Dom Gabriel Mbilingui foi hoje reeleito como Presidente do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SECAM). Embora a Igreja Católica angolana, no que a Angola respeita, continue a tentar agradar a Deus e ao Diabo, há indícios de que Deus “ganhará” a contenda.

A Igreja Católica angolana defende agora a urgência de uma reflexão em torno dos 40 anos de independência nacional, cujos frutos devem chegar a todos os angolanos “sem excepção e não apenas a um reduzido número de angolanos que se consideram privilegiados”.

É, apesar de tardia, uma incisiva alusão ao que não tem sido feito pelo regime do MPLA, no poder há exactamente 40 anos, e que certamente causará amargos de boca a quem está no poder há 37 anos, no caso José Eduardo dos Santos.

Será que, também neste caso, o Titular do Poder Executivo vai – mesmo que seja pela boca dos seus ministros – acusar de ingerência a Igreja Católica? Certamente que não. Aliás, ele tem sido um preciso aliado nesta sacerdotal missão de agradar a Deus e ao Diabo.

A posição, recorde-se, foi manifestada na abertura da II Plenária da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), electiva, que decorreu em Luanda, para a escolha do novo presidente, em substituição do actual, Gabriel Mbilingui, e dos novos órgãos.

No discurso de abertura, Gabriel Mbilingui saudou homens e mulheres, militares ou civis, religiosos e intelectuais ou não que deram o melhor de si para o alcance da independência de Angola.

A CEAST sublinhou que 40 anos “é idade de maturidade”, e tempo de reflexão e avaliação do percurso do país.

“E, em função disso, corrigir o que fizemos mal e potenciar o bem e, assim, olhar para o futuro com esperança. As alegrias/luzes são muitas e os desafios/sombras também”, considerou a organização católica.

De acordo com a CEAST, a consolidação da paz, “após a dolorosa e odiosa guerra civil depois da independência”, a reconciliação nacional, a implementação de uma verdadeira democracia, da justiça social em todos os sectores – justiça judicial, economia, cultura, educação, saúde, justiça distributiva, devem tocar a todos os angolanos.

“Para que os frutos da independência nacional, conquistada com tanto sacrifício de muitos dos melhores filhos e filhas de Angola, cheguem a todos estes sectores e a todos os angolanos sem excepção e não apenas a um reduzido número de angolanos que se consideram privilegiados”, referiu Gabriel Mbilingui.

A Igreja Católica angolana sublinhou que a reconstrução das infra-estruturas físicas, como as estradas que ligam o país, “mas ainda não ligam os corações de todos os angolanos, ainda não anularam as assimetrias”.

Ainda sobre os 40 anos de independência, a Igreja Católica reconhece que vem assumindo “um rosto cada vez mais angolano”, com a criação de várias novas dioceses, com pastores angolanos, mais sacerdotes, religiosos e religiosas angolanos, novos seminários e novas comunidades de formação à vida consagrada.

“Apesar de vários obstáculos que teve de enfrentar, a igreja nunca baixou os braços no desempenho da sua vocação e missão na promoção da dignidade humana dos angolanos”, frisou Gabriel Mbilingui.

O país é real para todos?

A Em tempos, embora recentes, a situação de crise, provocada pela queda do preço do petróleo, foi referida pelo presidente da CEAST, no seu discurso de abertura da primeira Assembleia dos bispos de Angola e São Tomé, que decorreu no Moxico.

Gabriel Mbilingui considerou a crise económica o “verdadeiro calcanhar de Aquiles, que atingiu profundamente Angola”, cujas consequências já se fazem sentir “pesadamente na vida dos angolanos e não só, sobretudo nos mais pobres”.

“Bastaria citar como exemplos, a subida de preço de todos os produtos básicos, o aumento do desemprego e do presumível aumento da delinquência”, lamentou.

Segundo o bispo, muitos jovens estão a ver a sua formação académica, moral e espiritual, “fortemente ameaçada, pela corrupção que vê, na grave situação social, uma porta escancarada para a sua acção devastadora”.

A nível social, os bispos da CEAST sublinharam que continua o desafio da consolidação da paz, da reconciliação nacional, da implementação de uma verdadeira democracia, da justiça social para a construção duma Angola nova em todas as dimensões.

A este propósito, façamos um exercício de retrospectivo a Junho de 2014 altura em que Gabriel Mbilingui, para desespero do regime e gáudio dos nossos oprimidos, que são cada vez mais, foi eleito como novo arcebispo de Luanda, numa votação em que terá obtido cerca de 94% dos votos.

As autoridades (lato sensu) bem fizeram tudo, incluindo uma vasta campanha a favor de um outro “seu” candidato, obviamente mais dócil e formatável. Não resultou. A integridade moral, ética e sacerdotal deste prelado rechaçou todas as tentativas de “assassinato” religioso, político e social.

Tal como mandam as regras da Igreja Católica, Gabriel Mbilingui mostrou que a palavra de Deus tem de ser, no nosso país, resgatada no sentido de se comprometer, até mesmo correndo riscos de vida, com aqueles a quem deve contas: o Povo.

