“Camarada presidente continua a conduzir os destinos do país, o povo pede”, diz o slogan da campanha presidencial discretamente iniciada há dias.

Por Rafael Marques de Morais (*)

A colocação de outdoors em locais-chave de Luanda é um dos primeiros passos de uma estratégia que visa preparar a opinião pública nacional e internacional para a manutenção de José Eduardo dos Santos no poder.

Muitos cidadãos nutriam a vaga esperança ou ilusão de que José Eduardo dos Santos teria honra e dignidade suficientes para cumprir com a sua palavra, segundo a qual se retiraria voluntária e pacificamente da vida política em 2018, após concluir 39 anos no poder. Mas o presidente não tem palavra de honra, muito menos sensibilidade para reconhecer a ruína em que o país se encontra nem o grande mal que a sua incompetência causa aos angolanos. Não, o presidente prefere prosseguir com os seus actos nefários, mantendo-se obcecado em permanecer, já em desespero, na eterna cadeira presidencial.

Entre os principais patrocinadores da campanha anunciados nos cartazes, encontra-se a filha do próprio ditador, a deputada e membro do Comité Central do MPLA Tchizé dos Santos, que participa com o seu Tea Club. A outra instituição que dá a cara é a Mira Sambila, dirigida pelo presidente do Banco de Poupança e Crédito (BPC), António Paixão Júnior, um banco do Estado e um dos grandes veículos das práticas neo-patrimonialistas do presidente.

O cartaz destaca os 99,6 por cento dos votos a favor de José Eduardo dos Santos na sua recente reeleição para presidente do MPLA, onde concorreu contra si próprio e mais ninguém. O candidato teve o controlo absoluto sobre todo o processo, não fossem surgir fantasmas a disputar-lhe votos. No entanto, o cartaz passa a ideia de um processo democrático de escolha, quando afinal estamos a falar de um valor de 99,6 por cento numa eleição com candidato único – digna da Coreia do Norte. Tudo menos democracia, portanto. Quando muito, poderão falar de uma ditadura de consenso, mas de democracia não. Pois senão como explicar que o MPLA, com supostamente oito milhões de militantes, apenas disponha de um único indivíduo iluminado e com vontade para ser presidente?

O cartaz que aqui se vê, aveludado por uma linguagem que remete para a possibilidade de escolha, passa a ideia de que o processo eleitoral unipessoal do MPLA equivale ao processo das eleições gerais em Angola.

A propaganda, em si, revela o carácter antidemocrático do regime, apesar da sua subtileza. O povo não pediu que José Eduardo dos Santos se mantivesse no poder. A única ocasião em que teve a possibilidade de votar em eleições presidenciais directas, de escolher o seu candidato presidencial, em 1992, o povo angolano não permitiu que JES ganhasse à primeira volta. A guerra eliminou a segunda volta das presidenciais. Por isso, o ditador, precavido, só voltou a anunciar eleições depois de fixar uma Constituição atípica, que impede o presidente de ser eleito directamente pelo povo ou pelo parlamento. JES despreza e tem medo do povo. Roubou-lhe o direito de escolher o seu presidente.

Do ponto de vista semiótico, o cartaz ressuscita a ideologia totalitária dos anos 70, segundo a qual “O MPLA é o povo e o povo é o MPLA”. Todavia, é preciso reconhecer a capacidade do MPLA e de José Eduardo dos Santos em se apoderarem de discursos e instituições da democracia, para os subverter, ajustando-os aos seus desígnios maniqueístas. Este cartaz é o símbolo acabado dessas práticas de subversão.

O povo pede emprego, o povo pede saúde, o povo pede educação, o povo pede transparência, o povo justiça, o povo pede liberdade, o povo pede democracia, o povo pede a saída de José Eduardo dos Santos.

Se a filha do ditador e outros mensageiros do seu pai podem falar em nome do povo, então os filhos do povo têm mais legitimidade e todo o dever de o representar:

— Dos Santos, vai-te embora – o povo pede.


(*) Maka Angola

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