O bureau político do MPLA (partido que “só” está no poder em Angola desde 1975) criticou hoje duramente o lançamento em Portugal de um livro sobre aquele partido e o primeiro Presidente angolano, Agostinho Neto, queixando-se de uma nova “campanha de desinformação”. Depois de estrebuchar chegou a fase do estertor.

Por Orlando Castro

Em causa está o livro “Agostinho Neto – O Perfil de um Ditador – A História do MPLA em Carne Viva”, do historiador luso-angolano Carlos Pacheco, lançado publicamente em Lisboa a 5 de Julho, visado no comunicado daquele órgão do Comité Central do partido no poder em Angola desde 1975.

“A República de Angola está a ser vítima, mais uma vez, de uma campanha de desinformação, na qual são visadas, de forma repugnante, figuras muito importantes da Luta de Libertação Nacional, particularmente o saudoso camarada Presidente Agostinho Neto”, lê-se no comunicado enviado do bureau político do MPLA.

Comunicado que, como tudo no país, foi aprovado pelo Presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos, pelo Titular do Poder Executivo, José Eduardo dos Santos, pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, e por sua majestade o rei, José Eduardo dos Santos.

O autor do livro, que o MPLA recorda tratar-se de “um ex-comando do exército colonial, que fazia discursos elogiosos no Palácio do Governador colonialista” é ainda classificado como um “crónico saudosista do colonialismo português”.

Quase parecia que o MPLA estava a falar de Manuel Pedro Pacavira, histórico membro do seu Comité Central, que foi Ministro da Agricultura e dos Transportes, representante de Angola na ONU, Governador do Kwanza Norte, embaixador de Angola em Cuba e em Itália. Antes de tudo isso foi colaborador da PIDE, como consta da folha 84 do Processo Crime nº 554/66 existente na Torre do Tombo, em Lisboa.

Mas voltemos ao incólume, sublime e puro comunicado do MPLA sobre Carlos Pacheco. “Depositou todo o seu fel, inconformado, como sempre esteve, com as vitórias do MPLA e do povo angolano, em todas as batalhas que garantiram a conquista da soberania nacional e da paz definitiva em Angola”, acusa o partido, liderado desde a morte de Agostinho Neto, em Setembro de 1979, por José Eduardo dos Santos, igualmente chefe de Estado… nunca nominalmente eleito.

No lançamento do livro, Carlos Pacheco explicou que a obra é o resultado de uma década de investigação histórica e que “desmistifica” a “glória” atribuída ao homem que conduziu os destinos do movimento que lutou pela libertação do jugo colonial português em Angola (1961/74).

Publicado pela editora Nova Veja, o livro dá ainda conta de casos de corrupção, indisciplina e dissidência, de casos de comportamento hostil de chefes guerrilheiros contra as populações nas matas, referindo a morte de civis, roubos das produções agrícolas, raptos e violações de mulheres.

“É bastante sintomático que, ao longo de mais de mil páginas, onde destila o seu veneno, as pessoas mais visadas já não façam parte do Mundo dos vivos, como Agostinho Neto, Lúcio Lara e ‘Iko’ Carreira, num acto de cobardia sem tamanho – pois que estes já não podem defender-se -, deixando habilmente de fora protagonistas da época, ainda em vida”, escreve, por seu turno, o bureau político do MPLA.

Não diz o MPLA mas dizemos nós. É um pouco à semelhança dos milhares de mortos do 27 de Maio de 1977, que sendo vítimas de Agostinho Neto também não se podem manifestar.

O partido aponta ainda o “intuito de desacreditar Angola e o seu executivo” com esta publicação, “que privilegiou, na sua pesquisa, os arquivos da PIDE/DGS”, a antiga polícia política do regime ditatorial português.

Nisto tem razão. Se Carlos Pacheco se tivesse baseado nos aquivos do MPLA/Neto, certamente que a história seria diferente. Tal como quando se fala de corrupção, se se auscultar o clã se sua majestade o rei a resultado será de que não existe corrupção em Angola.

