Seu pai preside ao destino de um país, ela dirige um império. Isabel dos Santos, filha do presidente angolano José Eduardo dos Santos, foi nomeada no passado dia 2 de Junho, presidente do Conselho de Administração da Sonangol, a companhia nacional de petróleos.

Por Pierre Lepidi e António Setas (*)

Além de uma fortuna estimada pela revista Forbes em US $ 3,3 biliões (3 biliões de euros), Isabel, a quem os angolanos dão o nome de “princesa”, encontra-se no comando de uma empresa que contabilizou um volume de negócios de 40 biliões em 2013.

As tensões e sabotagem que interromperam em Maio a produção de petróleo da Nigéria no Delta do Níger têm impulsionado Angola, projectando-a para o primeiro lugar dos países produtores de África.

“Fundada há 40 anos, a Sonangol inicialmente administrava apenas a exploração do petróleo antes de se espalhar para outras áreas como a aviação ou construção civil”, precisou Benjamin Augé, especialista em energia do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI). A empresa tem vindo a crescer extremamente rápido após o fim da guerra civil em 2002, quando o preço do barril de crude subiu de trinta dólares para 147 dólares em 2008. E nessa altura, acertadamente decidiu e foi capaz de investir massivamente em infra-estruturas. “Mas desde a queda do preço do petróleo no final de 2014, a empresa e o país passaram por um período difícil. A inflação atingiu 29,2% no comparativo anual em Maio e o kwanza, a moeda nacional. depreciou em cerca de 40% em relação ao dólar”.

Terça-feira, 14 Junho, o FMI aceitou o princípio de um novo empréstimo para Angola, que poderia subir para US $ 4,5 bilhões em 10 anos. A “Sonangol continua a ser o mercado principal do país e a espinha dorsal da economia, diz Samuel Nguembock, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS). Mas em um momento difícil da sua história, o país padeceu de uma gestão muito pouco rigorosa”.

Angola, que está em 163º entre 167 países no que diz respeito a nível de corrupção, segundo a ONG Transparência Internacional. é regularmente apontada por causa da sua gestão opaca. Ademais, as desigualdades sociais são marcantes neste país de língua portuguesa de cerca de 25 milhões de pessoas, onde a taxa de mortalidade infantil é a mais alta do mundo, de acordo com um relatório da ONU publicado em 2015.

Em Luanda, a nomeação de Isabel Dos Santos irritou a oposição e o site da ONG anti-corrupção Maka Angola, do jornalista Rafael Marques, afirmou ao Le Monde Afrique que “Esta decisão é puramente ditatorial. Este nepotismo é ilegal e vamos vivamente contestá-lo em tribunal. Entre esta empresa pública que é a Sonangol e várias empresas geridas por Isabel dos Santos, há significativos riscos de conflito de interesses”.

Na sua primeira conferência de imprensa realizada no refeitório da empresa no dia 9 de Junho passado, a filha do presidente, de 43 anos, tentou tranquilizar. “Estamos comprometidos com a transparência e determinado a melhorar os lucros”, afirmou a nova presidente que quer reorientar a sua empresa exclusivamente para a exploração de hidrocarbonetos.

Isabel dos Santos não é apenas filha de um presidente bilionário. Casada com um rico coleccionador de arte congolês, Sindika Dokolo, a princesa tem a reputação de ser uma “mulher de negócios” tenaz e exigente. Nascida em Baku (Azerbaijão Soviética), de uma mãe campeã de xadrez, cresceu em Londres onde estudou engenharia mecânica no King’s College. Numa das poucas entrevistas que deu, desta feita ao Financial Times em 2013, ela revelou que sempre teve o bom senso de negócios. “Eu comecei a vender ovos de galinha quando tinha seis anos”, disse ela como que a contar a uma história da ascensão de uma plebeia a um esplendoroso sucesso.

Foi por ter feito quando tinha 24 anos a aquisição de um restaurante em Luanda, que a “princesa” começou sua carreira nos negócios. Contudo, só em 1999 é que tudo começou quando ela ganhou um concurso que lhe permitiu controlar a Unitel, a maior operadora de telefonia móvel do país. “A fortuna de Isabel dos Santos foi adquirida por via de decretos presidenciais do seu pai, que é um ditador corrupto, afirma Rafael Marques. Sem a corrupção organizada pelo seu pai, ela não seria dona de nada (…) Quanto ao porquê de ela ser temida nos meios financeiros, isso deve-se ao facto de ter à sua disposição o aparato repressivo do Estado e o poder institucional, que pode eliminar ou punir aqueles que se oponham aos seus esforços”.

Actualmente, o seu império financeiro estende-se muito além das fronteiras de Angola. Em Portugal, em busca de crescimento, tem investido a rodos, uma vez que controla 19% do BPI, o quarto maior banco nos antigos país colonial e detém participações em várias empresas, incluindo 10% na Zon Multimedia, especializada em telecomunicações. Mas, para ela, ser a mulher mais rica na África não é suficiente.

No poder desde 1979 sem nunca ter sido eleito por sufrágio universal, o seu pai, com 74 anos de idade, anunciou que iria dar termo à sua carreira em 2018, um ano após a eleição presidencial.

Ninguém sabe por que razão o presidente considera essa hipótese. Mas ninguém é obrigado a acreditar no que ele disse. Este presságio para deixar o poder em 2018 é um tanto anacrónico, na medida em que dos Santos assume ser candidato em 2017 com a certeza de ganhar e, além disso dá-se ao luxo de enviar às ortigas uma incrível incongruência, ou seja, vai candidatar-se por saber de antemão que vai ganhar e uma vez eleito retirar-se um ano mais tarde!?… Não faz sentido.

Uma coisa é certa: dos Santos reflecte sobre a sua sucessão. Será que a nomeação de “Zabelinha” é um trampolim para a Presidência?… Ser ela a eleita como líder na transmissão de poder político…

Com a sua voz tímida, a nova directora da Sonangol, Isabel dos Santos. contesta, “Isso não tem nada a ver com política”, disse, “eu fui optada para este projecto por causa da minha experiência no sector privado”.

Em Junho de 2013, no mesmo diapasão, José Filomeno de Sousa dos Santos, filho do presidente, foi oficialmente impelido para a cabeça de um fundo soberano, lançado em Outubro de 2012 com 5 biliões de dólares. Com 38 anos de idade, em Luanda alguns vêem naquele a quem dão o nome de “Zenu”, como um filho capaz de suceder ao seu pai. A nomeação da sua meia-irmã, a primogénita dos quatro filhos do presidente, agora chefe supremo da Sonangol, leva inevitavelmente a pensar que a gestão económica de Angola deve continuar a ser um assunto de família.

O futuro político, continua a ser difícil de ler. “Sonangol é desde há muito tempo o cofre-forte do regime, disse Benjamin Augé. Todos os segredos de Estado estão escondidos lá. Confiando os postos-chave da economia aos seus filhos, Dos Santos permite que seja garantido que a sua família irá proteger o dinheiro do clã depois da sua partida: o MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola, o partido no poder], mas também toda a família dos Santos. Esta é uma estratégia clássica em pequenos países produtores de petróleo “. “Ninguém pode controlar o seu sucessor, acrescentou Samuel Nguembock. Mas cuidado!…Os filhos do presidente dos Santos poderão eles resistir à pressão quando o pai abandonar o poder? Poderão ele sobreviver à batalha que se desencadeará entre os caciques do MPLA? Ao confiar-lhes as rédeas da economia, Dos Santos dá-lhes uma chance e sente-se em segurança”.

(*) Artigo publicado no site «Le Monde Afrique».

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Foto: Folha 8

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