A cidade do Huambo comemora hoje, quarta-feira, 104 anos desde a sua fundação, pelo então governador-geral de Angola, general José Mendes Ribeiro Norton de Matos.

O nome da urbe se deve ao mítico caçador Huambo Calunga, oriundo do Cuanza Sul, que habitava na localidade de Muangunja, no município da Caála.

Contrariamente ao que muitas fontes históricas sustentam, não foi este caçador quem fundou a cidade do Huambo, mas sim o general Norton de Matos.

Logo após a sua fundação, a cidade do Huambo deu um grande impulso para a vida social e económica, principalmente no ramo do comércio, indústria, agricultura, pecuária e construção de infra-estruturas sociais, cujos efeitos positivos e significativos para o desenvolvimento da província tornaram-na numa referência nacional em diversos domínios da vida.

Em 1928, período em que Vicente Ferreira foi governador-geral de Angola, a cidade do Huambo, de acordo com a “Carta Orgânica de Angola”, Título I, foi proposta a capital do país, além de a terem atribuído a designação de Nova Lisboa, em homenagem à cidade de Lisboa, capital de Portugal. Vigorou o nome, mas a capitalidade não vingou por várias razões.

Reza a história que a planta da cidade do Huambo foi feita um ano depois da sua inauguração, em 1913. A política estabelecida por Norton de Matos, enquanto governador-geral de Angola, preconizava o desenvolvimento do interior, enquadrando-se aí a criação da cidade do Huambo.

Este governante, aliás, não se limitou a criar a cidade, mas também procurou desenvolvê-la ao máximo, com diversas medidas posteriores, como a concessão de terrenos a empresas comerciais, a instalação de uma câmara municipal, de escolas, de uma delegação da fazenda e a criação de uma granja agrícola experimental e um posto pecuário de observação e tratamento de gados.

Davam-se, assim, os primeiros passos importantes para o desenvolvimento daquela que, em poucos anos, se transformaria na segunda cidade de Angola, num centro de formação civil e militar importantíssimo e numa urbe possuidora do segundo parque industrial do país.

Etapas vividas pela cidade

S ituada na região centro-oeste, no planalto central angolano, a cidade do Huambo pode ser considerada como a que mais cresceu durante o período colonial, depois de Luanda. Daí a intenção, sempre manifestada oficialmente pelos colonizadores portugueses, de promover esta imponente urbe, caracterizada por uma configuração arquitectónica moderna marcada por prédios de grande porte, ruas e avenidas largas e extensas, uma rede comercial invejável e um sistema de ensino à medida das pretensões dos seus habitantes.

A cidade do Huambo, fruto dos passos que estão a ser dados rumo ao progresso e à prosperidade que a caracterizaram até 1975, está transformada em “terra de recomeço”-

Nesta fase de “recomeço”, todas as amarguras provocadas pela guerra e o lamento dos habitantes do Huambo foram lançados para fora e a província já se tornou, nos dias que correm, num lugar em que as populações vivem em condições mais dignas e se orgulham dela.

Para destacar algumas realizações, três novas centralidades foram erguidas nos municípios do Huambo, Caála e Bailundo, perfazendo 13.600 residências do tipo T3 e T4. Nos restantes oito municípios, foram erguidas 200 casas para cada circunscrição, além da edificação de outras para antigos combatentes, ex-refugiados e cidadãos desfavorecidos, no âmbito da aposta do Governo, centrada na melhoria da condição social das famílias, através da atribuição de habitações mais condignas.

Da escuridão despontou luz da barragem hidroeléctrica do Gove, inaugurada em 2012 pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, para iluminar as cidades do Huambo, Caála e do Cuito (província do Bié), antes alimentadas precariamente, por sistemas térmicos. As obras de construção da barragem do Gove iniciaram-se em plena época colonial, em 1969, e foram interrompidas em 1975 devido ao início da guerra civil.

Conta também com um aeroporto moderno e com o funcionamento regular de diversos empreendimentos para fazer ressurgir o seu parque industrial, tal como a circulação do comboio dos Caminhos-de-Ferro de Benguela (CFB), estruturas igualmente edificadas na época colonial.

O que se assiste actualmente nesta região é, efectivamente, uma fase de progresso, envolvendo cidadãos nacionais e expatriados que estão a trabalhar, em conjunto, para transformar ainda a cidade na primeira Capital Ecologia de Angola.

A cidade do Huambo possui dois espaços públicos de lazer (o Jardim da Cultura e a Estufa Fria), numa altura em o Governo Provincial mantém aposta na recuperação de 58 jardins públicos, já que a diversão e descontracção dos cidadãos são factores importantes no combate ao stress mental, físico e psicológico.