O bureau político do Comité Central do partido diz ainda que “repudia, veementemente, a forma caluniosa e insultuosa como é tratado o maior Herói da Luta de Libertação Nacional”, Agostinho Neto, e “deplora a tentativa de rebaixamento do MPLA ao nível de outros movimentos, cuja postura sanguinária e assassina é por demais conhecida e que os verdadeiros historiadores facilmente comprovarão nas suas pesquisas”.

Modéstia a do MPLA. Agostinho Neto não foi apenas um herói nacional. Foi também herói em África e em todos os outros continentes, devendo-se a ele – entre tantas outras coisas – a eliminação da escravatura em Portugal, a derrota de Hitler, os êxitos de Cristóvão Colombo e a teoria da relatividade.

“Carlos Pacheco pode, até, ter os seus delírios, mas chamar os patriotas angolanos de ‘bando de Neto’ e dizer que foram para a luta por ‘motivações materiais’ é um insulto a todo um povo, a todos os que perderam a vida pela Pátria, muitos dos quais tinham abandonado as universidades, na Europa e na América, para se juntarem a ela”, lê-se no comunicado.

Dividido em dois volumes e com um total de 1.470 páginas, profusamente ilustrado e com mapas e centenas de notas com referência bibliográficas, o livro aborda ainda o “trágico” e polémico “27 de Maio” de 1977, uma alegada tentativa de golpe de Estado contra o regime de Agostinho Neto que se saldou na morte de Nito Alves e de muitos milhares de angolanos do MPLA, uma das até então mais proeminentes figuras da ala dura do MPLA.

Os sipaios já tinham grunhido

Já antes desta posição oficial, o MPLA mandou um dos seus sipaios para todo o serviço grunhir contra Carlos Pacheco. Foi o caso de Luandino Carvalho.

Como esperado, este Carvalho que não é (embora gostasse de ser) Luvualu, apresentou logo no início de Julho a argumentação elaborada pelo MPLA, num verdadeiro arrazoado anti-português e ofensivo da inteligência dos próprios angolanos, típico de quem quer passar a mensagem de que nunca viveu nas copas as árvores.

O texto deste Carvalho, que não é (embora gostasse de ser) Luvualu, publicado no Pravda do regime, é um reservatório putrefacto de todo o ódio acumulado pelos saudosos do partido único, pelos acéfalos defensores de que o MPLA é Angola e Angola é o MPLA. Inconformado com a mudança dos tempos, ciente de que a escravatura em Angola tende a acabar, certo que haveremos de conquistar a alforria, o plástico artista teimava em querer-nos provar que, no caso, foi Agostinho Neto quem descobriu a roda.

O plástico artista, que não é (embora gostasse de ser) Luvualu, tortura – ou não fosse apologista da escravatura – os factos históricos, espezinha a verdade, mata a probidade e estrangula a independência intelectual e principalmente a nossa angolanidade, metamorfoseando-se de intelectualóide de gestação espontânea, não vá alguém dizer que o que sabe aprendeu com os seus inimigos portugueses. Como plástico artista, não se inibe de dar conselhos aos historiadores, “em especial” aos que são e/ou se dizem angolanos. Estes em particular deveriam saber que se os rios correm para a foz é porque tal foi determinado por Agostinho Neto.

Sobre o livro de Carlos Pacheco, o plástico artista que é Carvalho mas não é (embora gostasse de ser) Luvualu, diz que ele “serve de lenitivo aos órfãos do paraíso colonial e conforta os saudosos do império português”. Alguns desses órfãos e saudosos do império, que os há de facto, ensinaram o Carvalhinho a contar até 12 sem ter de se descalçar. Mas, é claro, essas são outras histórias.

Mostrando ser perito na matéria inorgânica em que vegeta, o plástico artista que é Carvalho mas não é (embora gostasse de ser) Luvualu, diz que Carlos Pacheco “esconde aspectos essenciais da ideologia de quem cita e faz pior: retira do contexto frases dos citados, para desta forma ardilosa e cobarde confirmar a sua tese que tresanda ao lado mais sórdido e repugnante dos séculos de dominação colonial”.

O Carvalhinho não sabe mais e, por isso, mesmo com ajuda dos restante sipaios e de um ou outro chefe de posto amigo, alinha uma série de ideias de plástico, mostrando que para ele tanto faz dormir com o José Maria como com a Maria José, é igual conhecer o corredor de fundo como o fundo do corredor. Faz lembrar aquele outro Carvalho, no caso Luvualu, que se julga pintor só porque conhece as cores do arco-íris.

