“Já não sei precisar há quanto tempo oiço falar e conheço o William Tonet. Terá sido, certamente, depois de decorridos alguns anos sobre a independência de Angola, andava eu nos meus trinta e ele ainda nos vinte anos de idade.

Acabava eu de sair das neófitas fileiras juvenis do MPLA, a que aderi, formalmente, depois do 25 de Abril, e William Tonet vinha já de uma longa jornada de nacionalismo vivido ao lado de seu pai, antigo prisioneiro político por sua luta anti-colonial, o Tonet-pai, que viria a ser meu colega como deputado da Assembleia do Povo.

Dos tempos em que via o William como um desviado inconveniente do ideário monolítico para a transformação positiva do mundo que eu próprio ainda professava, no auge do sistema de estado-partido-único, até aos tempos da mudança que se impunha como necessária, em que eu próprio me tornei protagonista, o nosso conhecimento, admiração e amizade recíprocos foram-se aprofundando.

Quando me pedem hoje para falar de William Tonet, eu vejo uma figura impactante na vida de Angola, como uma nação a nascer de uma diversidade imensa na forma de concebê-la, em que, no entanto, um grupo se apoderou do comando da nau e procura afastar todas as concepções que não se compaginem com a “sua verdade” que pretendem única, ainda que claramente destrutiva. Mesmo em tempo de liberdades cívicas e políticas proclamadas, já lá vão quase três décadas.

Para mim o William é daqueles que não se contentam com a mesmice, como aqueles que estremecem apenas se esboça a ideia da substituição de um paradigma ultrapassado, favorecendo minorias.

Por este inconformismo congénito, William Tonet já foi vítima do cativeiro colonial, detido da UNITA na Jamba e foragido pedestre de estômago vazio e pés rebentados do ocupado Huambo por aquela organização então político-militar; e quantas vezes embrulhado no manto da humilhação, debaixo de todos os regimes vigentes sob a ainda hoje discriminatória bandeira do MPLA, tomada pelos homens do Presidente, a que todos obedecem prostrados.

Porém, o mais relevante a salientar da vida notável de William Tonet é que, apesar de todos estes carvalhos que o poderiam deitar abaixo, ele se mantém de pé, sempre propenso – entre as vicissitudes de uma errância, aparentemente, polémica – a servir de traço-de-união entre os pedaços de que é feito o nosso agitado tecido político.

Assim é William Tonet, como o vejo a contribuir para a propiciação de um entendimento entre chefes militares de duas partes desavindas no Leste de Angola, em 1991, para se consumar a primeira tentativa mais séria de construção da paz definitiva ou quando intervém na impossível – porque envenenada – reconciliação entre as facções da FNLA.”

Nota: Depoimento de Marcolino Moco para o livro “William Tonet – Mudar Angola”.

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