O presidente do MPLA escolheu a sua equipa e ela aí está. Para queimar ou enaltecer consoante o desenrolar da vida política angolana. Dois generais na reforma, João Lourenço e Paulo Kassoma, vão ser os supostos siameses que vão ajudar José Eduardo dos Santos a perpetuar-se no poder, directa ou indirectamente.

O general e actual ministro da Defesa, João Lourenço, é a partir de agora o novo vice-presidente do MPLA enquanto que o engenheiro Paulo Kassoma é o secretário-geral.

À excepção do antigo secretário-geral, Dino Matrosse, a substituição de Roberto de Almeida, do cargo de vice-presidente, resulta de um pedido pessoal feito há um ano ao presidente do partido.

Num discurso interno reportado pela imprensa do regime, na primeira reunião do Comité Central, eleito na semana passada, o presidente vitalício José Eduardo dos Santos é citado como tendo afirmado que o Bureau Político eleito e o Comité Central terão a tarefa de elaborar proximamente a lista de candidatos a deputados às eleições marcadas para o próximo ano.

Contrariando o que era visto como uma ténue abertura democrática interna, não deverá haver um encontro alargado com a finalidade de aprovar a lista de deputados.

O também Presidente da República, no poder desde 1979 sem nunca ter sido nominalmente eleito (e assim vai continuar a ser), já anunciou que em 2018 irá retirar-se da vida política activa havendo agora uma grande expectativa sobre se o estadista angolano voltará a concorrer.

José Eduardo dos Santos terá dito na reunião do seu Estado-Maior que mais do que congregar o apoio em torno da figura do líder do partido, o importante é juntar todos militantes à volta de um programa político e económico e assegurar a sua execução. A tentativa de afastar o culto ao chefe, bem visível no congresso, é vista como um expediente para ser “vendido” às comunidade internacional.

João Lourenço? Versão 2 de Dos Santos

Enquanto ministro da Defesa, João Lourenço, recusou no dia 17 de Setembro de 2015, as acusações sobre violação dos direitos humanos no país, recordando que os angolanos sentiram essas violações durante 500 anos de colonialismo português.

João Lourenço não precisava de ir tão longe. Bastava-lhe recordar o 27 de Maio de…1977.

Nesse diz o agora vice-presidente do MPLA discursava em Ondjiva, capital da província do Cunene, ao presidir ao acto solene das comemorações do dia do Herói Nacional do MPLA, feriado alusivo ao nascimento do primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, referindo-se assim às críticas sobre violação de liberdades e direitos humanos, numa resolução aprovada pelo Parlamento Europeu.

“Nós, que ao longo de séculos, viemos lutando contra a violação dos direitos humanos, vocês aceitam que hoje nos queiram acusar de estarmos a violar os direitos humanos? Não, porque temos plena consciência que os que nos acusam não têm moral para nos vir dar aulas sobre esta matéria, que muito bem conhecemos”, começou por apontar João Lourenço.

“Violação dos direitos humanos foi o colonialismo. Violação dos direitos humanos foi a escravatura que durou não escassos dias, nem meses, nem anos, mas sim séculos eternos. Isso sim é que foi a verdadeira violação dos nossos direitos”, enfatizou o agora vice do MPLA, que discursava em representação do Presidente José Eduardo dos Santos. Esqueceu-se, igualmente, de lembrar que Portugal foi o primeiro país a abolir a escravatura que, contudo, regressou ao nosso país pela mão do MPLA em 11 de Novembro de 1975.

O Parlamento Europeu tinha na altura aprovado uma resolução sobre as “tentativas incessantes” das autoridades angolanas para limitar as liberdades de expressão, de imprensa e de reunião pacífica e de associação.

Aprovada em sessão plenária, em Estrasburgo, com 550 votos a favor, 14 contra e 60 abstenções, a resolução, além das limitações de liberdades, notou o nível de corrupção e as deficiências no sistema anti-branqueamento de capitais em Angola.

Saberá João Lourenço que esses 550 votos a favor não foram só de eurodeputados portugueses?

