Um grupo privado angolano vai investir quase 1,4 milhões de euros para instalar na província do Cuanza Norte uma fábrica de produção de derivados de tomate, inclusive ketchup. Vinte milhões de angolanos já rejubilam.

Por Orlando Castro

Boas notícias. Certamente que os 20 milhões de pobres do nosso país vão ficar radiantes. Só falta agora provar que mandioca (quando a há) com ketchup é uma iguaria digna de constar dos mais sofisticados manuais da alta culinária.

A Welthungerhilfe, prestigiada organização alemã, anunciou no passado dia 11 de Outubro, em Berlim, o seu Índice Global da Fome 2016. Angola, ainda – é claro – sem os resultados da produção de ketchup (esta só acontecerá em 2018), é país em pior situação no âmbito dos PALOP – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

E enquanto não chega o ketchup, registe-se que Angola situa-se, numa escala mundial, entre a Etiópia e o Djibouti, e bastante abaixo do Zimbabué e da Guiné-Bissau.

Será que a enormidade de países que estão acima de Angola já produzem este molho de origem chinesa, introduzido no Ocidente através da Malásia, onde o ingrediente principal era o cogumelo? Ou terão optado pelo ketchup “mede ia USA” que utiliza o tomate para temperar pratos de fast-food tais como hambúrgueres e batatas fritas?

Angola é o país do mundo com o maior índice de mortalidade infantil. Isto, é claro, antes de começarmos a produzir ketchup que, como todos sabemos, vai tornar mais saborosos os restos de comida retirados das lixeiras, ou os doados pela princesa herdeira do trono, Isabel dos Santos, e colocados estrategicamente nas caixotes do lixo dos “Candandos” do reino.

Imaginemos o que o ketchup pode fazer na sua luta contra a fome no nosso país. Importa realçar, por isso, o valor nutricional do produto, mesmo que não esteja associado a um pedaço de pão com 15 dias, ou uma putrefacta coxa de frango.

A fábrica agora anunciada será instalada no pólo industrial de Lucala, no município do Cuanza Norte, e beneficiará de incentivos fiscais ao abrigo do contrato de investimento privado rubricado com o Estado, nomeadamente a redução em 70% do pagamento de vários impostos, durante oito anos.

O início da actividade desta fábrica está previsto para Janeiro de 2018, após um investimento estimado pelo grupo Intensity de 1,496 milhões de dólares e a criação, inicial, de mais de uma dezena de postos de trabalho qualificados.

Digamos, em abono da verdade, que é mais uma prova do esforço divino (como dizem os seus acólitos) de José Eduardo dos Santos para colocar o país no top da civilização. Isto porque, de facto, um país que tem 20 milhões de pobres e não tem uma fabrica de ketchup não é propriamente um país… civilizado.

Para a eventualidade de algum leitor só agora ter chegado a este mundo, recorde-se que José Eduardo dos Santos é o presidente de Angola desde 1979, sem nunca ter sido nominalmente eleito. Ao que consta, não será candidato nas próximas eleições previstas para 2017. Esperemos, contudo, que no gesto da mais elementar justiça, o grupo Intensity baptize o novo produto com o nome “Ketchup Dos Santos”.

Consta (o que é mentira, como se sabe) que muitos angolanos (muitos mesmo) vivem na miséria e raramente sabem o que é uma refeição. Poderão, no entanto, fazer incursões ao Candando, ou melhor, aos caixotes do lixo do Candando e lá encontrar restos quase novos de comida. Depois é só comprar ketchup e… zás! Está a refeição feita.

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