Carlos Pacheco escreve que “à luz de centenas de comportamentos que estudei, persuado-me hoje não terem sido poucos os revolucionários do bando de Neto, bem como de outras formações insurrectas, que abraçaram a luta separatista movidos antes de tudo por necessidades materiais e não por ideais”.

Aqui o Carvalho (neste caso Luandino) sentiu-se violado na sua mais íntima intimidade. Sendo ele um idealista que também só se move pelos bens materiais, viu-se englobado (e bem) no bando de Neto. E isso não perdoa. Se há verdades que doem, estas que Carlos Pacheco relata no seu livro pura e simplesmente arrasam e matam.

Diz o plástico artista que “os guerrilheiros e militantes do MPLA sofreram ao longo dos anos da luta armada, provações e privações, arriscaram a vida e a liberdade, muitos morreram no terreno da luta ou nas masmorras dos colonialistas”. É verdade. Mas, mais uma vez, o Carvalhinho confunde o poder das ideias com as suas ideias de poder. Não é a esses que o Carlos Pacheco se refere. Ele refere-se aos “pacaviras” que eram idealistas abastecidos pela PIDE.

Visivelmente afectado pelos etílicos vapores do plástico, o Carvalho, que não é (embora gostasse de ser) Luvualu, garante que “Agostinho Neto foi um dos mais empenhados construtores da angolanidade no seio do Movimento Vamos Descobrir Angola”, explicando que “foi ele que pôs na agenda os valores e os princípios dos intelectuais que 50 anos antes protagonizaram A Voz de Angola Clamando no Deserto”.

Tem razão. Corroboramos, em abono da verdade, que foi graças a Agostinho Neto que Portugal aboliu a escravatura, que os rios começaram a correr para o mar, que o homem foi à Lua e que os europeus deixaram de viver na pré-história.

E não. Agostinho Neto nunca foi um ditador. Sobretudo depois de morto. Supostamente, segundo Carvalho que não é (embora gostasse de ser) Luvualu, Neto “foi eleito líder do MPLA pelos seus pares do Comité Director, quando uma facção defendia que o movimento devia fundir-se na UPA e os brancos e mestiços não podiam participar na luta armada. Neto triunfou! O líder de uma organização revolucionária que luta pela libertação do seu povo, não pode ser ditador. O libertador pode ser tudo, menos ditador!”

“Parem todas as máquinas”, gritou o Director do jornal The New York Times ao saber destas afirmações de Carvalho que não é (embora gostasse de ser) Luvualu. “Isto tem de ser Manchete”, gritou alguém. Talvez tenha sido Mark Thompson.

O plástico artista recorda – não vá alguém esquecer-se – que Agostinho Neto foi o primeiro Presidente de Angola, que assumiu as funções em 11 de Novembro de 1975.

Isto foi o aperitivo. Logo a seguir o empregado de mesa, artista plástico, escreve que “um ano e meio depois, em 27 de Maio de 1977, os amigos” de Carlos Pacheco “tentaram um golpe de Estado contra o líder. Perderam. Em pouco mais de um ano, ninguém consegue ser ditador. Pouco mais de dois anos depois, Neto faleceu. Um Chefe de Estado que está quatro anos no poder e tem de lutar contra exércitos invasores e matilhas de mercenários, não tem tempo para ser ditador”.

Aliás, só mesmo um democrata, idealista, defensor dos direitos humanos e dos angolanos como era Agostinho Neto poderia ter ordenado – nesse 27 de Maio de 1977 – o massacre de milhares e milhares de angolanos, na sua esmagadora maioria militantes e simpatizantes do MPLA. Nenhum ditador seria capaz de tal façanha.

Seja como for, Carvalho, que não é (embora gostasse de ser) Luvualu, deve ser – por estas e muitas outras chafurdices no seu meio natural – compensado, recompensado e o mais que se entender, pelo regime. É que o tempo urge. Um dia destes Angola será uma democracia e um Estado de Direito. Nessa altura já será tarde para reconhecer as capacidades hermafroditas deste plástico artista.

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