Autora de um relatório sobre a matéria, que serviu para suportar a resolução, Ana Gomes (do PS, partido irmão do MPLA na Internacional Socialista) citou os vários casos e a sua visita em Julho ao território para notar as crescentes “tensões sociais” por causa da crise económica e corrupção e como “povo angolano está cada vez indignado perante a pilhagem de recursos pela elite”.

“Sabemos bem o que é violar os direitos humanos. Não como resultado de uma visita fortuita de alguns dias que alguém faz a um país, onde até beneficia da tradicional hospitalidade africana, mas porque sentimo-la na carne e na alma, nos campos de algodão, nos campos de café, nas prisões ou nos porões navios negreiros para onde eramos empurrados que nem gado. Isso sim é violação dos direitos humanos”, criticou João Lourenço, aludindo à visita de Ana Gomes.

Pois é. E há 40 anos que os portugueses não mandam no nosso país. Então como estão as coisas, senhor vice-presidente do MPLA? É. Continuamos a ter escravos. Os colonialistas deixaram de ser os portugueses e passaram a ser os seus amigos. O nosso povo continua, ou se calhar nem isso, a ter panos ruins, peixe podre, fuba podre e a levar porrada quando refilam.

Mencionando casos de jornalistas e activistas de direitos humanos, o PE manifestou a sua “profunda preocupação com o rápido agravamento da situação em termos de direitos humanos, liberdades fundamentais e espaço democrático em Angola, com os graves abusos por parte das forças de segurança e a falta de independência do sistema judicial”.

“Violação dos direitos humanos é a forma como alguns países da União Europeia, não são todos, estão a tratar ainda hoje os refugiados emigrantes de países do Médio Oriente e de África, que eles mesmo desestabilizaram. Esquecendo-se que também foram emigrantes um dia, tal como estes a que tratam mal”, retorquiu o então ministro da Defesa, aludindo à crise de milhares de refugiados que chegam à Europa.

Já agora, senhor vice-presidente do MPLA, como é que o governo do MPLA trata, internamente, os angolanos? Sabemos que são angolanos de segunda categoria, mas são angolanos. São refugiados, são migrantes na sua própria terra.

Por isso mesmo, diz João Lourenço, basta ver as imagens dos refugiados que tentam cruzar as fronteiras europeias e a forma como são tratados para responder à pergunta “quem viola os direitos humanos”. “A resposta está nessas imagens”, atirou.

Nós, senhor vice-presidente do MPLA, também temos por cá muitas dessas imagens. Imagens com a sua Polícia a descarregar violência não sobre emigrantes mas sobre o seu próprio povo. E não temos mais imagens porque, ao contrário desses países europeus, o seu governo impede os jornalistas de exercerem a sua função.

João Lourenço por João Lourenço

O novo vice-presidente do MPLA foi escolhido com 351 votos do Comité Central a favor e 4 contra, 98,9%. Por sua vez o novo secretário-geral, Paulo Kassoma, teve 353 votos a favor e 2 contra, 99,4%.

João Lourenço nasceu no Lobito foi secretário-geral do MPLA no período 1998/2003.

João Manuel Gonçalves Lourenço: Data de nascimento: 5 Março 1954 (62 anos); Local nascimento: Lobito. Filho de Sequeira João Lourenço natural de Malange e de Josefa Gonçalves Cipriano Lourenço natural do Namibe, enfermeiro e costureira, ambos já falecidos.

Habilitações Literárias: Licenciado em História.

Cargos Exercidos:

1984 – 1987 1º Secretário do Comité Provincial do Partido e Governador Provincial do Moxico
1987 – 1990 1º Secretário do Comité Provincial do Partido e Governador Provincial de Benguela
1984 – 1992 Deputado a Assembleia do Povo
1990 – 1992 Chefe da Direcção Politica Nacional das FAPLA
1992 – 1997 Secretário da Informação do MPLA
1993 — 1998 Presidente do Grupo Parlamentar do MPLA
1998 – 2003 Secretário-geral do MPLA
1998 – 2003 Presidente da Comissão Constitucional Membro da Comissão Permanente Presidente da Bancada Parlamentar
2003 – 2014 1º Vice-presidente da Assembleia Nacional

João Manuel Gonçalves Lourenço diz:

“Fiz os meus estudos primários e secundários na província do Bié, onde meu pai se encontrava na situação de residência vigiada por 10 anos após ter estado preso por 3 anos na prisão de São Paulo em Luanda, pelo exercício de actividade política clandestina enquanto enfermeiro do Porto do Lobito.