Sobram os exemplos de coerência cívica e equidistância política de Gabriel Mbilingui. Com um carisma à prova de bala, resistiu galhardamente às investidas do regime para que mudasse Alves da Rocha, Artur Pestana “Bonavena”, e Vicente Pinto de Andrade da Universidade Católica. Não só os manteve como, com o seu apoio, foi nomeado um novo reitor, vindo do Moxico.

Mas se o Povo está satisfeito, a própria Igreja Católica angolana pode também regozijar-se, mesmo que o faça no segredo do confessionário, em relação a este Homem que foi nomeado por sua santidade o Papa Francisco, como o seu representante para África, coordenando todas as conferências episcopais.

Dom Gabriel Mbilingui sempre foi coerente, não temendo dizer a verdade, preferindo sempre ser salvo pela crítica do que assassinado pelo elogio, uma das especialidades do regime. O Povo bem se lembra de que foi ele quem disse que “é preciso reduzir o fosso entre ricos e paupérrimos”. O regime fingiu não o ouvir. Quis comprá-lo. Mas, é claro, ele não está à venda.

Dom Gabriel Mbilingui, embora saiba que as suas sacerdotais pregações se esvaem como gotas de água no deserto do Namibe, nunca se cansa de dizer as verdades, auspiciando que os responsáveis políticos do país percebam, de uma vez por todas, que quem não vive para servir não serve para viver.

Dom Gabriel Mbilingui reconhece, até porque certamente acredita que, ao contrário do regime, ninguém é dono da verdade, avanços na construção e reabilitação de infra-estruturas para o desenvolvimento do país, mas avisa que há um longo caminho a percorrer. Isto porque, embora às vezes se pense que não, o país tem pessoas dentro. Pessoas que, mesmo com a barriga vazia, sentem e amam o seu país.

Dom Gabriel Mbilingui aponta a injustiça social, manifestada pelo grande fosso entre ricos e pobres e a ausência do aprofundamento da democracia, como males que perigam a Angola pós-independência. O regime, claramente, não vai à missa deste prelado. Mas o Povo vai.

Por cá, temos uns poucos de privilegiados que têm muitos milhões e, é claro, muitos milhões que têm pouco ou nada. Quanto à democracia, apesar de reconhecermos os seus méritos, Dom Gabriel Mbilingui está errado. E está errado porque só se pode aprofundar algo que se tem, algo que exista.

“Esse fosso ainda é muito grande e nós deveríamos unirmo-nos cada vez mais em volta desta questão. Trata-se da sobrevivência do próprio país também. Se nós optamos pelo sistema democrático há que ir a fundo neste sistema democrático, há que respeitar isso porque se não acabarem as injustiças sociais estamos a construir sobre a areia,” diz Dom Gabriel Mbilingui.

É, no entanto, caso para dizer que as vozes dos humanos não chegam ao céu dos que dominam o regime esclavagista que desde 1975 continua a oprimir um Povo, aquele que deveria ser o seu Povo.

Segundo o prelado católico, o país precisa de uma verdadeira instauração da democracia e isso passa pelo reconhecimento e respeito pelas diferenças, do ponto de vista de pensamento e de opinião, factores que qualifica de importantes em processos democráticos.

Dom Gabriel Mbilingui toma como exemplo as propostas partidárias da Oposição que devem ser tidas em conta pelo partido no poder, porque elas representam uma franja importante da sociedade.

“O importante mesmo no sistema democrático não é só reconhecer a existência de alguém que pensa diferente de mim, mas respeitar esta sua opinião, essa sua posição, porque ela corresponde a uma boa parte do cidadão angolano,” diz Dom Gabriel Mbilingui.

No plano internacional, Dom Gabriel Mbilingui também criticou os governantes africanos que pretendem retirar os seus países do Tribunal Penal Internacional (TPI), alegando que o Ocidente visa apenas incriminá-los por corrupção. Sem meias palavras, disse “esperar mais e melhor dos líderes africanos”, considerando que a corrupção é um mal em África que “tem dificultado as vidas de milhões de africanos”.

De acordo com Dom Gabriel Mbilingui, é só por si um crime abandonar o TPI, tribunal que é a instância por excelência também para resolver os crimes de corrupção que, por sua vez, estão umbilicalmente ligados a outros contra a humanidade.

Dom Gabriel Mbilingui reconhece que pode ser mal entendido pelos políticos, mas apontou que a verdade como a única forma de se curarem feridas e se lutar por um país, por um continente, melhor.

Em matéria internacional, a tese de Dom Gabriel Mbilingui é partilhada pelo Bispo Demonsd Tutu que considerou estarem os lideres africanos a oficializarem a morte do povo africano, sobretudo porque enchem os seus bolsos em troca do sofrimento do povo.

Dom Gabriel Mbilingui é visto internacionalmente como alguém que se tem batido pelo bem estar dos povos, nomeadamente dos angolanos, não temendo criticar o regime de José Eduardo dos Santos, curiosamente catalogado por diversas entidades mundiais como dos mais corruptos do mundo.

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