres tem razão. É um velho amigo do regime. Mas confundir isso com ser amigo de Angola e dos angolanos é, mais ou menos, como confundir o Oceanário de Lisboa com o oceano Atlântico. Seja como for, a bajulação continua a garantir apoios. Nesse sentido, António Guterres não se importa de continuar a considerar José Eduardo dos Santos como um ditador… bom.

António Guterres, além de ter sido primeiro-ministro luso entre 1995 a 2002, exerceu o cargo de alto comissário da ONU para os Refugiados, durante os últimos dez anos. Anunciou a sua candidatura ao cargo de secretário-geral da ONU, em Fevereiro último.

António Guterres sabe que todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos há angolanos que morrem de barriga vazia e que 70% da população passa fome;

António Guterres sabe que 45% das crianças angolanas sofrem de má nutrição crónica, e que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos;

António Guterres sabe que no “ranking” que analisa a corrupção, Angola está entre os primeiros, tal como sabe a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos e que o silêncio de muitos, ou omissão, deve-se à coacção e às ameaças do partido que está no poder desde 1975.

António Guterres sabe que a corrupção política e económica é, hoje como ontem, utilizada contra todos os que querem ser livres, que 76% da população vive em 27% do território, que mais de 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada foi subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população.

António Guterres também sabe que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

Mas também é evidente que António Guterres sabe que ser amigo de quem está no poder, mesmo que seja um ditador, vale muitos votos. Seja como for, António Guterres não deve gozar com a nossa chipala nem fazer de todos nós uns matumbos.

Apoio à passagem de Miroslav Lajcak

O ministro das Relações Exteriores de Angola, Georges Chikoti, apresentou hoje o apoio angolano à passagem do vice-primeiro-ministro da Eslováquia, Miroslav Lajcak, ao grupo de seis seleccionados para concorrerem ao cargo de secretário-geral da ONU.

A posição foi transmitida pelo governante angolano após reunir-se em Luanda com Miroslav Lajcak, que é também ministro dos Negócios Estrangeiros daquele país europeu, e que hoje foi igualmente recebido em audiência pelo vice-Presidente de Angola, Manuel Vicente.

“Neste momento podemos apoiar alguns candidatos e acho que ele [vice-primeiro-ministro da Eslováquia] é um dos bons candidatos. E nesse caso nós iremos recomendar para que, nesta selecção que está sendo feita do primeiro grupo, também se possa ter em conta esta candidatura”, disse Georges Chikoti, em declarações aos jornalistas.

Os dois governantes participaram hoje em conversações oficiais entre as delegações de ambos os países, para o fortalecimento dos laços de amizade e de cooperação entre Angola e a Eslováquia, encontro apresentando como uma “nova era” nestas relações.

Georges Chikoti reconheceu que a cooperação entre Angola e a Eslováquia tem sido reduzida, mas que existe agora a vontade de relançar esse processo, com a reactivação dos acordos estabelecidos ainda com a então Checoslováquia, que em 1993 deu origem à República Checa e à Eslováquia.

Além do investimento empresarial eslovaco em Angola, em áreas como sector mineiro, energético, construção, agricultura e máquinas, que envolverá um acordo bilateral de negócios, esta cooperação poderá passar ainda pela formação de estudantes e quadros angolanos naquele país europeu.

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