Dei continuidade aos estudos em Luanda no então Instituto Industrial de Luanda.

Após a queda do regime fascista em Portugal, na companhia de outros jovens, juntei-me à luta de libertação nacional em Ponta Negra em Agosto de 1974 no CIR Kalunga. Integrei o primeiro grupo de combatentes que entraram em território nacional via Miconge-Belize-Buco Zau-Dinge-Cabinda.

Em vésperas da Independência, participamos dos combates na fronteira do N’Tó/Yema contra a coligação FNLA/Exército Zairense que derrotamos e a partir do morro do Tchizo em Cabinda contra a unidade da FNLA que se encontrava nas margens do rio Lucola à entrada da cidade.

Tenho formação em artilharia pesada, exerci funções de Comissário Político em diversos escalões, desde pelotão, companhia, batalhão, brigada e comissário da 2ª Região Político-Militar Cabinda, entre 1977/78.

Enviado para então União Soviética de 1978 a 1982 na Academia Superior Lénine de onde para além da formação militar trouxe o título de Master em Ciências Históricas.

De 1982 a 1983, participei nas operações militares no centro do país, Kwanza Sul, Huambo, e Bié com posto de comando no Huambo.

De 1983 a 1986, desempenhei as funções de Comissário Provincial do Moxico e Presidente do Conselho Militar Regional da 3ª Região Político Militar.

De 1986 a 1989, desempenhei as funções 1º Secretário do Partido e de Comissário Provincial de Benguela.

De 1989 a 1990 desempenhei as funções de Chefe da Direção Política Nacional das FAPLA, em substituição do General Francisco Magalhães Paiva N’Vunda nomeado Ministro do Interior.

De 1991 a 1998 desempenhei as funções de Secretário do Bureau Político para a Informação, de Secretário do Bureau Político para a Esfera Económica por um curto período, de Chefe da Bancada Parlamentar.

De 1998 a 2003 desempenhei as funções de Secretário Geral do MPLA e de Presidente da Comissão Constitucional.

De 2003 a Abril de 2014, desempenhei as funções de 1º Vice Presidente da Assembleia Nacional. Sou membro do Bureau Político do Comité Central do Partido e General de 3 estrelas na reserva.

Sou casado com Ana Afonso Dias Lourenço e pai de 6 filhos.

Pratiquei futebol e karaté estilo Shotokan, tenho como passatempo a leitura, o xadrez, e equitação. Para além do português, falo inglês, russo e espanhol”.

Paulo Kassoma

António Paulo Kassoma nasceu em Rangel, Luanda, a 6 de Junho de 1951, é formado em Engenharia Electromecânica.
Foi, entre outras funções, instrutor de técnica militar entre 1975/76, director técnico da Base Central de Reparações (BCR), entre 1976 a 1978, Vice-Ministro da Defesa para o Armamento e Técnica, entre 1978 a 1979, Vice-Ministro dos Transportes e Comunicações (1988/89), ministro dos Transportes e Comunicações entre 1989/90 e Ministro da Administração do Território, 1991/92.

Em Maio de 1997, foi nomeado Governador da Província do Huambo, onde exerceu estas funções até Setembro de 2008. É oficial superior, na reserva, das Forças Armadas.
Em Setembro de 2008 foi nomeado 1º ministro do Governo angolano, depois das eleições legislativas ganhas pelo MPLA.

No dia 9 de Fevereiro de 2010, foi eleito Presidente da Assembleia Nacional de Angola, no âmbito da Constituição aprovada em 21 de Janeiro de 2010.

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