Estávamos em 2008. Uma intervenção “forte” de Angola no conflito que decorria na República Democrática do Congo, entre o Governo de Joseph Kabila e os rebeldes de Laurent Nkunda, era vista como incontornável por analistas angolanos.

Graça Campos, então director do Semanário Angolense, não tinha dúvidas de que Luanda só aguardava pelo “apoio formal” da comunidade internacional para enviar unidades militares em apoio ao Presidente congolês, Joseph Kabila.

Nessa altura, segundo especialistas internacionais, Luanda já tem militares no Congo.

Kabila enviara nesse ano o seu ministro da Cooperação Internacional a Angola para pedir o apoio do seu homólogo José Eduardo dos Santos, na procura de uma solução para o conflito que decorrua na província do Kivu-Norte, no leste da RD Congo, onde a capital provincial, Goma, estava em risco de ser tomada pelos homens de Nkunda.

Enquanto o regime angolano se resguardava no silêncio, fontes militares no Congo, tanto afectas a Kabila como a Nkunda, afirmavam que as FAA (Forças Armadas de Angola) já estavam no país.

Graça Campos sublinhava que Angola, que tem uma longa fronteira com este país, “é quem mais poderá perder com o desmembramento territorial da RDCongo” e, “consciente desse perigo, José Eduardo dos Santos vai exigir o apoio das organizações internacionais, como a ONU e a União Africana, para decidir o envio de uma força militar”.

Por seu lado, Nelson Pestana “Bonavena”, professor universitário, lembrava que “Angola é parte integrante da solução do conflito na RD Congo” frisando que Luanda “faz parte do sistema de sustentação de governação” daquele país.

“Angola é um aliado natural e forte do Governo de Joseph Kabila, pois tem participado em todos os processos de pacificação, na procura de entendimentos, e, obrigatoriamente, tem de participar nesse processo”, afirmou Nelson Pestana.

Segundo o analista, “Angola vai apoiar, quer de forma diplomática, quer através do apoio militar, ainda que seja para dissuasão”.

O também professor universitário Mário Pinto de Andrade realçava que o conflito na RD Congo é “político e não militar”, sublinhando que a Europa, nomeadamente a França e a Bélgica, ex-potências coloniais dos países mais próximos do conflito, também devia ter um papel na busca de soluções.

“Angola tem duas possibilidades de contribuir para a pacificação da RD Congo, a militar e a diplomática. Mas as autoridades angolanas têm, nos últimos tempos, rejeitado o envio de tropas para o exterior porque os esforços do país estão virados para a reconstrução nacional”, salientou Mário Pinto de Andrade.

Segundo o analista, “o que Angola pode fazer em termos militares é participar numa força conjunta”, no âmbito das organizações internacionais e regionais. “Não vejo como possível a disponibilidade de Angola, por si só, conceder apoio militar à RD Congo para a solução do conflito armado”, frisou.

A imprensa privada angolana tem divulgado (recordemos que estamos em 2008), embora esparsamente, que Luanda mantém um importante contingente militar em território congolês democrático e que a guarda presidencial de Kabila integra militares angolanos, mas essa informação nunca foi confirmada, nem pelo Governo, nem pela Presidência da República.

Também um porta-voz dos rebeldes congoleses, Bertrand Bisimwa, citado pela Associated Press, acusava Angola e o Zimbabué de estarem a mobilizar tropas para combaterem na RDCongo, tal como aconteceu na guerra civil de 1998-2002.

Recorde-se também que a família Kabila foi colocada no Governo de Kinshasa pelos norte-americanos que pretendiam afastar o Presidente anterior, Mobutu Sese Seko. Laurent Desire Kabila seguiu o manual de instruções de Washington e desempenhou o seu papel.

No entanto, quando tomou o poder em Kinshasa, em 1997, recusou-se a cumprir as indicações que lhe tinham sido dadas. Em vez disso, desenvolveu novas relações com Cuba, China, Líbia e Coreia do Norte. Países que ele considerava como hostis aos EUA, dizendo: «Eu não trairei o meu povo.»

Mobutu também repetiu uma declaração semelhante quando decidiu afastar-se: «Eu estou a devolver o poder ao meu povo», tendo-se tornado uma máxima libertar-se do jugo americano quando ele nacionalizou os bens estrangeiros. Operação iniciada em 1970 que ficou conhecida como a «zairinização».

Esta mudança de atitude fez com que, obviamente, os súbditos do tio Sam procurassem um mecanismo que pudesse ser usado para continuar a manobrar o governo. Estando Joseph Kabila no poder, o General Nkunda contava, fosse via Ruanda ou outra qualquer (não faltam vias), com o apoio dos EUA.

Assim sendo, a paz neste país, nesta região, neste continente, só será alcançada se isso for do interesse das potência estrangeiras. Se não for… a guerra continua.

Relembre-se ainda que o anterior presidente do Congo, Laurent Kabila subiu ao poder também graças à ajuda militar angolana, disso ninguém tem dúvidas.

O exército angolano ofereceu a Kabila uma brigada de 3 mil homens muito bem armados e treinados. Na maioria, esses homens eram antigos gendarmes catangueses, desejosos de vingar a derrota sofrida frente a Mobutu quando foi da revolta do Catanga.

Kabila aceitou a ajuda desses militares mas, logo após a vitória, em Maio de 1997, dissolveu essa brigada porque a consideraria perigosa por suspeitar que seria leal aos interesses angolanos.

Ora, significava que Kabila desconfiava do amigo angolano… e, assim, percebe-se melhor a forma como morreu assassinado em Janeiro de 2001.

Que papel é que desempenhou exactamente o chefe das forças presidenciais, o coronel Eddy Kapend, apresentado como o homem de confiança de Angola e que, segundo rumores não confirmados, teria encontrado na Europa, em Dezembro de 2000, certos membros do “complot” mobutista, incluindo o capitão Atenbina?

Por que é que as tropas de Angola e do Zimbabué, verdadeiros patronos do regime actual, se distribuíram tão rapidamente pela capital nas horas que se seguiram ao atentado?

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