Com certo orgulho, os habitantes desta cidade regozijam-se por serem reconhecidos como hospitaleiros, trabalhadores, humildes e dedicados. É, em suma, essa mesma gente que, com olhos postos no futuro, prevê de forma radiante as suas aspirações de progresso social e económico.

Do ponto vista tradicional, a província conta com cinco reinos, designadamente do Huambo, Bailundo, Chingolo, Sambo e Chiyaka.

Recordando… a Casa dos Rapazes

Há muitas instituições que, por muito diferente que seja a vontade dos homens que hoje tentam reescrever os factos, fazem parte da nobre História da cidade do Huambo.. Uma delas, e felizmente não foi a única, é exactamente a Casa dos Rapazes, fundada em 1955 pelo padre português António Manuel Ferreira, para alojar crianças órfãs ou abandonadas.

Porque o homem sonha e a obra nasce, tudo começou quando Ruivo da Costa passou pela então Nova Lisboa e, em conversa com o Padre Ferreira, lhe disse da sua intenção de criar em Benguela uma instituição de apoio às crianças desprotegidas.

Com o engenho e arte que todos os que conhecerem o “Pai” (assim o consideravam os rapazes) reconhecem, o Padre Ferreira iniciou – com três crianças – no dia 15 de Agosto de 1955 aquela que viria a ser uma emblemática obra de benemerência. Quase como no milagre da multiplicação, começaram a aparecer mais e mais rapazes necessitados. Também as dificuldades logísticas se multiplicaram.

Em entrevista ao jornal “O Planalto”, o Padre Ferreira contou que, “quando se deitavam, as crianças tinham de passar por cima das camas dos outros, pois não havia qualquer espaço entre elas”. No entanto, acrescentava que “com muito trabalho, ajuda das boas almas e mercê de Deus” tudo foi sendo resolvido.

Desde sempre, mesmo considerando os apoios oficiais (como eram os do Governo do Distrito e da Câmara Municipal), sempre foi filosofia basilar do projecto, até mesmo para garantir o futuro dos rapazes, criar fontes de rendimento próprias e autónomas.

Tipografia, carpintaria e marcenaria, serralharia (Escola de Artes e Ofícios), padaria (era conhecida por fabricar o melhor pão da cidade), moagem, alfaiataria, sapataria, lavandaria, barbearia, horticultura, criação de animais e produção de leite… nada faltava neste obra que, também na sua vertente cultural (Banda e conjunto pop) e desportiva (basquetebol, voleibol, futebol etc.), ajudou a fazer homens sãos com mentes sãs.

A Casa dos Rapazes era, aliás, um daqueles exemplos contagiantes de amor à primeira vista relativamente a quem visitasse as suas instalações e, no local, visse como ali se formavam os homens que depois iriam ter o destino de Angola nas suas mãos.

O Padre Ferreira contava, aliás, um exemplo desse amor: “Um dia trouxe aqui um amigo, que se tornou num grande protector, para ouvir o coro dos meus rapazes. Ficou de tal maneira comovido que as lágrimas lhe corriam pelo rosto. Inscreveu-se como benemérito e passou logo a contribuir com quatro mil escudos mensais”. Esse amigo era Mac Gown, dono da Casa Americana.

Entre as muitas figuras de relevo na sociedade angolana de então, e que ajudaram a Casa dos Rapazes, é justo destacar Sá Machado e Pinheiro da Silva. Este último doou à instituição do Padre Ferreira uma das 25 bibliotecas que lhe tinham sido oferecidas, para distribuir por todo a província, pela Fundação Calouste Gulbenkian.

O Padre Ferreira também não esquecia os seus mais directos colaboradores. Na referida entrevista ao “O Planalto”, fez questão de dizer que “só conseguia levar a Cruz ao Calvário graças à ajuda do padre Eduardo da Silva Leitão e dos Irmãos Inocêncio e Vital”.

Contemporâneo do Padre Ferreira foi o Padre Abel, pároco que o substituiu no comando da Igreja do Bairro de S. João.

Sobre o “Pai” da Casa dos Rapazes, o padre Abel não tem dúvidas: “Foi dos melhores entre os melhores na tarefa divina de cumprir a máxima de que quem não vive para servir não serve para viver”.

E acrescenta que “o Padre Ferreira será sempre eterno porque, para além de ter iniciado uma obra que ainda hoje se mantém, vive na memória dos angolanos e dos portugueses, sendo uma figura transversal à sociedade e que dignifica o que de melhor a Igreja fez em Angola”.

Mas não são apenas os contemporâneos do Padre Ferreira que enaltecem a sua obra. Gerações bem mais novas, algumas das quais sentiram na sua formação o espírito da Casa dos Rapazes, até mesmo depois da morte do seu fundador, em 1969, veneram o “Pai”.

Folha 8 com Angop

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