O antigo primeiro-ministro de Portugal, o socialista António Guterres, agradeceu, em Nova Iorque, o apoio de Angola à sua candidatura ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas, elogiando o papel do reino de José Eduardo dos Santos no contexto internacional.

Por Orlando Castro

António Guterres, que foi igualmente alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, falava à rádio pública angolana, sobre o apoio de Angola, salientando que tem sido “um instrumento muito importante” para que tenha possibilidades de vencer.

“Gostaria de exprimir toda a minha gratidão e o meu apreço pelo que tem sido a posição do Presidente José Eduardo dos Santos, do Governo e povo de Angola, a solidariedade angolana tem calado muito fundo no meu coração”, referiu António Guterres mostrando que, afinal, bajular é uma questão genética em (quase) todos os socialistas – e não só – portugueses.

António Guterres já tinha estado em Luanda para pedir o apoio de Angola à sua candidatura a secretário-geral ONU. Como Folha 8 escreveu na altura (17 de Março de 2016), certamente que o regime não lhe negaria esse apoio. E assim é.

Pena é que, estamos em crer, o candidato se esqueça de que Angola não é o regime e que, por cá, existem angolanos a morrer todos os dias, de fome, de doenças. Se esqueça que Angola é um dos países mais corruptos do mundo. Se esqueça que Angola é um dos países com piores práticas democráticas. Se esqueça que Angola é um país com enormes assimetrias sociais. Se esqueça que Angola é o país com o maior índice de mortalidade infantil do mundo.

Na altura, em declarações à Angop, no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, António Guterres disse que, “por Angola estar envolvida em actividades internacionais extremamente relevantes, vejo-me na obrigação de transmitir pessoalmente essa pretensão as autoridades angolanas”.

Pois é. Estava até no Conselho de Segurança da ONU. E, pelos vistos, isso basta. O facto de ter desde 1979 um Presidente da República nunca nominalmente eleito, de ser um dos países mais corruptos do mundo, de ser um dos países do mundo onde morrem mais crianças… é irrelevante.

O também ex-primeiro-ministro, na linha aliás de todos os subservientes governos de Portugal, reforçou que Angola é um país que tem hoje múltiplas iniciativas no fórum internacional, com a sua presença no Conselho de Segurança das Nações Unidas, na presidência da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos (CIRGL) e em outras iniciativas no continente africano.

“Naturalmente como velho amigo deste país, senti que era meu dever, no momento em que anunciei a minha candidatura a secretário-geral das Nações Unidas, vir o mais depressa possível para poder transmitir essa intenção as autoridades angolanas”, sublinhou António Guterres.

Guterres tem razão. É um velho amigo do regime. Mas confundir isso com ser amigo de Angola e dos angolanos é, mais ou menos, como confundir o Oceanário de Lisboa com o oceano Atlântico. Seja como for, a bajulação continua a garantir apoios. Nesse sentido, António Guterres não se importa de continuar a considerar José Eduardo dos Santos como um ditador… bom.

António Guterres sabe que todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos há angolanos que morrem de barriga vazia e que 70% da população passa fome;

António Guterres sabe que 45% das crianças angolanas sofrem de má nutrição crónica, e que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos;

António Guterres sabe que no “ranking” que analisa a corrupção, Angola está entre os primeiros, tal como sabe a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos e que o silêncio de muitos, ou omissão, deve-se à coacção e às ameaças do partido que está no poder desde 1975;

António Guterres sabe que a corrupção política e económica é, hoje como ontem, utilizada contra todos os que querem ser livres, que 76% da população vive em 27% do território, que mais de 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada foi subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população;

António Guterres também sabe que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

Mas também é evidente que António Guterres sabe que ser amigo de quem está no poder, mesmo que seja um ditador, vale muitos votos.

Seja como for, António Guterres não devia gozar com a nossa chipala nem fazer de todos nós uns matumbos. É que, ao contrário do que o próprio Eduardo dos Santos pensa, ele não é eterno. E depois, como será?

Previsivelmente, a fazer fé nos múltiplos exemplos conhecidos, veremos António Guterres dizer que, afinal, Eduardo dos Santos era um ditador, que não era bestial mas antes uma besta. É isso, não é engenheiro Guterres?

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