(Ainda) não é o exemplo de Angola. A contestação a Robert Mugabe, velho e querido amigo de sua majestade o rei de Angola, José Eduardo dos Santos, aumenta todos os dias. O Povo do Zimbabué está cansado de multiplicar miséria com miséria.

Por Orlando Castro

Em Fevereiro milhares foram para as ruas. A resposta típica dos manuais das ditaduras não se fez esperar. A polícia deu-lhes forte e feio, lançou o gás lacrimogéneo e disparou tiros para o ar (não se sabe a que distância do chão).

O país atravessa uma grave crise económica desde o início dos anos 2000, e foi feita uma reforma agrária controversa e por vezes violenta que expropriou milhares de agricultores brancos das suas terras – programa que teve como rosto os veteranos de guerra, recorda a Associated Press, acrescentando que a inflação desenfreada levou a que o dólar do Zimbabué se tornasse inútil e desde 2009 que o país não tem moeda própria. A situação foi agravada este ano com uma enorme seca.

No meio de manifestações, a 6 de Julho, Zivanai Muzorodzi, porta-voz de uma associação de defesa dos direitos humanos em Masvingo, comentava à AFP: “Isto mostra que as pessoas não confiam no Governo. O Presidente prometeu empregos mas em vez disso as pessoas perdem o trabalho e vão para a cama de barriga vazia”, acusou. Os protestos são “um sinal da queda da economia. As pessoas já não têm nada a perder”.

Dumisani Nkomo, porta-voz da Coligação Contra a Crise no Zimbabué, afirma que o país, onde 90% da população não tem emprego formal, “está a caminho de um ponto de não retorno e os cidadãos querem manifestar o seu mal estar através de todos os meios”.

Robert Mugabe responde dizendo que quem não está contente com a situação no Zimbabué vá para fora.

Foi isso que disse directamente a Evan Mawarire, um pastor de uma pequena congregação em Harare, a capital, que acusa de estar na origem da greve nacional. Mawarire reuniu milhares de apoios de cidadãos descontentes. O Guardian comentou que a sua iniciativa marcou um momento de viragem, tornando a contestação imparável nas redes sociais. Foi detido na semana passada e libertado depois de o tribunal retirar as queixas de subversão que lhe tinham sido lançadas.

O Presidente, de 92 anos, já tornou claro que tenciona voltar a candidatar-se em 2018 e continuar a governar. A sua mulher, Grace Mugabe (também chamada de “Gucci Grace” devido aos seus gastos extravagantes) chegou a ser falada como possível sucessora. Mas em Março, o líder informou que não iria designar ninguém para o papel. Será ele mesmo a ocupar o cargo, até morrer. Robert Mugabe acredita (e não é o único) que é eterno.

Angola está na… calha

Nos últimos anos alguns ditadores (ainda há muitos por aí) começaram a cair ou a ser… “suicidados”. O mundo dito (nem sempre é verdade, mas…) democrático começou imediatamente a gerar outros e a aguentar alguns que ainda não passaram de bestiais a bestas.

No caso de Angola, sua majestade o rei, José Eduardo dos Santos (no poder desde 1979 sem ter sido nominalmente eleito), necessita de rever com urgência os seus ideais, princípios e práticas, apesar de estarem ainda de acordo com o barómetro internacional dos ditadores bons.

De facto, o governo angolano do MPLA, no poder há 40 anos, não tem tido vontade, embora tenha os meios, para resolver os problemas de água, luz, lixo, saúde, trabalho e educação. A juventude não tem casa, não tem educação, emprego e não tem futuro. Os trabalhadores têm salários em atraso e não conseguem obter crédito bancário.

Esses são, contudo, problemas internos que não alteram a posição de José Eduardo dos Santos no ranking dos ditadores amigos do Ocidente. Tão amigo que continua a ser considerado um estadista de elevada envergadura por países como a Coreia do Norte, EUA, Zimbabué, Portugal, Cuba e Guiné Equatorial.

E não alteram o ranking porque coisas tão banais como casa, saúde, educação, comida, não são preocupações essenciais para os que vêm a Angola sacar a única coisa que lhes interessa e que é regra de ouro para uma boa qualificação entre os ditadores bestiais, as nossas riquezas.

Estar 37 anos no poder, com o poder absoluto que tem nas mãos (é além de presidente da República é também líder do MPLA e Titular do Poder Executivo), faz de José Eduardo dos Santos um dos ditadores (democrata segundo a terminologia do seu amigo Robert Mugabe) há mais tempo em exercício.

O facto de não ser caso único, nomeadamente em África, em nada abona a seu favor. Sabe todo o mundo, mas sobretudo e mais uma vez África, que se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. É o caso em Angola. Mas ninguém se preocupa com isso. Por enquanto, é óbvio.

Só em ditadura, mesmo que legitimada pelos votos comprados a um povo que quase sempre pensa com a barriga (vazia) e não com a cabeça, é possível estar tantos anos no poder. Em qualquer estado de direito democrático tal não seria possível.

Aliás, e Angola não foge infelizmente à regra, África é um alfobre constante e habitual de conflitos armados porque a falta de democraticidade obriga a que a alternância política seja conquistada pela linguagem das armas ou por manifestações de grande violência. Para se manter no Poder, recorde-se, Agostinho Neto mandou assassinar muitos milhares de angolanos no conhecido massacre do 27 de Maio de 1977. Há obviamente outras razões, mas quando se julga que eleições são só por si sinónimo de democracia está-se a caminhar para a ditadura.

Com Eduardo dos Santos passa-se exactamente isso. A guerra legitimou tudo o que se consegue imaginar de mau. Permitiu ao actual presidente perpetuar-se no poder, tal como permitiu que a UNITA dissesse que a guerra era (e pelo que se vai vendo até parece que teve razão) a única via para mudar de dono do país.

É claro que, é sempre assim nas ditaduras, o povo foi sempre e continua a ser (as eleições não alteraram a génese da ditadura, apenas a maquilharam) carne para canhão.

Por outro lado, a típica hipocrisia das grandes potências ocidentais, nomeadamente EUA e União Europeia, ajudou a dotar José Eduardo dos Santos com o rótulo de grande estadista. Rótulo que não corresponde ao produto. Essa opção estratégica de norte-americanos e europeus tem, reconheça-se, razão de ser sobretudo no âmbito económico.

É muito mais fácil negociar com um regime ditatorial do que com um que seja democrático. É muito mais fácil negociar com alguém que, à partida, se sabe que irá estar na cadeira do poder durante toda a vida, do que com alguém que pode ao fim de um par de anos ser substituído pela livre escolha popular.

É, como acontece com José Eduardo dos Santos, muito mais fácil negociar com o líder de um clã que representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto, do que com alguém que não seja dono do país mas apenas, como acontece nas democracias, representante temporário do povo soberano.

Reconheça-se, entretanto, a estatura política de José Eduardo dos Santos, visível sobretudo a partir do momento em que deixou de poder contar com Jonas Savimbi como o bode expiatório para tudo o que de mal se passava em Angola.

Desde 2002, o presidente vitalício (ao que parece) de Angola tem conseguido fingir que democratiza o país e, mais do que isso, conseguiu (embora não por mérito seu mas, isso sim, por demérito da UNITA) domesticar completamente todos aqueles que lhe poderiam fazer frente.

A excepção surgiu recentemente devido à inteligência e coragem de meia dúzia de jovens que, com risco da própria vida, teimam em pensar pela própria cabeça. Sabem que isso significa – na linguagem do regime – rebelião e tentativa de golpe de Estado mas, mesmo assim, arriscam.

Não se crê que, até pelo facto de o país ter estado em guerra dezenas de anos, José Eduardo dos Santos tenha as mãos limpas de sangue. Aliás, nenhum ditador com 37 anos de permanência seguida no poder, tem as mãos limpas.

Mas essa também não é uma preocupação. Quando se tem milhões, pouco importa como estão as mãos. Aliás, esses milhões servem também para branquear, para limpar, para transplantar, para comprar (quase) tudo e (quase) todos.

Tudo isto é possível com alguma facilidade quando se é dono de um país rico e, dessa forma, se consegue tudo o que se quer. E quando aparecem pessoas que não estão à venda mas incomodam e ameaçam o trono, há sempre forma de as fazer chocar com uma bala.

Acresce, e nisso os angolanos não são diferentes de qualquer outro povo, que continua válida a tese de que “se não consegues vencê-los junta-te a eles”. Não admira por isso que o MPLA tenha, segundo as suas contas, quase tantos simpatizantes como cidadãos tem o país.

É claro que, enquanto isso, o Povo continua a ser gerado com fome, a nascer com fome, e a morrer pouco depois… com fome. E a fome, a miséria, as doenças, as assimetrias sociais são chagas imputáveis ao Poder. E quem está no poder há 37 é sempre o mesmo, José Eduardo dos Santos.

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